Durante os últimos anos, a discussão sobre diversidade corporal ganhou espaço nas redes sociais, na publicidade e no entretenimento. Movimentos como o body positivity e, posteriormente, o body neutrality passaram a questionar a necessidade de enquadrar os corpos em um único padrão de beleza. No entanto, a valorização de corpos extremamente magros volta a ganhar espaço e reacende uma discussão sobre os efeitos que esses padrões podem provocar na relação das pessoas com a própria imagem.

A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” também passou a fazer parte desse cenário. Medicamentos utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes ganharam grande visibilidade nas redes sociais e no cotidiano, enquanto a busca por formas cada vez mais rápidas de emagrecimento se tornou parte do debate sobre estética.
Nesse contexto, o desejo por um corpo considerado perfeito pode ultrapassar a preocupação com a aparência e afetar a forma como uma pessoa enxerga a si mesma. A psicóloga Rita Monteiro explica que a aparência física ocupa um espaço significativo na construção da autoestima justamente porque interfere na percepção que cada indivíduo possui sobre si e sobre a maneira como acredita ser visto pelos outros.
“Na minha percepção, isso se dá porque a aparência física influencia a forma como a pessoa percebe a si mesma e acredita ser percebida pelos outros. E se essa pessoa sente que não corresponde ao padrão visto como ideal, pode vivenciar insegurança e insatisfação consigo mesma”, afirma a psicóloga.
Segundo ela, embora cada pessoa possua gostos e preferências próprias, essas escolhas não acontecem de maneira isolada. O contexto social em que o indivíduo está inserido também participa da construção daquilo que é entendido como bonito, desejável ou adequado.
A retomada da extrema magreza também pode ser percebida na indústria do entretenimento. O termo “Hollyweird”, junção de Hollywood com “weird” — estranho, em inglês — passou a ser utilizado para descrever a aparência cada vez mais magra de algumas celebridades e o estranhamento provocado por esse padrão. A discussão ganhou força diante da exposição de corpos muito magros em produções audiovisuais, tapetes vermelhos e redes sociais.
Um dos casos que reacendeu esse debate recentemente foi o da cantora Ariana Grande. A artista passou a receber comentários sobre sua aparência em diferentes plataformas, enquanto uma publicação relacionada ao videoclipe “Petal” chegou a receber uma nota de comunidade no Instagram alertando para a discussão sobre imagem corporal e transtornos alimentares. A situação trouxe novamente à tona uma questão que ultrapassa a aparência de uma única celebridade: até que ponto a repetição de determinados corpos pode influenciar aquilo que a sociedade passa a considerar desejável?
A influência dessas imagens não se limita às celebridades. Nas redes sociais, também circulam conteúdos que associam a ideia de ser magra a vestir determinados tamanhos de roupa, inclusive numerações consideradas infantis. A associação entre magreza e beleza pode transformar uma característica corporal em uma espécie de parâmetro para medir o próprio valor.
Para Maria Eugênia, que enfrentou anorexia durante a adolescência, essa relação começou a se modificar durante a pandemia. Na época, ela passou a consumir conteúdos relacionados ao K-pop e começou a comparar o próprio corpo com os corpos extremamente magros que encontrava nesse universo.
“Comecei a me comparar àqueles corpos extremamente magros, a consumir menos comida e exercitar mais.” Explicou, a jovem.
Padrões de beleza são construídos socialmente e podem ser incorporados desde cedo. A repetição de um mesmo modelo corporal contribui para transformar uma característica específica em referência de beleza, enquanto outros tipos de corpos deixam de ocupar o mesmo espaço.
A nutricionista Liliane Lima explica que essa pressão também chega aos consultórios. Segundo ela, existe uma expectativa crescente para que o nutricionista não seja visto apenas como um profissional voltado à saúde, mas também como alguém responsável por promover transformações estéticas.
“Essa pressão tem crescido com o passar do tempo, com o olhar das pessoas para as redes sociais e o aumento de sua vaidade.” Afirma, a nutricionista.
Para a profissional, essa realidade exige que o acompanhamento nutricional considere não apenas o objetivo apresentado pelo paciente, mas também sua saúde e sua relação com a alimentação.
“Não existe um corpo ideal! Isso é muito influenciado pelas mídias sociais. A nutrição precisa ser individualizada, porque um corpo saudável, deve ser o único padrão ideal” explica, a nutricionista.

A repetição de apenas um tipo de corpo na mídia pode contribuir para que outras formas corporais sejam vistas como inadequadas. Para Maria Eugênia, essa representação limitada também esteve relacionada à forma como ela passou a enxergar o próprio corpo.
“Eu sou uma mulher alta, tenho 1,74 de altura e cresci vendo mulheres altas que só são magras. Não existia uma representação de mulher alta que não fossem modelos. Então eu me comparava com isso”, contou a entrevistada.
