Comportamento Crônica

Todas as possibilidades de uma vida

Na gramática "Ambíguo" apresenta um sentido que permite diversas interpretações, inclusive contrárias. Em sua nova crônica, a repórter Mariana compartilha reflexões a respeito de sua ambiguidade.

Por Mariana Motta

Quando aceitei fazer parte dessa coluna de crônicas, fiquei me questionando sobre o que escreveria. Apesar de trabalhar com a escrita, a ideia de me expôr vulneravelmente me arrepia da cabeça aos pés. Talvez seja meio contraditório porque dentre todos os assuntos possíveis, hoje, nesta crônica, escolhi falar de mim.

Bom, para me apresentar, me chamo Mariana Motta e tenho 20 anos – na verdade perto dos 21, mas ainda não me conformei com isso. Me reconheci como uma pessoa ambígua no dia 4 de setembro de 2023, a caminho da Bienal do Livro. Estava no 368 com o João, um amigo da faculdade. Ele estava animado para encontrar uma escritora que gostava muito, a Letrux, e carregava consigo um livro de poesia dela. Passamos o longo trajeto da Tijuca ao Riocentro lendo as marcações que João havia feito no livro e refletindo sobre a vida.

Até que ele me mostrou “Ambígua”, e por mais que eu tenha adorado a poesia, foi o nome que mais me chamou a atenção. De repente, me encontrei ali, naquela palavra. Por muitas vezes ouvi que era uma pessoa complexa e caótica, acredite ou não, para mim sempre foi um elogio. Reconhecia no tom do que era me dito, que não era um insulto, era a forma de expressar cada pedaço de mim.

“Ambíguo” é um adjetivo na língua portuguesa que descreve algo que possui múltiplos significados. Na gramática, uma palavra, expressão ou frase é considerada ambígua quando apresenta um sentido que permite diversas interpretações, inclusive contrárias. De primeira, me peguei rindo sobre as futilidades que me fazem ser meio contraditória, como gostar de Taylor Swift e Kanye West, Flamengo e Vasco, e cerveja e vinho. Mas depois de um certo momento, me analisei de maneira mais íntima.

Gosto de dizer que já fui a pessoa na qual erraram comigo mas também a que errou muito. Mais que isso, gosto de entender os dois lados da moeda e compreender que eles existem. Talvez eu não seja muito boa de me expressar em palavras, apesar de ser com isso que trabalho. Se eu pudesse me descrever de maneira mais simples, diria que é culpa do meu mapa astral, quem mandou essa menina ter Sol em Sagitário e Vênus em Escorpião, não é mesmo? Quem conhece minimamente de astrologia, sabe que são signos totalmente opostos, que ironia do destino. Talvez não faça sentido, mas há esse ponto, imagino que já tenha compreendido que eu também não faço muito sentido.

De um tempo para cá, tenho ouvido muito o rapper BK, ou o meu “mano BK”, como gosto de chamá-lo, e principalmente a sua música “Caminhos”. É admirável o quanto não só ele, mas essa música em específico traduz a energia complexa na qual me encontro e desencontro constantemente. “Entre o errado e o certo/eu prefiro ter os dois por perto/eu sou o luxo e o lixo/eu sou o limpo e o sujo/nem duas caras, nem máscaras, nem em cima do muro/eu sou o equilíbrio.”

Ao longo desses quase 21 anos, convivi com pessoas que queriam me colocar em caixas, rótulos ou gaiolas que te aprisionam naquilo que você tem que gostar ou o que você deve ser. Se eu gosto de ter momentos sozinha, tomando café e lendo algum livro da Agatha Christie, não poderia gostar na mesma proporção de sair e estar rodeada de pessoas. Se eu gosto da Taylor, não poderia gostar do Kanye, se eu gosto do Flamengo, também não poderia gostar do Vasco.

Mas por quê? Não entendo o motivo de gostarem de me aprisionar. Sinto que sou como um abraço, que abre os braços em suas extremidades e se encontram na junção de minhas mãos. O aconchego do meu abraço é a ambiguidade que carrego em cada um dos meus dedos. Quando abraço, não faço com uma parte, faço comigo inteira. No final das contas, não preciso ser uma coisa, nem outra, sou todas as possibilidades de uma vida.

Crônica de Mariana Motta, com edição de texto de João Agner

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