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“Os Esquecidos de Domingo” de Valérie Perrin esquece o ponto central da trama

Justine vive entre memórias de idosos e segredos familiares, enquanto investiga seu passado

Lançado em março de 2026 pela Intrínseca, “Os Esquecidos de Domingo”, de Valérie Perrin, traz uma espécie de romance epistolar construído a partir de fragmentos de memórias da protagonista, Justine, e dos idosos do asilo Hortênsias, onde ela trabalha. Aos 21 anos, a técnica de enfermagem não conhece uma realidade além da casa dos avós, do convívio com o primo Jules e do próprio lar para idosos. Vivendo a juventude por meio das histórias dos mais velhos, ela tenta desvendar os segredos de sua família sobre um fatídico acidente de carro que resultou na morte de seus pais e de seus tios.

Paralelamente, a jovem se encanta por uma das residentes do Hortênsias, Hélène, que compartilha sua trajetória sofrida e o grande amor por Julien, a quem considerava marido, mesmo sem nunca terem oficializado a união. Apaixonada por Roman, neto da idosa, Justine decide registrar a história do casal em um caderno azul, ao mesmo tempo em que busca preencher as lacunas do seu próprio passado familiar.

O ponto alto do livro é a vida de Hélène e Julien, um romance ardente que não perde a intensidade com a idade. Mesmo com a memória fragilizada, Hélène relata a Justine os momentos mais íntimos e emocionantes ao lado do amado. A história dos dois, que sobrevive ao tempo, à guerra e aos desencontros, acaba se mostrando mais interessante que o próprio presente da protagonista.

Dividida entre o mistério da morte dos pais e dos tios, as desconfianças que recaem sobre os avós e o sentimento de obrigação em cuidar do primo que considera um irmão, Justine encontra um sopro de juventude apenas quando vai à boate Paraíso. No local, ela mantém uma espécie de não relação com um jovem cujo nome sequer lembra, recorrendo a encontros casuais enquanto nutre uma paixão silenciosa e ardente por Roman.

Valérie Perrin, autora francesa de ‘Os esquecidos de domingo’, ‘Três’ e ‘Querida Tia’.
(Foto: Reprodução/X)

A escritora é conhecida por explorar segredos familiares e relações complexas em dramas cotidianos, com sucessos como “Três e Querida Tia”. Dessa vez, a francesa acaba deixando a trama principal, que dá nome ao livro, de lado. Em prol de uma infinidade de capítulos que, mesmo em poucas páginas, se voltam mais para o lirismo do que para os acontecimentos, a autora por vezes torna a leitura um pouco cansativa.

O título da obra faz referência ao dia de visitas no asilo. Os esquecidos de domingo são os idosos cujas famílias não se importam mais em lembrar de sua existência. A dinâmica muda quando ligações misteriosas começam a ser feitas para os parentes, comunicando falsas mortes e exigindo a presença deles para reconhecimento aos domingos. Com isso, os esquecidos finalmente reencontram suas famílias, o que traz cor à rotina pacata e gera uma confusão citada de forma muito breve, quase esquecida na narrativa.

A história fluiria melhor se desse mais atenção à premissa principal dos esquecidos de domingo e aos flashbacks da vida de Hélène e Julien. Embora os mistérios da família de Justine ganhem algum interesse na reta final, envolvendo tramas de incesto, traição e vingança, a maior parte do livro se arrasta acompanhando uma protagonista confusa. No geral, é uma obra bonita no que diz respeito ao romance e, mesmo que a solução do mistério final não seja surpreendente, a história fecha bem, ainda que não alcance seu potencial máximo.

Resenha crítica de Camila Teixeira, com edição de João Gabriel Lopes

Foto de Capa: Divulgação/Intrínseca

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