No último final de semana, sábado (27) e domingo (28), em virtude dos episódios recentes de racismo e discriminação cometidos contra o atleta do Real Madrid e da Seleção Brasileira, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) promoveu uma série de homenagens à vítima e manifestações de repúdio em todas as partidas da rodada do Brasileirão. Com a campanha nas redes sociais por intermédio da hashtag “#ComRacismoNãoTemJogo”, jogadores e árbitros se sentavam no minuto inicial das partidas e permaneciam em silêncio como forma de protesto além do apoio de algumas torcidas presentes nos estádios.
Durante a atual edição do Campeonato Espanhol, sete entre 19 equipes adversárias tiveram conduta inadequada contra o esportista de 22 anos incluindo casos repetitivos com as torcidas de Atlético de Madrid, Barcelona e Mallorca ou até circunstâncias de ataques que não se limitaram às arquibancadas.
Para Ricardo Pinto dos Santos, Doutor em História pela UFRJ, as instituições esportivas fracassaram de modo significativo no combate ao racismo ao longo do tempo. Ele ainda atribuiu a ausência de alcance do letramento racial nas disposições da sociedade como um obstáculo para uma forma de progresso.
“Precisamos de mais pessoas pretas preparadas para tratar o tema por dentro dessas estruturas. Sem isso, vamos continuar patinando num falso imaginário de luta antirracista”, avalia Ricardo.
O caso de maior impacto
Vinícius Júnior foi alvo de ataques racistas no domingo (21), ao longo do confronto entre Real Madrid e Valencia pelo Campeonato Espanhol no estádio Mestalla, em Valência, na região sudeste do país. O duelo até foi pausado por cerca de oito minutos depois do jogador brasileiro denunciar torcedores que estavam lhe insultando chamando-o de macaco.
Com a disputa paralisada pelo árbitro De Burgos Bengoetxea, o sistema de som do local emitiu avisos de que o jogo seria reestabelecido caso as ofensas parassem. Após aproximadamente oito minutos de espera, o jogador brasileiro indicou que estava bem e foi reiniciada a competição com a polícia comparecendo à região das ofensas.

(Foto: Jose Jordan/AFP)
Próximo ao fim da partida, os atletas se envolveram em uma confusão. Hugo Duro, jogador do Valencia, deu um mata-leão em Vinícius Jr., que por sua vez, acertou o adversário no rosto ao tentar se desvencilhar. Apenas o esportista brasileiro foi punido, sendo expulso depois da revisão do árbitro de vídeo sobre o lance.
Entretanto, durante esta semana, a Federação Espanhola de Futebol invalidou o cartão vermelho recebido pelo jogador além de punir a equipe do Valencia com multa de 45 mil euros (cerca de R$ 240 mil) e bloquear o acesso dos torcedores ao setor Sul do estádio Mestalla, onde ocorreram os insultos. Com base no lance polêmico, a entidade junto ao Comitê Técnico de Árbitros ainda demitiu o VAR responsável pela partida. A decisão foi tomada devido ao corte de imagem enviado pelo VAR ao árbitro de campo, no qual aparece apenas a reação de Vinícius golpeando o rosto de Hugo Duro sem a demonstração do enforcamento sofrido anteriormente.
A repercussão
A situação gerou uma comoção mundial. Logo após o encerramento da partida, o astro do Real Madrid fez ponderações fortes à LaLiga, entidade que organiza o Campeonato Espanhol. Além disso, pessoas públicas e instituições respeitadas se posicionaram sobre o episódio.
O atacante do Real Madrid não se omitiu. Reiterou que a reputação da entidade está sendo abalada pela série de episódios de discriminação e o descuido das autoridades competentes. Além disso, responsabilizou o dirigente por preferir atacá-lo ao invés de criticar os torcedores racistas.
Durante a semana, após intenso movimento de apoio ao brasileiro, Tebas voltou atrás e pediu desculpas ao jogador em relação às polêmicas nas redes sociais. Também anunciou que a LaLiga vai acionar distintas esferas do governo para ter mais atribuições sobre o tópico. O mandatário enxerga de forma positiva a possibilidade de incorporar a perda de pontos no Campeonato Espanhol para clubes responsabilizados em circunstâncias do tipo.
Ainda em razão aos acontecimentos, o presidente da LaLiga, Javier Tebas, se reuniu com o embaixador do Brasil na Espanha, Orlando Leite, para debater a questão. O encontro ocorreu na sede da organização, em Madri, na última sexta-feira.

(Foto: Reprodução/Instagram)

(Foto: Reprodução/Instagram)
Na primeira disputa após a situação em Valência, o Real Madrid voltou a campo para enfrentar o Rayo Vallecano no estádio Santiago Bernabéu em mais uma rodada do Campeonato Espanhol na última quarta-feira. Uma série de homenagens foram feitas ao jogador que não competiu, apesar de sua suspensão ter sido anulada, ao ser preservado por sentir dores no joelho. Mesmo assim, Vini Jr. esteve presente no estádio assistindo à partida ao lado de Florentino Pérez, o presidente do clube.
A equipe de Madri se posicionou de modo favorável ao esportista de diversas maneiras. Desde a tentativa de companheiros de equipe deixarem o campo no momento pelo qual os insultos foram proferidos até o intenso apoio dado nos dias seguintes ao ocorrido. Ainda assim, só soltou nota oficial sobre a ocasião cerca de 24 horas depois dos acontecimentos.

