Amanhã, chega ao circuito comercial, após passar por diversos festivais de cinema, o documentário “Marias”, primeiro longa-metragem de Joana Mariani. A produção viaja por cinco países da América Latina – Brasil, Cuba, México, Nicarágua e Peru – que têm a figura da mãe de Jesus Cristo como Padroeira para tentar desvendar o porquê de tamanha devoção dos habitantes destes locais à Nossa Senhora, observando as semelhanças e diferenças culturais nas comemorações à santa.
O documentário, obviamente, busca vozes que possam responder a esta indagação – mulheres e homens que têm Maria no coração e no próprio nome, e que tenham tocantes histórias para contar. Os relatos são feitos por anônimos e famosos> No caso do Brasil, a presença ilustre é feita pela cantora Fafá de Belém, cujo nome de batismo é Maria de Fátima, e logo responde a primeira pergunta da obra: “Maria somos todas nós!”.
Outro acerto da produção é mostrar as diferentes representações de Nossa Senhora em cada um dos países visitados, uma vez que as imagens de Maria possuem as características físicas do povo de cada região onde é celebrada, como uma forma de se aproximar mais do coração e da fé, para falar todas as línguas – “porque ela é mãe, e mãe fala todas as línguas”, como é dito no longa, visto que “a Virgem Maria representa a mãe”, não apenas de Jesus, mas de todos, independente da religião.
No entanto, “Marias” não é apenas um documentário sobre fé, religião e simbolismos, mas também um estudo acerca do poder do feminino e a capacidade de acolhimento e proteção deste poder, o que explica tanta adoração de povos tão distintos entre si, mas, ao mesmo tempo, tão semelhantes; como a própria diretora, Joana Mariani, declarou em entrevistas, a América Latina é composta por 24 países e todos eles têm Maria como Padroeira.
O longa deixa claro que esta pungente devoção se deve ao fato de a imagem de Nossa Senhora carregar consigo valores já muito ausentes no mundo: a compreensão, a gentileza, a abnegação, o cuidado. Neste aspecto, “Marias” lembra muito o ato final da peça “O Auto da Compadecida”, no qual, durante o Juízo Final, Nossa Senhora rememora aos presentes: “Na oração da Ave Maria, os homens me pedem para eu rogar por eles na hora da morte. Eu rogo. E oro para eles nesta hora”. É esta sensação de amparo que responde a todas as questões de Joana.
Sem apelar para o sentimentalismo barato – recorrente em produções que buscam retratar a religiosidade, “Marias” permite que as experiências dos entrevistados falem por si só. Assim como Mariani afirma, o longa não se trata apenas de um documentário sobre Nossa Senhora, ele acaba por ser um filme sobre o feminino, sobre esta força que arrebata milhares de fiéis, não só na América Latina, mas por todo o mundo. E a impecável cinematografia de Anderson Capuano destaca ainda mais a importância da fé na vida destes povos.
Além disso, a obra de Joana Mariani, apesar de falar sobre um tema milenar, ainda toca em assuntos extremamente atuais, uma vez que, como afirma uma das entrevistadas, “[Maria] foi a primeira feminista do mundo”, por ter tido a coragem de, de ainda adolescente, engravidar antes do casamento “em uma sociedade onde as mulheres eram apedrejadas”. Ou seja, o documentário “Marias” mostra, durante uma hora e quinze de duração, que a fé e a devoção à imagem essencialmente maternal de Nossa Senhora jamais deixará de ser um assunto atual.
Daniel Deroza- 4º período

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