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Entre a glória e a falha: “A guerra de Churchill” questiona o mito do líder britânico

Max Hastings revisita o político como símbolo de resistência em 1940, mas também como uma figura marcada por contradições, erros de julgamento e limites políticos

Lançado no Brasil em dezembro de 2025 pela editora Intrínseca, “A Guerra de Churchill: 1940–1945” é um retrato biográfico documental das ações do ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Winston Churchill, escrito por Max Hastings. Tecendo críticas e elogios ao longo das quase 600 páginas do livro, a narrativa traz não apenas a história propriamente dita, mas também a dualidade das ações do líder político e a revisão do autor sobre a conduta do biografado ao longo de um dos episódios mais brutais da humanidade: a Segunda Guerra Mundial.

Com uma análise mais pragmática voltada à identificação de falhas de conduta e contradições, Hastings, historiador conhecido por evitar biografias endeusadas, retrata Churchill como uma figura de enorme importância social e política no contexto da guerra, sobretudo como símbolo de resistência nacional. Porém, não enfatiza o personagem necessariamente como um comandante ou estrategista militar consistente. Segundo o autor, apesar de sua capacidade de unir a nação, Churchill romantizava a guerra e tomava decisões frequentemente marcadas por impulsividade e erros de julgamento, sendo definido mais como um “líder moral” do que como um líder técnico.

Livro foi lançado pela Intrínseca em dezembro de 2025.
(Foto: Divulgação/Intrínseca)

Para a elaboração do livro, Hastings utilizou não apenas registros militares da época, mas também cartas privadas e os diários pessoais de Churchill e fotografias bem contextualizadas da época. Essa abordagem permite que o autor explore o lado humano e falho do antigo primeiro-ministro, incluindo seu consumo excessivo de álcool, crises depressivas e momentos em que teria ignorado relatórios pessimistas por não confirmarem sua intuição e visão pessoal do conflito.

Apesar de reconhecer sua relevância histórica, Hastings não suaviza episódios controversos da trajetória de Churchill, como a fome de Bengala, na Índia, quando o líder britânico priorizou recursos destinados ao esforço de guerra, contribuindo para o agravamento da crise humanitária na região. Outro exemplo é que mesmo sendo um dos principais opositores de Hitler, o político inglês mantinha uma visão imperialista e racialmente hierarquizada do mundo, além de ter tomado decisões militares e diplomáticas controversas, inclusive em relação a países neutros. O autor também ressalta o declínio da importância britânica no conflito após a entrada dos Estados Unidos na guerra, relativizando o protagonismo de Churchill na vitória final dos Aliados.

Winston Churchill em 1941.
(Foto: Yousuf Karsh)

Hastings destaca que, ao assumir o cargo de primeiro-ministro em 1940, com a Europa sob domínio nazista, Churchill tornou-se a principal voz da resistência inglesa, recusando qualquer possibilidade de negociação com Hitler quando a derrota parecia iminente. Embora sua atuação na guerra seja marcada por controvérsias, sua confiança na coragem e na persistência inspirou o povo britânico a resistir às forças hitleristas. Churchill soube manter o imaginário coletivo focado na vitória, oferecendo discursos e símbolos de esperança nos momentos mais difíceis. Ainda assim, o autor sugere que “Churchill foi um péssimo líder em tempos de paz”, argumento reforçado por sua derrota nas eleições de 1945.

“Churchill foi o homem certo no momento errado para quase tudo, exceto para 1940”, escreveu Max Hastings no livro.

Como um todo, trata-se de uma leitura densa, não pela linguagem, mas pelo peso do conteúdo. A diagramação, aliada à inclusão de fotografias, enriquece a narrativa ao oferecer suporte contextual, guiando o leitor ao longo dos acontecimentos e aprofundando a compreensão. Max Hastings escreve de forma fluida, o que torna a obra acessível a leitores curiosos de diferentes perfis. O livro se apresenta como um retrato histórico ideal para um estudo consistente, ainda que não excessivamente aprofundado, mas longe de ser raso, fornecendo ao leitor ferramentas suficientes para desenvolver suas próprias críticas e interpretações. Dada a densidade temática e a retórica do autor, a obra se mostra adequada tanto para interessados em história e política quanto para aqueles que buscam ampliar seus horizontes de aprendizado.

Resenha crítica de Camila Teixeira, com edição de texto de Gustavo Pinheiro

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