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Uketsu amplia o terror, mas repete os mesmos erros em “Casas Estranhas 2: O Mistério das Onze Plantas Baixas”

A continuação abandona o terror ritualístico e se divide em 11 novos mistérios de casas peculiares

Lançado em outubro pela editora Intrínseca, “Casas Estranhas 2: O Mistério das Onze Plantas Baixas”, continuação do best-seller “Casas Estranhas”, apresenta uma nova perspectiva sobre assombrações e mistérios. A obra revisita o conceito clássico das “casas de terror” de forma criativa e inusitada. Diferente do primeiro livro, em que a trama gira em torno de uma casa assombrada por um ritual, o youtuber japonês Uketsu amplia o universo da história ao dividi-lo em 11 submistérios envolvendo construções propositalmente bizarras.

Grande defensor de que o terror está nas sutilezas, Uketsu, que esconde sua verdadeira identidade por trás de uma máscara branca, também mantém em segredo a imagem de seu protagonista, intitulado apenas como “autor”, assim como no primeiro livro.

Na nova obra, ele se apoia no sucesso da estreia para documentar novos casos de mistérios envolvendo plantas suspeitas de casas espalhadas pelo Japão, produzindo um novo volume que conecta materiais e depoimentos recolhidos, revisitando inclusive as imobiliárias fictícias citadas no volume anterior.

Os capítulos são curtos, e as representações das casas e plantas são mais detalhadas que no primeiro livro. As tramas, porém, geram mais confusão no leitor, criando dúvidas quanto ao desfecho. Os elementos são reconhecíveis, mas é difícil imaginar como detalhes aparentemente aleatórios poderiam se conectar.

A proposta das “casas estranhas” é de fato inovadora, pois se baseia na ideia de construções feitas propositalmente para causar estranhamento, e não apenas casas mal-assombradas, como no terror tradicional. Ainda assim, o livro decepciona em alguns pontos.

Uketsu repete praticamente o mesmo desfecho do primeiro volume, envolvendo seitas, misticismo budista e deficiências físicas. A maior fragilidade, porém, está no protagonista, que se mostra passivo. O “autor” funciona apenas como coletor de histórias, recebendo confissões como um jornalista, mas sem agir como investigador. O personagem Kurihara é quem realmente conduz a trama, conectando os relatos e revelando a verdade por trás das casas propositalmente bizarras.

(Foto: Camila Teixeira/Agência UVA)

O leitor tem a sensação de que o protagonista apenas recolhe acontecimentos para que Kurihara os interprete. Suas reações são de espanto diante da perspicácia do amigo, e mesmo quando tenta agir por conta própria, suas deduções não o tornam um investigador convincente.

Outro problema é a inclusão de temas pesados de forma abrupta. O incesto e os assassinatos são integrados de maneira coerente à narrativa, mas a pedofilia surge de forma repentina, quase como um artifício para chocar o leitor. Embora o impacto imediato funcione, o desfecho falha ao quase “inocentar” o pedófilo e retratar a vítima, agora adulta, como cruel e amargurada.

Na ficção, essas escolhas narrativas precisam de sustentação simbólica, e aqui elas soam forçadas. A única dedução relevante do protagonista é justamente desconfiar da vítima, o que torna sua postura ainda mais questionável.

Apesar dessas falhas, Uketsu acerta na criação de uma atmosfera genuinamente estranha e perturbadora. A premissa é instigante e o desenvolvimento da trama surpreende, colocando a casa como o verdadeiro mistério. Para fãs de terror, talvez este não seja o melhor livro do gênero, mas, embora o segundo volume traga mais ousadia criativa, o primeiro ainda se destaca por sua narrativa mais coesa e consistente.

Foto de capa: Camila Teixeira /Agência UVA

Reportagem de Camila Teixeira, com edição de texto de João Gabriel Lopes

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2 comentários em “Uketsu amplia o terror, mas repete os mesmos erros em “Casas Estranhas 2: O Mistério das Onze Plantas Baixas”

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