Lançado pela editora Intrínseca em novembro, “Com Amor, Mamãe” é um thriller psicológico e investigativo que instiga o leitor com plot twists bem colocados do início ao fim e uma narrativa dramática e envolvente que trata da delicadeza das relações familiares e a beleza e o horror das relações entre mãe e filha.
Mackenzie Casper, uma jovem de 21 anos, filha da famosa escritora de thrillers Elisabeth Casper, conhecida pelo pseudônimo E.V. Renge, um anagrama de revenge, que significa “vingança” em inglês, tem sua vida virada do avesso após o trágico acidente da morte de sua mãe. Celebridade mundial, a autora colecionava fãs apaixonados e às vezes obcecados, e sua morte repentina gera a dúvida: foi tudo um acidente ou a célebre autora foi assassinada? Após as formalidades do enterro, cercado de acordos de confidencialidade e repórteres, Mackenzie, que nunca nutriu uma relação afetuosa ou de proximidade com a falecida mãe, encontra uma carta misteriosa, aparentemente escrita por ela.
Ilana Xander, autora de diversas histórias que transitam por vários gêneros literários e publicadas por meio de pseudônimos, escreve desde a juventude. Com narrativas cheias de reviravoltas inesperadas, ela faz um excelente trabalho em “Com Amor, Mamãe”. A história, que poderia cair em um clichê do gênero, vai se desdobrando de forma muito natural, desde a investigação feita por Mackenzie e seu melhor amigo EJ, uma espécie de hacker especialista em TI, até a introdução dos personagens secundários, como a família da jovem.
Entre eles, destaca-se a avó Evelyn, uma senhora ao estilo Margaret Thatcher que, mesmo aparecendo pouco, consegue ter presença firme e uma persona muito bem apresentada. A narrativa de Xander é bastante triste. Por mais que esse não seja o principal objetivo do livro, a autora trabalha muito bem a relação mãe–filha, fazendo com que o leitor dissocie a mãe descrita pela protagonista da pessoa afetuosa e doce das cartas. Algo que, assim como tudo na história, o prepara para uma das diversas reviravoltas criadas pela autora.
A narrativa possui alguns gatilhos, como estupro e outros tipos de violência, além de mostras de crueldade, mas o foco de Xander é discorrer sobre a inveja, que move quase todas as ações e consequências. Ela se aprofunda na temática explorando as vontades primitivas dos personagens e até onde cada um iria para obter o que deseja. Por mais tristes que sejam algumas passagens, a autora trabalha bem o desenvolvimento e finaliza sem se estender de maneira cansativa nas conclusões das várias pontas abertas ao longo da trama. Constrói, com maestria, um final bem amarrado que, apesar de simples, consegue surpreender pela coesão até a última frase.
Ainda assim, alguns pontos poderiam ter sido enxugados, como a relação de EJ e Mackenzie, que ocupa páginas sem adicionar nada. A autora perde a oportunidade de já os introduzir como um casal ou de apenas fazê-los uma dupla de amigos, já que, apesar de se tratar de ficção, a protagonista está inserida em um contexto extremamente pesado e cheio de mistérios e dramas familiares que a colocam sozinha no mundo e perdida sobre quem realmente é. Em meio à possibilidade de crimes reais e dúvidas constantes em quem confiar, não parece o melhor cenário para se desenvolver um romance.
Por mais que E.V. Renge seja conhecida como uma autora de terror nefasto e assustador, o livro não transmite esse sentimento. Trata-se de um thriller psicológico bem construído de maneira simples, porém muito interessante. Apesar da obviedade de alguns temas, a autora conduz tudo de forma a realmente chocar o leitor e, mesmo com um número elevado de reviravoltas, a leitura não se torna cansativa graças à condução dramática dos fatos, assim como qualquer problema de família.
Foto de capa: Divulgação/Intrínseca
Resenha de Camila Teixeira, com edição de texto de Gustavo Pinheiro
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