Cinema

Uma Trapaça À Brasileira

100816-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxEm dezembro de 1983, a Taça Jules Rimet foi roubada da sede da CBF, no Rio de Janeiro. Até hoje, há muita especulação sobre como toda a ação foi feita e o que foi feito com o objeto, embora reze a lenda que ela foi vendida para um argentino e derretida posteriormente. Foi justamente por conta destas lacunas e especulações que Lusa Silvestre escreveu o roteiro de “O Roubo da Taça”, que ganhou o prêmio da Sessão Visions de Melhor Filme no Festival South By Southwest, em Austin, no Texas (EUA), além de levar o Kikito de Melhor Roteiro, Fotografia, Direção de Arte e Ator – este último, entregue a Paulo Tiefenthaler – na edição 2016 do Festival de Gramado, encerrado do último final de semana.

O longa, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta (08), se passa entre 19 de dezembro de 1983 e 1 de janeiro e 1984, e, basicamente, conta a história de Peralta (Tiefenthaler), um típico malandro carioca que, após contrair uma dívida de um milhão de cruzeiros devido ao vício em jogos de azar, recebe a ajuda do amigo Borracha (Danilo Grangheia) para roubar o que eles pensam ser uma réplica de ouro da Jules Rimet verdadeira. Porém, a dupla acaba furtando o troféu legítimo, causando um verdadeiro caos na cidade.

Logo no início da obra, o tom debochado da comédia é estabelecido quando o espectador é informado de que a maior parte dos eventos do filme realmente aconteceram (leia-se com tom sarcástico) – ou seja, não há um compromisso em contar ao pé da letra o que, de fato, existiu.  E este caráter satírico se mantém ao longo do filme, deixando claro que não se trata de um cinebiografia ou de um mockumentary, mas sim de uma comédia que intenta tirar sarro de si mesma – haja vista a breve e hilária participação de Mr. Catra como o bandido Albino.

Além disso, como “O Roubo da Taça” passou pelo circuito de festivais internacionais meses antes de chegar ao âmbito comercial, um detalhe importante do roteiro é a narrativa de Dolores, namorada de Peralta, interpretada por uma inspiradíssima Taís Araújo. As observações feitas pela personagem ao longo da trama servem para situar o público estrangeiro o contexto econômico, político e social do Brasil no ano de 1983 – tópicos como inflação altíssima, regime militar, histórica rivalidade com a Argentina, etc.

Aliás, apesar do protagonista da história ser Peralta, a personagem que “costura” todo o enredo, transitando entre diversos personagens é Dolores, que rouba da cena mesmo quando não está presente na tela e acaba por se tornar a melhor composição do longa. Muito disso se deve à escalação de Taís Araújo para interpretá-la – o grande carisma e talento indubitável da atriz, tanto para o drama quanto para a comédia, contribuíram para tornar crível uma personagem que nas mãos de uma atriz menos talentosa ou menos experiente, facilmente, ficaria caricata.

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Outro destaque do filme é a fotografia límpida, que foge à paleta granulada de matiz sépia que se esperaria de um filme “de época” – este detalhe pode ser devido à Netflix ser uma das produtoras do longa, dando esta estética de seriado à cinematografia e fortalecendo a nuance cômica da história. E mais um ponto alto da produção é a direção leve de Caíto Ortiz, cujos jogos de câmera, sutilmente, satirizam vários gêneros que faziam muito sucesso nos anos 80, como os filmes e séries de investigação policial hollywoodianos, o tom mais melodramático das telenovelas e a comédia rasgada das chanchadas brasileiras.

Ademais, o longa é repleto de referências à cultura pop dos anos 80, como as séries de TV estadunidenses “Magmum” e “As Panteras”, a novela “Guerra dos Sexos”, que era um sucesso de audiência na época, a clássicos do cinema nacional como “O Bandido da Luz Vermelha” e até mesmo à lenda viva do jornalismo brasileiro, Cid Moreira, que, na época, era âncora de telejornal da Rede Globo. Outro ponto que enriquece a impecável reconstituição de época é a utilização de trechos de reportagens reais feitas em 1983 acerca do sumiço da Jules Rimet.

O público brasileiro, que está acostumado a filmes com tom meio “pastelão” e com o elenco de comédias populares na televisão, pode estranhar um pouco a sutileza que marca todo o enredo de “O Roubo da Taça”, que não trata o seu espectador como alguém incapaz de entender referências, subtextos ou piadas que não caem na obviedade – nesse aspecto a obra se assemelha bastante ao hit estadunidense “American Hustle” (“Trapaça”), que certamente foi uma das inspirações para o longa brasileiro, mas acrescido de toda a ginga da malandragem carioca. Porém, após o estranhamento inicial, a audiência se verá às gargalhadas com esta comédia – como diz o slogan – inacreditavelmente real.


Daniel Deroza– 4º Período

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