Democracia Corinthiana: resistência à ditadura vinda do futebol

No regime militar, jogadores e personalidades ligadas ao Corinthians lideraram o que foi o maior movimento dentro do esporte pela democracia

Antes da Democracia Corinthiana

1964, golpe militar. Desde então até mais tarde, os anos seguintes seriam de forte repressão policial, censura e falta de democracia, com ápice a partir do AI-5. Os que se opunham ao sistema estavam sujeitos a serem presos, torturados ou até mesmo assassinados, a menos que conseguissem se exilar em outro país. Dezessete anos passados, o contexto de ditadura era o mesmo, embora o governo de João Pinto Figueiredo tenha amenizado um pouco as proporções da repressão em relação aos demais anteriores. Greves, manifestações e força policial ainda davam o tom das ruas em várias regiões do país.

Nessa época, assim como o Brasil, o Sport Club Corinthians Paulista também vivia sua crise política. Em 1981, o futebol do clube de São Paulo passava por uma péssima fase. Time inconsistente, resultados ruins, eliminações precoces e rebaixamento no campeonato brasileiro. No entanto, aquele momento de crise no futebol se tornaria futuramente um ponto de partida para uma guinada futebolística memorável e principalmente, para uma das maiores manifestações políticas da história no meio esportivo, que mais tarde ficaria conhecida como a Democracia Corinthiana.

Naquele ano, o presidente do Corinthians Vicente Matheus, há oito anos no cargo, ficou impedido de se candidatar à reeleição. Era conhecido por ser um homem conservador e que centralizava o poder no clube, não a toa foi presidente por oito mandatos em momentos distintos. Vicente buscou continuar no poder como vice-presidente da chapa de Waldemar Pires e, na época, comentava-se uma suposta intenção de fazer de Waldemar um laranja para seu projeto de poder. A chapa foi eleita, mas cerca de três meses depois Waldemar rompeu com Vicente, desligando-o da gestão, o que permitiu uma abertura política dentro do clube.

Em um segundo momento também muito importante para a reviravolta política que estaria por vir é a chegada de um novo diretor de futebol: Adilson Monteiro Alves, um sociólogo considerado de esquerda, com pouca ou quase nenhuma experiência no futebol, mas que traria ao Corinthians um espírito de mudança com sua filosofia revolucionária. Adilson agradou e ganhou a adesão dos jogadores, dando abertura para que pudessem se manifestar e sugerir soluções, principalmente os que viriam a protagonizar o movimento, como Sócrates, o jovem Casagrande e o lateral Wladimir.

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O sistema democrático – a autogestão

Um clube de futebol assim como qualquer outra organização possui hierarquias em seu organograma e prerrogativas específicas para cada uma, com maior poder nas posições mais altas até pouco ou quase nenhum poder nas categorias inferiores. Na Democracia Corinthiana, se instituiu, como política interna, uma igualdade de poder entre as hierarquias. Dessa forma, presidente, diretor, técnico, jogador (independentemente de função e titularidade), até funcionários como faxineiro e roupeiro tinham poder de decisão dentro do clube por meio de votações. O voto de todos tinha o mesmo peso e as decisões iam desde escolhas de como fazer concentrações e treinos até contratações de novos jogadores.

Dentro de campo, a nova experiência que também ficou conhecida como uma “autogestão” aparentemente rendeu bons frutos ao time de Parque São Jorge. Durante o período da Democracia Corinthiana, o clube obteve êxitos em seu desempenho: conquistou um bicampeonato paulista (1982 e 1983) e chegou longe no Campeonato Brasileiro de 1984, perdendo somente nas semifinais para o Fluminense, que seria o campeão daquele ano. A época ficou marcada futebolisticamente para o Corinthians como um momento em que o clube ganhou projeção nacional com um futebol alegre, irreverente e de toque de bola.

