Educação

Você já ouviu falar na pedagogia Waldorf?

Método de ensino alternativo criado pelo austríaco Rudolf Steiner completa 100 anos em 2019. No Brasil, 70 escolas utilizam a metodologia

Método de ensino alternativo criado pelo austríaco Rudolf Steiner completa 100 anos em 2019. No Brasil, 70 escolas utilizam a metodologia

Muita natureza.  Brinquedos de madeira e tecido. Música. Dança. Desenho. Muitas histórias. Todos esses aspectos fazem parte do cotidiano de um Jardim de Infância Waldorf. O filósofo austríaco Rudolf Steiner criou a pedagogia e em 1919 foi fundada, na Alemanha, a primeira escola baseada nessa metodologia de ensino. Hoje existem cerca de 1150 escolas Waldorf em 64 países e 1817 Jardins de Infância Waldorf em mais de 70 países, nos cinco continentes. No Brasil, há mais de 70 escolas e jardins de infância Waldorf filiados pela Federação das Escolas Waldorf no Brasil (FEWB).

Uma delas é a Escola do Vale de Luz, que se localiza no estado do Rio de Janeiro, em Nova Friburgo. Ela apresenta algumas peculiaridades que a diferenciam. É uma escola Waldorf conveniada com o município, ou seja, é pública. Em relação à parte pedagógica, são desenvolvidos tanto o currículo determinado pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e pela rede municipal de educação, bem como o currículo artístico Waldorf, que engloba aulas de desenho, pintura, música, trabalhos manuais, culinária e teatro. Todo o material específico da pedagogia Waldorf, não distribuído pelo município, é comprado por meio de campanhas de arrecadação de recurso empreendidas pela Associação da escola, sem nenhum custo aos pais e responsáveis. Além disso, os alunos recebem cinco refeições diárias, durante o turno integral de 7h39 às 16h30, também complementadas por meio de arrecadação.

Dioneson Ferreira, diretor da escola friburguense, conheceu a pedagogia Waldorf em 1995 por meio de uma colega que fazia estágio na Escola do Vale de Luz – já dedicada a esta metodologia. Logo num primeiro momento, ele se encantou pela escola que trazia a arte para as aulas e não se limitava a tarefas acadêmicas e ao espaço da sala de aula . “Me fez passar a frequentar algumas festas e eventos, a estudar sobre a pedagogia e a Antroposofia (que é uma das bases do ensino Waldorf) e a, definitivamente, me apaixonar pela educação”, afirma. Em 2001, ele foi convidado a fazer parte da equipe quando já era servidor público da Educação do município de Nova Friburgo.

Dioneson assistindo a apresentação dos alunos no evento Foto: Reprodução / Facebook

A professora Danielli Amaduro, aos dezoito anos, precisou estagiar para a formação de professores. Até então, não conhecia a escola nem a pedagogia Waldorf. Esse foi o seu primeiro contato na Escola do Vale de Luz. Após o estágio, foi convidada pela escola para realizar um trabalho voluntário e acabou ficando até hoje. Como adulta, ela também teve que aprender e desenvolver habilidades que desconhecia. Por exemplo, a pintura, desenho, canto, tocar instrumentos, realizar trabalhos manuais e apurar a observação para o ser humano e a natureza. “A Pedagogia Waldorf é encantadora, pelo jeito que considera o desenvolvimento do ser humano e como o conteúdo é aplicado de maneira lúdica e artística. Na verdade, eu aprendi muito na Escola Vale de Luz “, afirma.

De acordo com a professora, o diferencial da educação Waldorf está na forma de apresentação dos conteúdos em que a arte precisa permear em todos os âmbitos, na forma em que devemos considerar o ser humano como ser único e integral que pensa, sente e age. “Precisamos considerar o fato de que nem todos os alunos serão médicos ou engenheiros, sendo assim, devemos trabalhar e ajudar a desenvolver as habilidades e competências de cada um”, ressalta. É necessário que o professor tenha um olhar individual para cada aluno: conhecer seu histórico de vida, sua família, suas preferências, seu comportamento para ajudá-lo em seu crescimento e desenvolvimento como ser humano.

Evento cultural na Escola do Vale de Luz Foto: Reprodução / Facebook

Pedagogia Waldorf e a Antroposofia


Na pedagogia Waldorf, o modelo educacional é pautado na antroposofia – trimembração de corpo, alma e espírito – ou seja, é uma filosofia muito diferente do que se é conhecido usualmente. Por isso, é necessário que as pessoas estejam abertas e se adequem ao seu modelo. Sejam os educadores, pais e/ou alunos. É preciso ter o perfil Waldorf e ter entendimento dessa filosofia para que ela seja construtiva para os envolvidos. A professora doutora Viviani Anaya, coordenadora do curso de pedagogia da Universidade Veiga de Almeida, ressalta que o modelo Waldorf se preocupa em inserir os indivíduos na sociedade, mas primeiro por meio do autoconhecimento. “A pessoa precisa se autoconhecer para depois entender em que mundo ela vive. Eles trabalham bem nessa perspectiva”, diz.

