Sociedade

Lideranças de organizações antirracistas têm como principal dificuldade o acesso a recursos e patrocínio

Pesquisa revela a falta de recursos e políticas públicas

Uma pesquisa realizada pelo Fundo Agbara e pelo Núcleo de Pesquisa e Memória da Mulher Negra (Nupemn) revelou dados significativos sobre as lideranças de organizações antirracistas. O estudo destacou que 89% dessas organizações têm lideranças femininas e, apesar de estarem em maioria, as mulheres negras enfrentam mais dificuldades para captar recursos e patrocínios.

A pesquisadora e coordenadora geral da Rede Jornalistas Pretos, Marcelle Chagas, comenta sobre as diversidades encontradas pelas lideranças negras ao buscar apoio financeiro.

“A falta de acesso a redes de influência e espaços de tomada de decisão, aliados ao racismo estrutural, muitas vezes impedem que essas lideranças sejam vistas como legítimas pelos financiadores”, explica Marcelle.

O relatório também revelou que 60% das organizações operam com orçamentos anuais limitados e estão à margem do acesso a recursos. Cerca de 71,2% dos líderes apontam a falta de diálogo com empresas financiadoras como uma forma de exclusão das organizações negras nos processos de financiamento, além da burocracia excessiva dos editais que promovem aportes para as entidades.

Segundo Marcelle, esse descompasso contribui para o descompromisso em relação ao combate ao racismo. “Quando os recursos chegam, são insuficientes para garantir a sustentabilidade a longo prazo. Isso reflete uma falta de compromisso real com mudanças estruturais”, afirma. A dificuldade na captação de recursos limita o alcance das organizações e torna o trabalho de expandir campanhas impactantes e eficazes muito mais difícil.

Captar recursos é uma tarefa difícil também para as mulheres negras que fazem parte das lideranças antirracistas: 82% delas conciliam a maternidade com o trabalho de organização popular. Essas mulheres desempenham um papel central no fortalecimento das políticas públicas, na valorização da diversidade cultural e na luta pela igualdade racial.

Marcelle ainda comenta sobre o protagonismo das mulheres negras nesses espaços.

“As mulheres negras continuarão sendo pilares fundamentais na construção de uma sociedade mais igualitária, por sua capacidade de ressignificar narrativas, liderar movimentos transformadores e trazer à tona perspectivas que historicamente foram marginalizadas”, completa Marcelle.

Diminuir a atuação das organizações antirracistas e limitar as políticas públicas faz parte de um processo de racismo estrutural que permeia a sociedade ao longo de décadas. A luta dessas instituições tem como objetivo promover a equidade racial e a inclusão social em um país onde 54% da população é composta por negros, pardos e indígenas. É fundamental que essas entidades tenham acesso a recursos para que possam continuar apoiando e alavancando pessoas que precisam de suporte.

Foto de capa: Freepik

Reportagem por Julia França, com edição de texto de Jorge Barbosa

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