A partir da exibição do videoclipe “I’m afraid of Americans”, de David Bowie, os alunos de Técnicas de Redação & Expressão redigiram narrativas ou dissertações sobre o sentimento do medo – confira!
Gabriella Costa de Lima
O Rio de Janeiro é conhecido mundialmente por suas belezas, mas também pela grande violência. Nasci e passei a maior parte de minha vida em Brasília. Mesmo não estando imune à violência, lá eu me sentia mais segura.
Apesar de ser uma cidade mais tranquila, tive a minha casa assaltada. Felizmente, não havia ninguém lá no momento. Os muros altos e as grades nas janelas não impediram nada. Com medo, meus pais instalaram câmeras de segurança.
Naquele mesmo mês, meu tio foi sequestrado em frente ao seu trabalho, quando ia para casa. Os sequestradores o renderam com uma arma e o colocaram no porta-malas. Andaram com ele durante muito tempo. Por sorte, dentro do porta-malas havia uma caixa de ferramentas que ele tinha esquecido de tirar. Com as ferramentas certas, meu tio conseguiu desaparafusar a porta por dentro e ficou aguardando o momento em que o carro diminuísse a velocidade para fugir. Ele conseguiu correr e pediu a um taxista que o levasse para a delegacia.
A família toda ficou muito abalada com aqueles acontecimentos. Mas, felizmente, apesar do susto, não houve nada grave.
Vim morar aqui no Rio com 13 anos. E, até então, nunca tinha ouvido o barulho de tiros de verdade, a não ser pela televisão. Quando isso aconteceu pela primeira vez, estava no colégio. Fiquei assustada, mas o resto da turma agiu com naturalidade, fazendo até piadas.
Após 6 anos morando aqui, essa situação se repetiu diversas vezes e eu acabei me acostumando. Quando nos mudamos, tínhamos consciência do que iríamos enfrentar, embora isso não facilite as coisas. O simples hábito de assistir ao jornal se tornou difícil com todas as notícias ruins e cenas de guerra, porque é isso que estamos vivendo, uma verdadeira guerra.
Nem eu nem minha família sofremos diretamente com a violência aqui no Rio. Mas o medo e a insegurança são permanentes. Vivemos evitando certos lugares, tentamos voltar para casa o mais cedo possível e, quando saio de noite, sei que minha mãe não dorme enquanto não volto.
As pessoas se acostumam com a violência, aprendem a conviver com ela. Mas aí é que está o erro. Ninguém deve se habituar a ouvir tiros e a ver tragédias nos noticiários. Devemos lutar sim, mas não com armas nas mãos. Temos que evitar que as pessoas virem reféns em suas próprias casas e de suas próprias vidas. E isso é um dever e um direito de cada um de nós.
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