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Mesmo com as esperanças soterradas, “O livreiro de Gaza” revela a força do povo palestino

O lançamento de Rachid Benzine pela Editora Intrínseca apresenta uma narrativa sensível sobre esta trajetória pouco explorada

O novo lançamento de Rachid Benzine chegou em março à Editora Intrínseca. “O livreiro de Gaza” traz uma história curta e emocionante retratando com sensibilidade a trajetória do povo da Palestina, não tão conhecida e explorada pela mídia ocidental. Ambientada em 2014 e narrada em segunda pessoa, o leitor assume o papel de um fotógrafo francês que visita Gaza em busca de imagens do local.

Ao se deparar com bairros e paisagens familiares, vizinhos à regiões destruídas e reduzidas a pó, ele se encanta com um enigmático livreiro chamado Nabil Al Jaber, dono de um pequeno sebo. Após fotografar o idoso, ele é convidado a visitar sua pequena loja, onde o livreiro compartilha sua história de vida, sob a justificativa de que uma foto sem história não poderia guardar nada além da imagem.

Durante a emocionante trama, Nabil retrata dificuldades do povo palestino que antecedem o seu nascimento, abordando os êxodos e as ações cruéis dos soldados israelenses.

O maior trunfo do livro está na capacidade de humanização da sociedade local que o autor apresenta. Na condição de despatriados, o autor reforça os sonhos dos personagens, as amizades, as diferentes ligações religiosas e a fome intelectual. Com isso, desmistifica a ideia de que a Palestina seria um lugar de um povo simples e sem estudo. Destaca-se o apreço dos personagens por aulas e romances.

Também se evidenciam suas profissões e as dificuldades de exercê-las durante o regime violento ao qual são submetidos dentro de sua própria terra, enfatizando a resistência em existir desse povo. A livraria torna-se quase um personagem, funcionando como um refúgio em meio ao caos, por meio do conforto que os livros proporcionam ao levar esse povo sofrido a lugares mais distantes.

Como exemplo, há o amigo de Nabil, Hafiz, um jornalista. Ele utiliza sua formação para ajudar a levar ao mundo informações sobre os horrores de Gaza. Além disso, presta apoio social ao país por meio de organizações como o Partido Comunista da Palestina.

O autor cria uma esfera de consciência, e não de inimizade, ao retratar os vizinhos de Israel. Dessa forma, contesta a visão que cada povo tem um do outro. Ele explica o surgimento do grupo Hamas e as tensões causadas entre os próprios árabes. Mostra, de maneira direta, porém tocante, como essas manifestações influenciam e inflamam jovens oprimidos desde o nascimento.

Rachid Benzine, autor franco-marroquino de “O livreiro de Gaza”

Outro ponto interessante é a religião. Diferente de Rachid Benzine, um dos estudiosos islâmicos mais populares da Europa, o velho Nabil é cristão e usa um relato inesperado ao criar um paralelo entre sua vida e a parábola de Jó:

“Nossa maldição. Injusta. Como qualquer maldição. Ademais, havia uma revolta contida em Jó, um grito mudo que ele guardava em si. A pergunta lançada a Deus: por quê? Por que eu? Assim como nós perguntávamos ao mundo e a Israel: por quê? Por que nós?”
O livreiro de Gaza, Rachid Benzine, p. 67.

O livreiro de Gaza termina de maneira emocionante. O narrador-leitor cultiva uma amizade com os dois senhores e suas famílias, marcadas pela dor, mas ainda perseverantes. A narrativa se encerra no fatídico ataque de Israel no dia 7 de outubro de 2023. O livro cumpre seu intuito e traz muita empatia à população de Gaza, principalmente pelo recurso da narração em segunda pessoa.

Ainda assim, mesmo que o romance cite bastante a influência literária árabe, a falta de referências e explicações culturais criam uma falha na tentativa de aproximar o público ocidental das dificuldades enfrentadas pelo povo palestiano. Um maior aprofundamento na cultura local poderia concluir com maior êxito a convergência entre leitor e narrativa.

Resenha crítica de Camila Teixeira, com edição de texto de Nathália Messias

Foto de capa: Divulgação/Intrínseca

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