Por Mariana Motta
Sábado, 2 de novembro de 2024, 15:27
Queria que existisse um tradutor de sentimentos, que eu pudesse sentir e automaticamente se transformasse em palavras. Atualmente minha relação com a escrita anda em frangalhos. Para ser bem sincera, parece que nada do que escrevo traduz, de fato, o que sinto. Admiro quem tem essa facilidade de se expressar, que encontra a palavra exata para cada momento. Não é o meu caso, pelo menos não agora.
Em busca de inspiração, decidi vir ao Arpoador, sozinha, para escapar da rotina, e, quem sabe, até escrever um pouco. Me deixei absorver pelos detalhes: as pessoas, o mar, o som das ondas, o calor do sol e a areia. As praias do Rio são únicas. Já estive em algumas do Nordeste, no litoral paulista, mas o Rio tem algo diferente, tudo aqui parece ter uma essência própria.
Trouxe comigo um livro que ando lendo, “Comer, Rezar, Amar”. Nele, a personagem larga tudo para viver um ano sabático, viajando pela Itália, Índia e Indonésia. Bom, como não tenho nem o tempo e nem o dinheiro para jogar tudo para o alto assim, decidi que hoje seria meu “dia sabático” particular.
No livro, a protagonista descreve como cada lugar tem uma palavra. Fiquei pensando sobre isso e, ao chegar aqui, decidi que a palavra do Rio é “praia”. Da Zona Norte à Zona Sul, o carioca se encontra na praia. O sentimento do Rio é a praia, é o nosso calor, nossa alegria e nossa energia.
Amo o Rio de Janeiro, mas não me entendam mal; não estou aqui para glamourizar o Rio e ignorar a vida real, a vida “do outro lado do túnel,” a violência, guerras nos morros, a desigualdade. Mas posso ser sincera? Ando exausta. Com dois empregos e a faculdade, saio da Zona Norte para trabalhar na Zona Sul todos os dias. Acordo às cinco da manhã e, em alguns dias, só volto às dez e meia da noite. Só que hoje, apenas hoje, quero focar no Rio bom, o Rio da bossa nova, das novelas do Manoel Carlos. Hoje, quero me permitir ser uma Helena, quero ser uma protagonista que anda pela areia refletindo sobre a vida, que senta na pedra do Arpoador e observa a vista.
Vim a praia na busca de inspiração para escrever, e reparei que a inspiração está comigo todos os dias, mesmo nas horas corridas e nos trajetos cansativos pela cidade. Não posso me dar ao luxo de estar na praia sempre, mas, caramba, eu moro no Rio de Janeiro! Eu moro no cenário de tantas novelas da Globo, no lugar que é o sonho de tantos. Qualquer um que vem ao Rio se encanta e encontra não só inspiração para escrever, mas também para viver.
Aqui, cada detalhe traz um pouco de poesia, um pouco de vida. Hoje, nesse meu dia sabático improvisado, percebi que o Rio é mistura de caos e beleza que convida a pessoa a se encontrar e, quem sabe, se perder. Entre as ondas e o céu dourado do fim de tarde, decido deixar um pouco do peso da rotina aqui na areia e levar comigo a leveza que só o Rio pode dar.
Foto de capa: Pexels
Crônica de Mariana Motta, com edição de texto de João Agner
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