A questão, portanto, não está apenas na existência de um padrão, mas na frequência com que ele é apresentado. Quando um mesmo modelo aparece repetidamente em filmes, novelas, campanhas, passarelas e redes sociais, ele pode passar a ocupar um espaço maior no imaginário coletivo.
Para Maria Eugênia, o entretenimento participa diretamente na construção daquilo que as pessoas aprendem a considerar um corpo ideal.
“Eu acho que o “corpo ideal” é uma coisa que desde pequeno a gente tem na nossa cabeça, pelos conteúdos da televisão e hoje pelos influenciadores nas redes sociais. Acredito que isso realmente foi o que mudou meu cérebro e me fez desenvolver o problema que tive na época.”, afirma a entrevistada.
A psicóloga Rita Monteiro explica que esse processo está relacionado à comparação social. Para ela, as pessoas tendem a avaliar a própria aparência a partir das referências encontradas ao redor, especialmente quando essas imagens são apresentadas como modelos desejáveis. A psicóloga destaca ainda que a exposição pode afetar uma pessoa mesmo quando ela reconhece racionalmente que determinada imagem foi modificada ou idealizada.
“Mesmo sabendo racionalmente que imagens de celebridades e personagens podem ser modificadas, idealizadas ou irreais, nossa percepção emocional pode ser influenciada por elas. A exposição frequente cria referências de beleza que podem ser internalizadas, levando à comparação e à sensação de que nosso próprio corpo não corresponde ao ‘padrão ideal’”, afirma a psicóloga.
A nutricionista Liliane Lima também percebe essa influência na prática profissional. Segundo ela, comportamentos alimentares podem ser afetados pelo que as pessoas consomem nas redes e pelo significado emocional atribuído a esses conteúdos.
“Isso para nós nutricionistas é um desafio, pois a alimentação não é apenas consumir nutrientes e calorias, mas sentimentos, cultura, lembranças, emoções”, afirma a nutricionista.
A profissional também destaca que a repetição de padrões estéticos pode contribuir para o surgimento ou agravamento de transtornos alimentares.
“Muitos transtornos alimentares têm ocorrido por ‘padrões estéticos’ distorcidos que são expostos nas mídias. Quanto mais o ser humano olha para o outro, mais ele esquece de olhar para si mesmo”, completa a nutricionista.
A valorização de um único padrão corporal não afeta somente a maneira como as pessoas se alimentam ou percebem seus corpos. Para a psicóloga Rita Monteiro, a pressão estética pode alcançar diferentes áreas da vida.
“A preocupação constante com o corpo pode consumir energia emocional, diminuir a autoestima e gerar insegurança, afetando a concentração, a produtividade, os relacionamentos e até a participação em atividades sociais e educacionais”, afirma a psicóloga.
Segundo ela, quando uma pessoa acredita que precisa estar dentro de determinado padrão para ser aceita ou valorizada, pode passar a evitar situações, oportunidades ou espaços por medo de julgamentos.
No campo da saúde pública, a nutricionista Liliane Lima afirma que a valorização excessiva de um único tipo físico também exige medidas de prevenção e orientação. Para ela, é necessário ampliar o acesso a informações confiáveis sobre alimentação e saúde, além de fortalecer políticas públicas voltadas à promoção de hábitos saudáveis e à prevenção de transtornos alimentares.
Entre as iniciativas existentes, a nutricionista cita o Guia Alimentar para a População Brasileira e a Política Nacional de Alimentação e Nutrição. Segundo ela, apesar das orientações existentes, ainda há espaço para avanços e para uma maior busca por informações em fontes confiáveis e com profissionais especializados.
Mais do que acompanhar uma tendência estética, a discussão sobre a extrema magreza revela como os padrões corporais são construídos e reforçados por diferentes setores da sociedade. Redes sociais, entretenimento, publicidade e até o discurso sobre alimentação participam dessa construção, enquanto a repetição de um único modelo pode transformar a busca pela aparência ideal em uma fonte de insatisfação.
Para Liliane Lima, a alimentação precisa ser compreendida para além da contagem de calorias e da aparência corporal.
“Acho que não apenas eu, mas os profissionais da nutrição que realmente estudaram para serem promotores de saúde gostariam que as pessoas vissem a alimentação como meio para um estilo de vida saudável”, afirma a nutricionista.
Segundo ela, comer também envolve prazer, cultura e qualidade de vida. “Uma nutrição plena, que forneça os nutrientes necessários para cada um de forma individualizada, onde possam viver com qualidade, envelhecer com saúde e ter uma rotina alimentar sem terror nutricional”, explica a profissional.
Em meio à volta de padrões que durante anos foram questionados, a discussão deixa de ser apenas sobre qual corpo está em alta e passa a envolver os efeitos que essa busca pode produzir. Afinal, quando um único modelo é repetido como sinônimo de beleza, saúde e sucesso, reconhecer que corpos diferentes também existem se torna parte fundamental da construção de uma relação mais saudável com a própria imagem.
Reportagem por Maria Eduarda Lima
Foto de capa: Pexels
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