Desde a tomada de consciência do Universo ao redor, o ser humano cobiça feitos considerados impossíveis pelas lógicas científicas. Voar. Dominar a natureza. Desvendar os mistérios siderais. Entender as sinuosidades da mente. E mais um sem-número de ambições originadas seja na curiosidade, seja no ego. Contudo, nas primeiras décadas do século XX, Albert Einstein publicou a, hoje, famosa Teoria da Relatividade, a qual pôs em xeque o entendimento vigente até então de que o tempo transcorria de forma uniforme e regular para todos, sem qualquer tipo de interferência. A hipótese do físico alemão nega tal unidade de medida como absoluta, sendo esta tão somente a chamada Quarta Dimensão, ou seja, um dos elementos estruturantes do continuum espaço-tempo, em conjunto com largura, altura e profundidade — portanto, também variável de acordo com a perspectiva do observador. A partir dessa premissa, a possibilidade de viagens espaço-temporais começaram a pulular pelo imaginário popular, servindo de base para tramas em diversos gêneros e suportes da ficção, como “Planeta dos Macacos” (1963), “De Volta para o Futuro” (1985-1990), “O Homem do Futuro” (2011) e o recente “Dezesseis Facadas” (2023) — o pioneiro “A Máquina do Tempo”, publicado por H.G. Wells em 1895, nunca mais esteve sozinho.

Todavia, feliz ou infelizmente, as jornadas pelo tempo são uma improbabilidade empírica, permanecendo nas searas da especulação, pois, até hoje, os métodos constatados não são executáveis. O primeiro deles seria acelerar um corpo à velocidade da luz, dilatando, assim, a unidade de medida observada — impossível e letal. O segundo procedimento envolve posicionar o observador próximo a um buraco negro, pois a gravidade altera o espaço-tempo, e, no caso, a alta gravidade diminui a percepção temporal — mais uma vez, impossível e letal. E a última técnica diz respeito ao Buraco de Minhoca, um túnel afunilado que conecta duas zonas remotas no tempo-espaço e por onde o viajante seria transportado para um ponto longínquo — esse funil é puramente teórico e não há qualquer comprovação de viabilidade ou sequer de sua existência. Além disso, fosse tal cenário possível, haveria a necessidade de se estabelecer algumas regras para evitar situações como a mostrada no episódio “Casa na Árvore dos Horrores V”, da sexta temporada de “Os Simpsons”, no qual Homer viaja à pré-história devido a descargas elétricas de uma torradeira com defeito e, ao ignorar ou não conseguir seguir os ensinamentos de seu pai sobre não alterar nada no passado para evitar catástrofes futuras, o estadunidense médio modifica a realidade de seus familiares, lançando-os em uma distopia aos moldes de “1984” (1948), passando por um mundo de gigantes, além de muitas outras distorções até chegar a um universo no qual humanos têm línguas reptilianas — o dito Efeito Borboleta, da Teoria do Caos.
Após essa introdução — a qual creio ter se estendido em demasia —, explico onde quero chegar. Eu pensava muito sobre viagens no tempo quando criança e, depois de um longo hiato, o assunto voltou a rondar meus pensamentos, mas, desta vez, sob outra ótica. E o estopim disso me pegou de surpresa. Há alguns meses, enquanto escrevia minha monografia, percebi que, para dissertar acerca da diferença de abordagem dispensada pela imprensa brasileira a sujeitos brancos e negros seria preciso ir ao passado e analisar, também, os primeiros periódicos do Brasil. Assim, em meio à infinidade de documentos históricos disponibilizados pela Biblioteca Nacional, uma publicação se sobressaiu aos outros tantos absurdos legalizados de outrora. Nos dias 30 de janeiro, 6, 7, 8, 9 e 11 de fevereiro de 1865 uma pessoa anunciou nos Classificados do Jornal do Recife a necessidade de 200 réis por seis meses, com juros, e oferecia como garantia a “hipoteca” de uma menina escravizada de 14 anos. E a solicitação não ficou sem resposta, pois, nos dias 6, 7, 8, 9 e 11 de fevereiro de 1865, alguém orientou o solicitante a ir ao endereço Pátio da Ribeira, nº 7, na Rua de Santa Rita, nº 17, ou anunciar seu local de residência.

