Lançado em fevereiro de 2026 pela Editora Intrínseca, “Que tal mais um gato?”, de Syou Ishida, é o terceiro volume da série “Vou te receitar um gato”. Sucesso de vendas no mundo todo, a obra já teve os direitos vendidos para cerca de 20 países e soma mais de 400 mil exemplares comercializados globalmente.
O romance de healing fiction narra a história de uma clínica mágica localizada em um bairro de Quioto, a Clínica Kokoro, palavra japonesa de significado amplo associada à mente, ao coração e à alma. O local só pode ser encontrado por aqueles que realmente precisam dos serviços do Dr. Nike e da enfermeira Chitose, que tratam problemas aparentemente insolúveis receitando aos pacientes um período de convivência com um gato.
O ponto central da trama se concentra na clínica, que no passado funcionava como um criadouro de gatos aparentemente ilegal. Deixados à própria sorte, os animais são resgatados e, no microcosmo mágico da narrativa, acabam “se receitando” para ajudar humanos que precisam aprender as “lições de um gato” a fim de lidar com problemas da vida cotidiana.
Assim como nos volumes anteriores, os conflitos dos personagens giram em torno de questões cotidianas, ligadas ao estresse do dia a dia ou ao temperamento dos protagonistas. Um dos destaques do livro é a segunda trama, protagonizada por Kotaro Dojima, pai de primeira viagem que se sente sobrecarregado entre o trabalho e a família.
Incapaz de equilibrar as responsabilidades com a esposa e a filha recém-nascida, ele acaba encontrando a Clínica Kokoro. Em vez de receitar um gato, o Dr. Nike o incentiva a extravasar suas frustrações rosnando como um felino. A narrativa conduz a uma reflexão sobre a importância de expressar emoções e reconhecer as próprias fragilidades.

Outro ponto relevante do livro está no último capítulo, que revisita o passado do antigo criadouro de gatos a partir da perspectiva de “Ao Torii”. A jovem, que não concluiu o ensino médio e vivia de trabalhos temporários após constantes conflitos com os pais, acaba desenvolvendo forte afeto pelos animais ao trabalhar no local e tenta salvá-los mesmo sem ter condições para isso. Anos depois, já adulta, Ao encontra a Clínica Kokoro e, ainda marcada pelos acontecimentos do passado, consegue se reconciliar com a família por meio do vínculo criado com uma das gatinhas do criadouro, Shiro.
Syou Ishida apresenta uma escrita fluida e leve, condizente com o gênero, e busca expandir o universo da série, em que as histórias se cruzam e se interligam ao longo dos volumes. O recurso é interessante, mas as lições de moral acabam soando simplificadas. Embora os conflitos sejam resolvidos a partir do afeto transmitido pelos gatos, que dão novo sentido aos dramas cotidianos, o livro, como um todo, mostra-se frágil, especialmente neste terceiro volume.
Nos dois primeiros livros, a autora sugere que o Dr. Nike e a enfermeira Chitose seriam representações míticas dos gatos do antigo criadouro adotados por donos afetuosos, que assumem forma humana para ajudar seus “irmãos” a encontrar um lar. Com a introdução de Akira Shiina, personagem que trabalha no mesmo prédio da Clínica Kokoro e desconfia das atividades mágicas envolvendo gatos na sala ao lado, a série passa a indicar uma continuidade mais clara entre as histórias.
Ainda assim, muitas questões permanecem sem explicação. O problema é que a narrativa, antes estruturada como contos independentes com lições de moral, começa a exigir acompanhamento dos volumes anteriores. Essa mudança enfraquece a proposta inicial e torna a série cansativa. A trama poderia ganhar mais força se explorasse de maneira mais profunda o caráter mágico de Chitose e Nike, o que também daria mais consistência a possíveis continuações.
É como se a autora buscasse expandir ao máximo a série. O gênero healing fiction tem ganhado força nos últimos anos, especialmente na literatura contemporânea japonesa ligada ao chamado iyashikei, termo que designa obras voltadas a criar uma atmosfera emocional de conforto para o leitor.
Nesse contexto, porém, a repetição da fórmula narrativa acaba se tornando cansativa, acumulando encontros e mistérios que não se resolvem plenamente. O resultado é uma história de tom infantil prolongada pelo potencial comercial da franquia, algo que contrasta com o próprio princípio do gênero, cuja proposta é oferecer narrativas simples, mas emocionalmente significativas.
Resenha crítica de Camila Teixeira, com edição de texto de Cássia Verly
Foto de capa: Divulgação/Amazon
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