(Foto: Divulgação/Real Madrid)

(Foto: Divulgação/Real Madrid)

(Foto: Divulgação/Real Madrid)
O Valencia, por sua vez, emitiu comunicado repudiando os atos lamentando o que houve, além de se posicionar contrário a qualquer forma de violência nos estádios. Em contrapartida, classificou a situação como uma espécie de caso isolado e se comprometeu a agir de acordo com as medidas mais severas posteriormente a investigação.
Depois da partida polêmica, o presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, movimentou as redes sociais manifestando apoio ao astro e criticando um novo episódio de racismo no esporte.
O governo brasileiro não ficou de fora. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ainda na viagem ao Japão manifestou apoio ao esportista e cobrou atitudes da Fifa (Federação Internacional de Futebol) e da Liga Espanhola.
“Não é possível que quase no meio do Século XXI a gente tenha o preconceito racial ganhando força em vários estádios de futebol na Europa […] Penso que é importante que a Fifa, a Liga Espanhola e as ligas de outros países tomem sérias providências, porque não podemos permitir que o fascismo e o racismo tomem conta dentro do estádio de futebol”, declarou Lula.
Em nota assinada pelo Itamaraty e pelos Ministérios da Igualdade Racial, dos Direitos Humanos, do Esporte e da Justiça, o governo afirmou que vai reivindicar medidas da Espanha contra os ataques sofridos por Vinicius Junior. Segundo a ministra Anielle Franco, já foi apresentada uma queixa na Promotoria espanhola além da busca por investimentos em políticas de combate ao racismo no Fórum de Afrodescendentes da ONU, evento que acontece nesta semana em Nova Iorque.
Outra entidade que comentou sobre a situação foi a Organização das Nações Unidas (ONU). Em virtude dos episódios recentes de racismo e discriminação cometidos contra o atleta do Real Madrid e da Seleção Brasileira, o alto comissário para os Direitos Humanos, Volter Türk, na quarta-feira, condenou os fatos ocorridos e fez apelo para que instituições providenciem alguma atitude.
Além disso, Türk pediu às associações pelas quais organizam eventos esportivos para que melhorem os procedimentos que possuam a finalidade de precaver e combater episódios como o que aconteceu. Também anunciou que a instituição da qual é responsável vai produzir um guia de protocolos para evitar e agir em situações de ataques racistas nos eventos esportivos em geral.
Retrospecto
Esta não foi a primeira vez que a estrela da Seleção Brasileira foi vítima de ataques racistas. Inúmeros episódios aconteceram com o atleta desde quando atuava ainda no Brasil. A Agência UVA traz um resumo sobre diversos casos ocorridos nesse intervalo de tempo.
Ainda no Flamengo, Vinícius Jr. foi chamado de “neguinho safado” ao sair de campo no estádio Nilton Santos, em confronto contra o Botafogo em março de 2018. Vale lembrar que um torcedor foi detido após injúria racial contra os parentes do esportista, também durante partida contra o Botafogo, mas desta vez em agosto de 2017.
Em outubro de 2021, já na Espanha, torcedores do Barcelona gritaram “macaco” para o brasileiro no Camp Nou. LaLiga apresentou denúncia à Procuradoria de Ódio de Barcelona, porém os autores dos insultos não foram identificados e o caso foi arquivado.
Ofensas racistas foram registradas por uma emissora espanhola durante a partida entre Mallorca e Real Madrid em março de 2022. No trecho divulgado, pessoas imitavam sons de macaco e ordenavam que o atleta fosse pegar bananas. LaLiga abriu nova denúncia, novamente arquivada pela Procuradoria de Ódio da região.
Em debate sobre suas danças durante setembro de 2022 no tradicional programa de TV, El Chiringuito, o presidente da Associação Espanhola de Empresários de Jogadores, Pedro Bravo, utilizou uma expressão racista para criticar o jogador brasileiro.
“Aqui o que você tem que fazer é respeitar os companheiros de profissão e deixar de fazer macaquice”, afirmou o empresário.
Esta declaração teve grande repercussão na opinião pública, na qual foi até criada a hashtag “#BailaViniJr” em apoio ao atleta nas redes sociais. Foi nessa ocasião que Vinícius fez seu primeiro posicionamento mais contundente contra os ataques sofridos.
No mês de janeiro deste ano, antes de um confronto válido pela Copa do Rei, torcedores do Atlético de Madrid simularam o enforcamento de um boneco com a camisa do atleta abaixo da exibição de uma faixa que dizia “Madri odeia o Real”. O manequim estava pendurado pelo pescoço numa ponte da cidade. Ao longo da semana, quatro pessoas suspeitas pelos atos foram presas.

(Foto: Reprodução/Twitter)

(Foto: Reprodução/Twitter)
Foto de capa: Divulgação/Real Madrid
Reportagem de Gustavo Pinheiro, com edição de texto de Anne Rocha
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Great job, brother. Keep going and don’t give up anytime. Fico Feliz por vc, parceiro!!
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