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Cinema contra o esquecimento: por que filmes sobre a ditadura são essenciais em um país sem memória 

Produções incentivam uma reflexão crítica sobre a memória histórica, revelando a importância de discutir direitos humanos e democracia, evitando a banalização da história

Em um país onde o passado ainda é disputado e, muitas vezes, convenientemente esquecido, o cinema brasileiro tem assumido um papel que vai além do entretenimento. Ao revisitar a ditadura militar, produções como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” transformam um período frequentemente tratado de forma distante em algo concreto, urgente e difícil de ignorar. 

Mais do que reconstruir fatos históricos, essas obras operam em um campo sensível: o da memória. Em um cenário onde diferentes narrativas disputam espaço, inclusive aquelas que minimizam ou distorcem o que foi a ditadura, contar essas histórias se torna também uma forma de posicionamento. 

Pôster de “Ainda estou aqui”, filme vencedor do Oscar.
(Foto: Divulgação/Sony pictures)

Para muitos jovens, o contato com esse passado ainda é superficial. O estudante Rafael Schiavo, de 21 anos, conta que sabia apenas o básico aprendido na escola, sem dimensão real da violência ou do impacto na vida das pessoas. 

“Eu sabia o básico que a gente aprende na escola, mas era tudo muito superficial, não tinha real noção do impacto desse período na vida das pessoas” diz o estudante.

Esse tipo de percepção revela uma lacuna que vai além da sala de aula. Quando a história não é aprofundada, ela se torna distante, quase abstrata. A virada acontece quando o conteúdo ganha forma e emoção, permitindo que o espectador se conecte com o que antes parecia apenas um capítulo do livro, segundo o Rafael, tudo ficou mais real e próximo depois de assistir a esses filmes.

A mudança de percepção aparece também no relato de Otávio Geraldino, que descreve a experiência como incômoda, mas necessária. Segundo ele, não se trata de um tipo de filme fácil, justamente porque mexe com a noção de justiça e humanidade. 

“Não era um tipo de filme fácil de assistir, porque mexe muito com a noção de justiça e humanidade.”, afirma Otávio.

Esse desconforto, longe de ser um efeito colateral, é parte essencial da experiência. Ao expor a violência institucional, a censura e os desaparecimentos, o cinema obriga o espectador a encarar uma realidade que, por muito tempo, foi silenciada ou suavizada. O impacto não fica restrito à tela: ao entrar em contato com essas narrativas, Otávio afirma ter passado a valorizar mais direitos que antes pareciam garantidos, como a liberdade de expressão e o direito à informação. 

Pôster de O agente secreto inspirado no quadro “Os operários”de Tarsila do Amaral.
(Foto: Reprodução/Divulgação)

Esse deslocamento do abstrato para o concreto ajuda a explicar por que o cinema tem se tornado uma ferramenta potente na reconstrução da memória histórica. Para o professor de História Patrick de Bastiani, o diferencial está na forma como essas histórias são apresentadas. Ele explica que, enquanto os livros didáticos muitas vezes tratam o tema de maneira resumida e distante, o cinema consegue dar rosto e emoção ao que antes parecia apenas um conteúdo escolar. 

“O que nos livros aparece de forma mais fria, no cinema ganha rosto, voz, emoção e humanidade. O cinema não ajuda a preservar a história apenas informando, mas fazendo a sociedade sentir o peso humano daquele passado, os filmes lembram que o autoritarismo não é abstração, é algo que atinge vidas concretas”, diz o professor.

Essa capacidade de humanização é central quando se fala de um período marcado por violações graves de direitos. Produções como Ainda Estou Aqui, ao recuperar a história da família de Rubens Paiva, e O Agente Secreto, ao explorar o clima de medo, vigilância e perseguição política, evidenciam que o autoritarismo não é uma abstração. São narrativas que mostram o impacto direto na vida de pessoas comuns, famílias destruídas, trajetórias interrompidas, silêncios forçados. 

Ao trazer essas histórias para o centro do debate, o cinema também amplia o alcance da discussão. Diferente de outros formatos, ele consegue atravessar gerações e dialogar com públicos que, muitas vezes, não se conectam com abordagens tradicionais. Para Bastiani, esse é um dos pontos-chave: o audiovisual funciona como uma porta de entrada, despertando interesse e provocando questionamentos que podem — e devem — ser aprofundados posteriormente. 

Apesar disso, o debate sobre a ditadura ainda enfrenta resistência. Entre os jovens entrevistados, há uma percepção recorrente de que o tema não é tratado com a profundidade necessária. Rafael observa que muitas vezes o assunto é evitado ou suavizado, o que contribui para uma compreensão limitada sobre o período e suas consequências. 

Essa lacuna, segundo Bastiani, ajuda a explicar por que a consciência histórica ainda é insuficiente. Muitos jovens conhecem o termo “ditadura militar”, mas não compreendem suas práticas, nem os efeitos que se estendem até hoje. 

“Muitos jovens conhecem o termo ‘ditadura militar’, mas não compreendem plenamente sua profundidade, suas práticas repressivas e seus efeitos duradouros, esses filmes ajudam muito, porque tornam esse passado mais visível, muitos acabam se identificando quando percebem que as vítimas não eram tão distante da própria realidade”, afirma Patrick.

Nesse cenário, o risco não é apenas o desconhecimento, mas a banalização. Quando o passado deixa de ser debatido com seriedade, abre-se espaço para narrativas simplificadas e, em alguns casos, perigosas.

“Quando uma sociedade deixa de revisitar criticamente seus períodos autoritários, ela pode banalizá-los ou até romantizá-los.”, afirma o professor

É nesse ponto que o cinema ganha força como ponte entre passado e presente. Ao provocar incômodo, curiosidade e identificação, ele rompe o silêncio e leva o espectador a buscar mais informações. Muitos dos jovens que assistem a esses filmes relatam uma continuidade da experiência: a busca por documentários, relatos reais e outras formas de compreender melhor o período. 

Essa experiência não termina quando o filme acaba. Ela se estende para as conversas, para as redes sociais e para a forma como o espectador passa a enxergar o próprio país. Otávio resume esse processo ao dizer que não se trata apenas de assistir, mas de compreender. 

“Não é só um filme, é uma forma de entender melhor o país em que a gente vive.” diz Otávio.

Em um contexto marcado por disputas narrativas e desinformação, lembrar se torna essencial. Mais do que revisitar o passado, esses filmes funcionam como alerta ao mostrar que a democracia e os direitos não são permanentes, mas construções que exigem vigilância constante. 

Para Bastiani, essa é a principal mensagem deixada por essas produções: a de que memória, democracia e direitos humanos caminham juntos e precisam ser defendidos diariamente, especialmente em sociedades que ainda lidam com os efeitos de períodos autoritários. 

Porque, em um país onde a memória ainda é frágil, esquecer não é apenas perder a história. É correr o risco de repeti-la. 

Foto de capa: Divulgação/Victor Jucá

Reportagem de Ana Carolina Freitas

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