Politicamente falando, o conceito de democracia aplicado institucionalmente acabou recebendo apoio perante grande parte da opinião pública, virando uma febre através do desempenho vitorioso daquele time, por meio de sua torcida e pela imprensa, apesar de a última ter se dividido em relação à democracia.  Enquanto alguns veículos e jornalistas destacavam a democracia no futebol, outros a caracterizavam como uma bagunça proveniente de jogadores descompromissados. O jornalista Alysson Rodrigues Feitosa, em artigo publicado, comentou o racha da imprensa na época:

– Isso incomodava a grande imprensa, pois todos tinham apoiado o golpe. Casos da Folha da Tarde, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal da Tarde. Única mídia que apoiou explicitamente os corintianos foi à revista Placar, da editora Abril. Isso criou um racha na imprensa.

Um exemplo marcante de oposição ao movimento aconteceu dentro do clube: o consagrado goleiro de seleção Emerson Leão contratado durante a democracia não concordou com o movimento. O comportamento de Leão ganhou a imprensa e rachou o clube. Até os dias de hoje, os argumentos de Leão para discordar do movimento eram o de que nem todos tinham poder na democracia e o movimento político se colocava na frente do interesse futebolístico dos jogadores. Em contrapartida, os corinthianos da Democracia mencionam que a participação era voluntária e que nem todos tinham o interesse de participar, embora tivessem o direito.

De dentro para fora

Apesar de ser marcada na história como uma guinada de desempenho esportivo, a Democracia Corinthiana foi muito mais representativa no campo político diante do contexto em que se apresentou até meados da década de 80. As atitudes politizadas e democráticas não se limitavam apenas a trazer mudanças no organograma clubista, mas sim, depois de uma consolidação dentro do clube, tinha como principal direcionamento o regime ditatorial que comandava a política do Brasil. As manifestações e os discursos iam além da mera relação jogador-clube: Os jogadores entravam em campo por vezes levantando cartazes com dizeres como: “Eu quero votar para presidente” e “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”, sendo que a última frase relativizava o desempenho dentro de campo e deixava claro qual era a grande pretensão política da Democracia e sua a dimensão.

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Aos poucos, o movimento ia comprando uma briga por mudanças políticas no país. Fora dos gramados, as principais figuras também se manifestavam em comícios e na música, juntamente a artistas como Rita Lee e Fafá de Belém. Como o engajamento corinthiano se firmava em torno de uma abertura política que sujeitasse o presidente da república à escolha da população, a Democracia Corinthiana foi bastante presente nas “Diretas Já”. A agenda do movimento durante boa parte do tempo teve como grande objetivo a aprovação da emenda constitucional Dante de Oliveira. Sócrates, na época o principal jogador do clube e uma das lideranças da Democracia Corinthiana, era bastante cobiçado pelo futebol europeu e chegou a sujeitar sua permanência no Parque São Jorge em 1984 a uma aprovação da emenda, colocando seu projeto pessoal em segundo plano.

O fim

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Com a desaprovação da emenda constitucional Dante de Oliveira pela Câmara dos Deputados na noite de 25 de abril de 1984, com 298 votos a favor, 22 a menos do que era preciso, um grande baque de frustração tomou conta dos cidadãos brasileiros, inclusive a Democracia Corinthiana. Sócrates, desiludido com o resultado da votação da emenda, acabou por desistir de ficar no Brasil e se transferiu no mesmo ano para o Fiorentina, clube do futebol italiano. Outro a sair tempos depois seria Casagrande, dando mais um desfalque na Democracia. Aos poucos, o movimento perde sua força de expressão no campo e na mídia. Na eleição presidencial para o mandato de 1985, Waldemar Pires não conseguiu se reeleger, culminando em um processo de enfraquecimento da política interna do clube antes estabelecida.

Por fim, ainda em 1985, os brasileiros veem a derrocada do regime militar. Com a união de toda a oposição aos militares, o regime perdeu as eleições indiretas dentro do colégio eleitoral do governo, sendo a primeira vez em toda a ditadura, com o presidente João Pinto Figueiredo. A união da oposição pôs Tancredo Neves, apoiado pela população, no cargo de presidente da República. Com sua morte logo em seguida, José Sarney governou o país durante um período de redemocratização institucional, com a constituição cidadã promulgada em outubro de 1988 e com a abertura de um processo eleitoral para presidente em 1989.

O documentário “Ser Campeão é Detalhe” reúne depoimentos de personagens importantes na história da Democracia Corinthiana:

Reportagem de Mateus Pereira Gomes para disciplina de Oficina Multimídia em Jornalismo

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