Tal achado desencadeou uma série de pensamentos e reflexões em mim. A temática da pesquisa por si só já exigia uma carga psicoemocional, no entanto, ao encontrar a execrável transação, minhas elucubrações acerca desse tópico se expandiram, passando a englobar, também, a minha família, em especial minha avó paterna — uma mulher preta, nascida e criada em uma cidade vizinha à capital pernambucana, de mais de 90 anos e cuja idade não sabemos com exatidão porque ela, uma das mais novas dos 11 filhos dos meus bisavós, tirou seus documentos por conta própria ao ter de abandonar a escola depois de concluir o primeiro segmento do Ensino Fundamental para trabalhar em uma tecelagem — e meu avô paterno, um homem negro nascido em 1906, apenas 18 anos após a tardia e mal feita abolição — não sei muito mais sobre ele. Pensei nos meus antepassados cujas histórias se perderam antes de conseguirem me alcançar. Por isso, passei a contemplar a utópica viagem no tempo por outro prisma; em vez das divertidas aventuras de Marty McFly no passado, acredito que a experiência temporal se assemelharia mais a descrita pela escritora norte-americana Octavia Butler no romance “Kindred” (1979), na qual Dana, uma jovem negra da Califórnia de 1976, vai parar, acidental e inexplicavelmente, em uma fazenda da Maryland pré-Guerra Civil.

E, aqui no Brasil, há um exemplo recente de incursão nessa perspectiva. A série “Dois Tempos”, lançada este ano, conta a história de Paz, a maior influencer brasileira de 2022, e Cecília, uma escritora lésbica de 1922; ambas são negras, estão passando por períodos de grande tensão — a primeira enfrenta uma crise pública de imagem, enquanto a segunda se vê prestes a casar forçosamente com um homem —, e, de forma misteriosa, trocam de lugar. Assim, Cecília se encanta com a contemporaneidade e, por outro lado, Paz se desespera com a realidade pretérita — o que incluía pechas como o Código Civil de 1916, vigente até 2003, cujo Artigo 6º categorizava indígenas, denominados “silvícolas”, como seres incapazes tutelados pelo Estado e balizava a submissão feminina; e, para quem acredita ser o passar dos anos a trilha para o progresso, a Constituição de 1934 era declaradamente eugênica. Pensar sobre os sonhos de peregrinação no tempo por esse ponto de vista me fez lembrar de uma velha tirinha na qual um cientista consegue criar uma máquina de viagem temporal e, ao indagar à sua equipe — composta por mulheres, pessoas não-brancas, LGBT’s e com deficiência — quem queria a honra de ser o primeiro viajante ao passado, todos, em disfarçada aflição, declinam da oferta.
Por fim, devo admitir ter demorado a criar coragem para redigir esta crônica pois, ao encontrar aquele anúncio publicado em um jornal há mais de 150 anos, defrontei-me com sensações inesperadas — tais abalos, inclusive, interromperam a produção do meu trabalho final da faculdade por alguns dias, nos quais eu não conseguia parar de pensar naquela garota de 14 anos oferecida como garantia de um empréstimo, uma pessoa que jamais conheci, mas com a qual, de maneira estranha e inexplicável, eu sentia uma forte ligação; passei algumas noites em claro tentando imaginar como essa menina era, seu nome, suas vontades, o que teria acontecido àquela criança — sobrevivera até 1888? Integrara a massa jogada ao léu após a abolição, ou tivera um improvável destino diferente? — e esses devaneios me travaram por um tempo, provocando, inclusive, reações físicas — de cefaleias e enjoos a picos de ansiedade; o que seria de mim em um despejo ao passado? —. Porém, o bloqueio construído pela angústia teve de ser derrubado a força e a custo, pois, nesta zona do continuum espaço-tempo, traumas coletivos e ancestrais devem ficar para o travesseiro. Voltei a escrever a minha monografia.
Foto de Capa: Ilustração para Agência UVA.
Crônica por Daniel Deroza, com edição de texto de João Agner
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Gostei muito desta crônica. Pensamos em viagem no tempo como curiosos, mas não estaríamos dispostos a enfrentar os descalabros de outras épocas. Isso nos faz ver que tem havido uma evolução civilizatória, mesmo que lenta.