Igor Migon
Ah, como eu queria entender por que amar sempre foi algo tão complicado, surreal. Sempre me pareceu algo tão distante, longe do alcance da minha realidade. Essa idéia de ter alguém pra ligar no meio da madrugada quando acordo assustada de um pesadelo, pra dizer ‘eu te amo’ no meio da correria do centro da cidade, pra namorar nos intervalos das aulas. Alguém que apenas conseguisse entrar nessa fissura do meu coração e caber no tamanho exato que existe reservado lá dentro. Alguém que não achasse que meu coração é dividido em peças, como um Lego. Monta e desmonta até conseguir a forma perfeita, e depois desmontar e fazer uma nova construção das peças que não se encaixaram. Alguém pra chamar de “amor” todos os dias de manhã, alguém pra dormir abraçado depois de uma noite de sexo, alguém pra preparar um café e me escrever um cartão; pra me surpreender com um presente, uma carta, ou até mesmo um beijo solto no ar.
Alguém que demonstrasse a falta que eu faço, e o vazio que eu deixo quando não estou por perto; pra dizer que me ama sem medo ou receios. Alguém que me chamasse pra ir ao cinema e depois andar pela orla do Rio falando besteira. Alguém com quem ver o pôr do sol no Arpoador e depois deitar na areia da praia para ouvir as ondas arrebentando contra as pedras. Alguém que se aventurasse por aí comigo, andando na corda bamba do destino e que mesmo assim continuasse sendo a pessoa mais firme do mundo. Alguém que pudesse crescer comigo, partir, chegar, revirar e se descobrir a cada novo dia. Alguém para se elaborar, para unir e transformar. Alguém que me dissesse quem sou eu com poucas palavras. Alguém que soubesse o que eu trago por dentro, que entendesse que estou triste pelos olhos, e não pelas minhas palavras soltas.
Alguém que fosse assim; que nem você.
Que tivesse pretensão de alguma coisa, alguém que me quisesse sem querer os outros. Alguém que prendesse os pés no chão e o coração junto ao meu. Alguém que abrisse mão de sair num sábado à noite para ficar em casa debaixo do cobertor assistindo a um filme, comendo pipoca e falando de amor, fazendo amor. Falando de qualquer coisa, fazendo qualquer coisa, ainda que não fosse assistir ao filme.
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