Sempre soube que a música não é só som: é um pulso que corre nas veias e dita o ritmo da vida. Lembro-me de uma manhã cinzenta no Rio, daqueles dias em que a garoa fina teima em molhar as calçadas da Tijuca. Acordei com o peso de uma deadline apertada na redação, o corpo pesado como chumbo. Liguei o fone e veio “Fight Song”, de Rachel Platten. De repente, o caos se transformou em poesia. Comecei a dançar pela cozinha, os pés pisando no ritmo irregular da bossa nova, e o texto que eu precisava escrever fluiu como se as palavras estivessem esperando só por aquela melodia.
A música me tirou do buraco, me fez rir sozinha enquanto fritava os ovos. Ela muda o comportamento assim, de forma sutil e irresistível, da estática para a vida em segundos. Não é só comigo. Vejo isso nas ruas de Copacabana, onde um samba enraivecido faz o carioca esquecer o trânsito infernal e balançar os quadris no sinal vermelho. A música nos embala ou nos sacode; ela acelera o coração para uma corrida impulsiva ou acalma para uma reflexão profunda. É como um remédio sem receita.
Uma playlist animada me leva a caminhadas longas pela Praia de Botafogo, pés na areia, mente limpa; um rock pesado me impulsiona a limpar a casa inteira às três da manhã, varrendo poeira e frustrações. Aqui no Brasil, isso é ainda mais visceral. O pagode nos une em rodas de amigos, fomentando abraços e confidências que o silêncio nunca traria.
Lucimar Correa, apaixonada por jazz e também por blues, ama a música de Amy Winehouse, que detalha muito o blues como base emocional e o jazz mais técnico de base harmônica. É uma progressão de estilo, uma intersecção de dois gêneros musicais de grande liberdade que externa o refinamento e a sofisticação do swing, criando uma sonoridade híbrida entre esses dois gêneros distintos que se combinam sem a imposição de um único estilo, trazendo complexidade para acordes rítmicos mais avançados.
E isso nos faz acordar, o levitar do som da música proposto a elevar nossa autoestima; a música acalma, reflete e inspira. De acordo com os musicoterapeutas, “a música não é só entretenimento, é uma ferramenta terapêutica que modula respostas comportamentais, incentivando a expressão emocional e conexões interpessoais de forma natural e profunda.”
E eu? Eu mudo com ela. Quando escrevo meus livros ou crônicas à noite, coloco uma balada de música pop e as palavras ganham alma, assim como a música me inspira a continuar indo atrás dos meus sonhos. Sem música, sou só a jornalista correndo contra o tempo. Com ela, sou um furacão de emoções, dançando pela vida sem pedir licença. No fim, a música não apenas toca, ela nos toca. Ela nos faz rir alto demais, amar intensamente, brigar com paixão ou perdoar em silêncio. E eu agradeço por isso todo dia, porque sem ela, o mundo seria mudo e eu, parada.
Foto de capa: Gemini
Crônica por Raquel Costa, com edição de texto de João Gabriel Lopes
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