Ela também destaca que a forma como eles organizam o currículo da educação básica é a maior diferença dessa metodologia. O processo de formação é dividido por setênios – grupos de sete anos – que são focados em diferentes processos formativos. O primeiro vai de 0 a 7 anos e corresponde ao período da educação infantil nas escolas convencionais. Porém, diferentemente delas, na pedagogia Waldorf é entendido que a criança precisa desses sete anos para se formar enquanto sujeito com potencial para aprender. Um outro ponto muito diferente é que não há registro. “Eles vão trabalhar o brincar e a interação da forma deles, a linguagem vai ser desenvolvida ao se contar histórias, com roda de conversa. Vão mexer na terra, fazer comidinha. Eles plantam e colhem”, exemplifica.

No segundo setênio, que equivale ao Ensino Fundamental em escolas regulares, eles aprendem a tocar instrumentos, fazer tricô e crochê. No Ensino Médio – o terceiro setênio para eles – eles aprendem a tecer tapete. A expressão artística é muito valorizada. A artista Ana Cordeiro é ex- aluna de escola Waldorf e estudou lá desde o jardim de infância. Se formou em 1978. Ser filha de um designer e de uma arquiteta já a proporcionou um acesso importante ao universo da arte. Hoje, com 59 anos, ela ressalta a importância de ter estudado em uma escola que seguia essa pedagogia. “Pude aproveitar a oferta de uma quantidade incrível de informação, ferramentas e técnicas para me expressar e evoluir. Não só isso, como treinar minha coragem para me expressar, para enfrentar as dificuldades que o caminho da arte impõe”.

O incentivo à expressão artística é um diferencial da pedagogia Waldorf Foto: Reprodução / Facebook

Há sete anos, ao ser mãe pela primeira vez, Verônica Massari, conheceu a pedagogia Waldorf em meio a pesquisas, pois sabia que não queria que seus filhos estudassem em escolas tradicionais. “Além da questão cognitiva, do intelecto, também prima-se pelo desenvolvimento do corpo físico e do espírito. Não é uma escola religiosa, a questão da valorização do espírito perpassa por aquilo que nos eleva espiritualmente, como as artes, que permeiam todo o currículo da escola”, declara. Ela afirma que a pedagogia não forma indivíduos competitivos, mas sim seres humanos que desenvolvem um olhar empático para com os outros e o mundo, por meio de uma capacidade crítica, autonomia e criatividade.

Rafael Brito, graduado em Artes Visuais, se apaixonou pelo universo educacional durante a licenciatura, ao mesmo tempo, em que se frustrou com a educação existente no Brasil. Durante o curso, foi apresentado brevemente a métodos pedagógicos alternativos como a pedagogia Waldorf, e Montessori.“Busco algo que tenha potencial para trazer uma educação de qualidade e acessível a todos, a Waldorf tem esse potencial, foi por isso que me aprofundei nela”, afirma. Porém, ele comenta o fato dela ela ainda ser uma bolha “fechada”, pois nas escolas privadas os valores das mensalidades são altos para a classe baixa. Sendo assim um ensino, hoje, elitizado, ao menos no Brasil. Entretanto, a Faculdade Rudolf Steiner, em São Paulo, busca debater como trazer a pedagogia Waldorf para o ensino público, por exemplo, por meio de colóquios pedagógicos  que são promovidos.

Ana Cordeiro atenta para o fato que, apesar de encontrar entre seus colegas pessoas que são sensíveis às causas humanitárias, também percebe que a maior parte está pouco preocupada com tudo isso.  “Precisamos mesmo reforçar esse olhar mais humano na educação. Porque o ser humano é tão propenso a defender o seu próprio lucro e bem-estar, que mesmo crescendo cercado da educação mais evoluída, a tendência da maioria é sempre a de se tornar egotista na vida adulta”, conclui.

A pedagogia Waldorf estimula a autonomia e desenvolvimento pessoal, fomenta o olhar mais humano sobre as pessoas e a natureza, incentiva a expressão artística, além do autoconhecimento. Esses são apenas alguns dos pontos presentes nesse cotidiano. Também há aspectos negativos como foram citados, mas a educação continua sendo uma ferramenta transformadora para a sociedade. A arte de educar é uma missão difícil, e como disse Rudolf Steiner: a nossa mais elevada tarefa deve ser a de formar seres humanos livres que sejam capazes de, por si mesmos, encontrar propósito e direção para suas vidas.


Ana Carolina Aguiar – 6º Período

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