Crônica

O Som da saudade

Nessa crônica a repórter Ana Carolina explora a relação entre som e memória, mostrando como músicas e pequenos ruídos do cotidiano despertam lembranças e sentimentos profundos

Eu cresci com um despertador que não tinha botão de soneca, nem tela digital — tinha voz, cavaquinho e um sorriso que cabia no mundo inteiro. Minha avó era fã do Zeca Pagodinho. Mas não fã comum: era daquelas que acordavam a casa inteira antes mesmo do sol, com o rádio já ligado, enchendo cada canto com samba e alegria. E eu acordava assim, todos os dias em que dormia na casa dela: com o som que, sem eu imaginar, viraria memória. 

O tempo passou como passa para todo mundo — silencioso, inevitável — e minha avó se foi. Só que, recentemente, meu pai começou a colecionar CDs. Um hobby novo, quase anacrônico em tempos de streaming. E, no meio dessa coleção, ele fez algo que não era só compra, era gesto: adquiriu todos os CDs do Zeca Pagodinho, como uma forma de homenageá-la. 

Foi aí que eu entendi uma coisa. 

A música não acaba quando a canção termina. 

Porque toda vez que uma dessas faixas começa a tocar, minha avó volta. Não inteira, não em carne e osso — mas em fragmentos tão vivos quanto. Ela está ali, no rádio antigo, na cozinha, no cheiro do empadão, no jeito que a casa parecia sempre acordada antes do mundo. Cada música carrega uma cena, um detalhe, uma sensação. E eu percebo que não existe uma sequer que eu não tenha escutado com ela em algum momento, em algum lugar, em alguma versão da minha infância. 

Mas não é só com ela. 

Tem músicas que me levam para outros pedaços da minha vida, como se fossem portais discretos. Quando toca “The Climb”, eu não escuto só a voz — eu sinto. É uma nostalgia quase inexplicável, uma lembrança que não vem inteira, mas emociona do mesmo jeito. E tem “Te Amo Espanhola”, que me transporta diretamente para uma calçada qualquer de Japeri,  voltando da escola, cantando com a minha mãe como se aquela música fosse nossa — e talvez fosse mesmo, já que ela cantava trocando o verso para “te amo Carol” o caminho inteiro.

A música tem esse poder curioso de organizar o caos do tempo. Ela arquiva sentimentos que a gente nem percebe que está guardando. Funciona como uma espécie de memória externa: aquilo que a gente esquece, ela lembra pela gente. E, quando toca de novo, não é só som — é acesso. 

Acesso a pessoas que já se foram. A versões nossas que já mudaram. A momentos que pareciam pequenos, mas que hoje carregam um peso imenso de significado. 

Talvez por isso algumas músicas doam um pouco. Não porque são tristes, mas porque são honestas demais. Elas devolvem tudo aquilo que o tempo tentou suavizar. 

No fim das contas, a gente não escuta só música. A gente escuta histórias. A gente escuta afetos. A gente escuta saudade. 

E talvez seja esse o maior presente que ela nos dá: a possibilidade de revisitar memórias muito especiais que, sem ela, estariam perdidas em algum canto esquecido da gente. 

Foto de capa: Foto autoral

Crônica de Ana Carolina Freitas

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4 comentários em “O Som da saudade

  1. Avatar de Priscila

    A cada verso uma lembrança 💕

  2. Avatar de Rafael Schiavo
    Rafael Schiavo

    muito lindo ♥️♥️👏🏼👏🏼

  3. Avatar de Carla Cristina Freitas
    Carla Cristina Freitas

    Escreveu lindamente, com as músicas ressuscitamos nossas memórias. Me emocionei!

  4. Avatar de Tânia Regina
    Tânia Regina

    Emoção, lembranças… à minha menina, vc foi magnífica!!! Obrigada!!

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