O uso excessivo de telas tem preocupado educadores, já que 76% dos professores e 81% dos gestores afirmam que os alunos não conseguem se desconectar, enquanto 56% dos estudantes reconhecem essa dificuldade. Além disso, o excesso está ligado à distração, a prejuízos na concentração e a impactos na saúde mental, como a ansiedade. Mesmo assim, os dispositivos também contribuem para a socialização e o aprendizado, o que evidencia a necessidade de buscar um equilíbrio.
Segundo especialistas, esse comportamento pode trazer consequências significativas para a saúde física e mental. Problemas como insônia, ansiedade, dificuldade de concentração e até alterações na visão estão entre os efeitos mais comuns associados ao uso prolongado de aparelhos eletrônicos.

(Foto: Reprodução/Wikimedia commons)
De acordo com estudos recentes, o tempo médio diário diante das telas aumentou consideravelmente nos últimos anos, impulsionado principalmente pelo avanço das redes sociais e do trabalho remoto. A facilidade de acesso à informação e o estímulo constante de notificações contribuem para que o usuário permaneça conectado por longos períodos, muitas vezes sem perceber.
Para discorrer sobre o assunto e trazer sua perspectiva, a reportagem ouviu Paulo César Alves Araújo, professor de Matemática e coordenador de uma das unidades da Fundação de Apoio à Escola Técnica (FAETEC). Engenheiro mecânico formado pela UFRJ, especialista em Educação e Avaliação, e mestre em Matemática, ele atua como docente há mais de 30 anos. Atualmente na coordenação do curso de Matemática da ETEFV, Araújo destaca que a forma como os alunos se comportam em sala de aula tem chamado a sua atenção.

(Foto:Reprodução/Arquivo pessoal)
O educador destaca a dependência dos alunos por informações rápidas e vídeos curtos, alertando que a busca constante por dopamina e a influência dos algoritmos estão moldando o comportamento de crianças e adolescentes. Paulo César aponta mudanças claras na interação com os jovens, observando que a dinâmica das conversas mudou e as respostas estão cada vez mais breves. Esse padrão de comportamento, segundo ele, reflete diretamente em outro momento crucial: a realização das provas.
“A minha prova de Matemática tem um texto claro, mas, como ele é longo, você percebe que o aluno não consegue armazenar as informações. Passou da primeira linha, a memória apaga; ele começa a ler e precisa voltar. Esses dois instrumentos fizeram com que eu me questionasse: o que está acontecendo com essa garotada?”, explica o professor.
Confira o trecho completo na entrevista abaixo:
Embora defina seu método de ensino como tradicional, o educador ressalta que não é avesso à tecnologia. Pelo contrário: ele conta que seu diário de classe hoje é totalmente digital e que a internet é uma aliada constante em suas pesquisas. Araújo também incentiva os estudantes a acessarem o Google Classroom, plataforma que utiliza para a comunicação extraclasse e para o compartilhamento de videoaulas complementares, oferecendo diferentes perspectivas sobre os conteúdos abordados em sala.
“O problema é que eles não conseguem utilizar a ferramenta dessa forma. Acabam usando para sites de apostas, WhatsApp, Instagram, entre outros. Já flagrei vários alunos assim”, finaliza o educador.
Confira o trecho completo abaixo:
O professor complementa que a Lei 15.100, recentemente aplicada em todo o país, tem se mostrado ineficaz, uma vez que a maioria das pessoas não a cumpre. Além dos impactos emocionais, há também consequências físicas. A chamada “síndrome do pescoço de texto”, causada pela postura inadequada ao usar o celular, e o cansaço visual são cada vez mais frequentes. A exposição prolongada à luz azul emitida pelas telas também pode interferir no ritmo biológico do corpo.
“Esse tipo de lei, infelizmente, não está ajudando. Precisamos de um outro tipo de movimento para mudar a mentalidade das pessoas, e não apenas proibi-las de fazer isso ou aquilo”, finaliza o professor.
Confira o final do trecho abaixo:
Entre crianças e adolescentes, os efeitos podem ser ainda mais intensos. O excesso de telas pode comprometer o desenvolvimento social, reduzir a prática de atividades físicas e interferir no rendimento escolar. Por isso, organizações de saúde recomendam limites de tempo e o acompanhamento dos responsáveis.
Apesar dos riscos, especialistas destacam que o problema não está no uso da tecnologia em si, mas no desequilíbrio. “As telas fazem parte da vida moderna, mas é fundamental estabelecer limites e momentos de desconexão”, afirmam.
Em conversa, a estudante Ingrid Barreto (14) afirma que tenta ao máximo não mexer em seu celular na sala de aula, pois, não gosta de estudar em casa e opta por prestar atenção nas aulas e absorver todo o conhecimento no local.
“Pra mim, é algo que funciona, para não precisar gastar o pouco tempo que tenho de lazer estudando, prefiro prestar atenção nas aulas e tentar entender tudo, tirar dúvidas em sala”, conta a aluna.
Algumas estratégias simples podem ajudar a reduzir o impacto desse excesso, como evitar os dispositivos eletrônicos antes de dormir, estabelecer pausas durante o dia, praticar atividades físicas e investir em interações presenciais.
Para a Psicologia, esse padrão de comportamento está diretamente relacionado à busca por recompensa imediata. Curtidas, comentários e atualizações constantes ativam mecanismos de prazer no cérebro, o que cria um ciclo de dependência digital. “O uso excessivo pode gerar um estado de alerta constante, dificultando o relaxamento e prejudicando a qualidade do sono”, apontam especialistas.
Diante de um mundo cada vez mais conectado, o desafio está em encontrar um equilíbrio saudável entre o online e o offline. Mais do que nunca, saber a hora de desligar pode ser essencial para preservar a saúde mental e a qualidade de vida.
Foto de capa: Reprodução/Wikimedia Commons
Reportagem de Joyce Guilherme, com edição de texto de João Gabriel Lopes
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