A presença de jogadores estrangeiros no futebol brasileiro vai passar por mudanças nos próximos anos. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e os clubes das Séries A e B aprovaram, nesta segunda-feira (21), a redução gradual do número de atletas de outros países que podem ser relacionados por partida nas competições nacionais. O limite, que atualmente é de nove jogadores, será reduzido para oito em 2027 e chegará a cinco em 2030.
A decisão foi tomada durante uma reunião entre a CBF, os 40 clubes das duas principais divisões do Campeonato Brasileiro e as federações estaduais, realizada no Rio de Janeiro. A proposta prevê uma redução de um jogador por temporada: serão oito estrangeiros permitidos em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e cinco a partir de 2030.

(Reprodução: Thiago Ribeiro/CBF)
A mudança não impede que os clubes tenham mais estrangeiros em seus elencos. A limitação é aplicada aos jogadores que podem ser relacionados na súmula de cada partida. A regra atual, de nove atletas, está em vigor desde 2024.
Segundo a CBF, a proposta tem como um dos objetivos aumentar o espaço para jogadores brasileiros mais jovens. De acordo com a entidade, atletas brasileiros Sub-23 tiveram participação cada vez menor nos minutos disputados na Série A, enquanto a presença de estrangeiros cresceu nos últimos anos. A média de idade dos jogadores do Brasileirão também foi apresentada como um dos fatores considerados no estudo que deu origem à mudança.
Além da redução de estrangeiros, os clubes também aprovaram uma alteração na composição dos elencos. O limite de inscritos continuará sendo de 50 jogadores, mas a lista será dividida entre atletas acima de 23 anos e jogadores Sub-23. Em 2027, serão 30 vagas para o primeiro grupo e 20 para o segundo. A proporção será modificada gradualmente até chegar a 25 jogadores em cada grupo em 2030.
A decisão, no entanto, não foi unânime entre os clubes. Flamengo, Bahia e Londrina votaram contra a redução, enquanto a maioria aprovou a proposta. O Flamengo argumentou que a medida pode limitar as possibilidades de contratação de jogadores estrangeiros, principalmente diante das regras atuais para transferências entre clubes brasileiros.
A discussão ganha ainda mais relevância diante do crescimento da presença estrangeira no Campeonato Brasileiro. Atualmente, a Série A conta com cerca de 160 jogadores estrangeiros, distribuídos por 27 países, o equivalente a aproximadamente 25% dos atletas da competição. A média é de oito estrangeiros por clube, próxima ao limite atual de nove relacionados por partida.
Entre os torcedores, a mudança também divide opiniões. Para Enzo Gomes, estudante de cinema de 25 anos e torcedor do Fluminense, a presença de jogadores estrangeiros tem contribuído para o desempenho dos clubes brasileiros, e a redução do limite pode trazer impactos para a montagem dos elencos. Ele considera que a medida não necessariamente vai garantir mais espaço aos jovens formados nas categorias de base.
“Não faz muito tempo que o limite foi aumentado e também não vejo muito sentido nessa decisão”, opina.
Para ele, a principal consequência da mudança pode ser a necessidade de os clubes buscarem mais alternativas no mercado nacional. O torcedor acredita que as equipes poderão investir na contratação de jogadores brasileiros, tentar repatriar atletas que atuam no exterior ou aumentar os investimentos nas categorias de base.
“Sou tricolor, meu time votou a favor de limitar os estrangeiros… na visão de nossos representantes, só os times de fora podem ter estrangeiros, tendo em vista as péssimas vendas de jogadores que o clube faz para o exterior”, explica o torcedor.
Segundo ele, apesar de o Fluminense ter votado a favor da medida, a equipe também tem recorrido ao mercado internacional para contratar jogadores. Como exemplo, citou Canobbio, contratado pelo clube após atuar no futebol brasileiro, e destacou que o maior ídolo recente da equipe, em sua avaliação, referindo-se a Germán Cano, é argentino.
Além da discussão sobre o espaço destinado aos jogadores brasileiros, a presença de estrangeiros também é vista por torcedores como um fator que contribuiu para a evolução recente de alguns clubes. Maria Eduarda Valentim, torcedora do Botafogo de 23 anos e estudante de marketing, é uma das que questionam a redução do limite.
Ao falar sobre os clubes que, segundo ela, foram beneficiados pela presença de jogadores de outros países, a torcedora citou Botafogo, Fluminense, Palmeiras e Vasco. Entre os exemplos, destacou a importância de Jhon Arias para o Fluminense e de jogadores estrangeiros nos elencos de outras equipes.
Em sua avaliação, a justificativa de que a medida abriria espaço para jogadores formados nas categorias de base não seria suficiente, já que os jovens que se destacam nos clubes brasileiros também costumam ser negociados com equipes do exterior.
“Tá, mas o da base é muito bom e vai ser vendido para fora. Então vai pegar o terceiro, quarto da divisão da base, que é meio que ‘ruim’, para prejudicar o nosso futebol? Tipo, prejudicar o nosso time?”, comenta.
Ela também usou Richard Ríos como exemplo para defender que a formação nas categorias de base não significa necessariamente permanência no futebol brasileiro. Segundo a torcedora, o jogador colombiano passou pela base do Flamengo, foi emprestado para o México e posteriormente retornou ao Brasil para atuar pelo Guarani antes de seguir a carreira em outros clubes. Outro exemplo citado foi Luiz Henrique, revelado pelo Botafogo. Para ela, o caso reforça a ideia de que jogadores formados no Brasil podem deixar o país mesmo quando recebem espaço nos clubes.
“Eu acho muito errado eles acharem que os da base vão ficar por aqui. Não vão. Isso vai prejudicar cada vez mais. O time que está ruim vai ficar pior”, opina a estudante.
A mudança no limite de estrangeiros coloca em discussão diferentes aspectos do futebol brasileiro, desde o espaço destinado aos jogadores formados nas categorias de base até a estratégia de montagem dos elencos. Enquanto a medida busca incentivar a utilização de atletas brasileiros, a presença de estrangeiros também passou a fazer parte da realidade de diversos clubes e de seus planejamentos. Com a nova regra, as equipes terão de adaptar suas escolhas para as próximas temporadas, e os efeitos da mudança deverão ser percebidos conforme os novos elencos forem formados.
Foto de Capa: Reprodução/Joilson Marconne/CBF
Reportagem de Isabel Menezes Ferreira, com edição de texto de Carolina Bento
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