Ir ao estádio, vibrar pelo time do coração ou até mesmo trabalhar com o futebol deveria ser algo simples. Mas, para as mulheres, essa ainda não é a realidade. Essas experiências vêm acompanhadas de medo, cautela e de um machismo instaurado historicamente na sociedade, que reforçam um sentimento de não pertencimento cada vez mais presente.
Enquanto, para os homens, a principal preocupação ao ir ao estádio é se divertir e torcer pela vitória do seu time, para as mulheres o momento envolve uma série de outras apreensões. A possibilidade de sofrer assédio ou algum tipo de violência é sempre considerada, e isso afasta muitas delas dos ambientes esportivos.

(Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)
Para a professora titular aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisadora e ativista do futebol de mulheres, Silvana Goellner, o futebol foi criado por homens e para homens e, por causa de uma representação normativa do que deveria ser feminino, elas são hostilizadas nesse ambiente que é historicamente masculino.
“Quando as mulheres entram dentro desse jogo, com toda a representação da fragilidade feminina, da feminilidade e da maternidade, esse esporte passa a ser visto como algo violento, que pode ferir essa representação”, explica a pesquisadora.
Em uma partida das quartas de final do Campeonato Paulista de 2026, entre Red Bull Bragantino e São Paulo, a árbitra Daiane Muniz foi escalada para comandar o jogo. Após a partida, ela foi alvo de ataques machistas em entrevista concedida pelo jogador Gustavo Marques, do Bragantino. “Não adianta colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho”. Em um ambiente que naturalizou desqualificar mulheres, não causa surpresa que declarações desse tipo sejam feitas publicamente, e nem que elas acabem influenciando a percepção sobre a competência profissional delas.
Segundo a pesquisadora, o desrespeito independe da função ocupada. Mesmo em cargos considerados mais ‘aceitos’, como médicas, nutricionistas ou fisioterapeutas, mulheres ainda enfrentam preconceitos diários no mundo do futebol.
“As posições aceitas são as de subalternidade, médicas, fisioterapeutas e psicólogas também muitas vezes não são vistas como posições importantes no futebol, já que têm relação com essa coisa do cuidado, que é atribuída às mulheres”, relata Silvana.
Ela ainda acrescenta que por causa dessa hegemonia masculina, elas são frequentemente questionadas, inclusive em sua competência, quando exercem qualquer função dentro desse espaço.
Fora do campo profissional, o futebol também deveria ser um espaço de lazer. No entanto, a falta de segurança faz com que mulheres precisem se organizar coletivamente para frequentar estádios. O grupo “Embaixada Meninas SRN”, é primeira embaixada feminina do Flamengo, e surgiu com esse objetivo: reunir mulheres para assistir aos jogos no Maracanã com mais segurança. A integrante do grupo Ana explica como funcionam os encontros do grupo.
“Nos organizamos sempre através de um grupo do WhatsApp para vermos meninas próximas, nos encontrarmos no caminho e marcarmos um ponto de encontro antes de entrarmos”, conta Ana.
Ainda assim, mesmo com a organização prévia em grupo, nada garante a segurança e elimina os riscos de frequentar o mundo do futebol brasileiro.
“No meio da própria torcida do flamengo, uma integrante foi assediada e, em um outro momento, uma integrante foi agredida. Em ambos os momentos recorremos à segurança do local, que nada fez, e ainda tivemos que ouvir ‘ali não é lugar para mulher’. Após esses episódios, fomos chamadas até o BEPE, onde fizeram promessas de melhoria na segurança para as mulheres e campanhas de conscientização.”, relata a torcedora.
Apesar disso, há também experiências positivas. Em março de 2025, no mês da mulher, o clube fez uma exposição no Museu do Flamengo dedicada às mulheres importantes na história do time, e as incluiu na exposição. “Foi algo que nos marcou bastante, pois mostrou que somos vistas e fomos reconhecidas.”, relembra Ana.
Casos como esse mostram que há sim iniciativas pontuais que valorizam esses grupos e as torcedoras de uma forma geral, mas ainda são insuficientes diante desse problema. A consideração dos clubes com as mulheres no futebol precisa ser natural e uma questão de direitos, e não apenas uma obrigação para evitar repercussões negativas ou uma jogada de marketing.
Por fim, a professora aborda o contexto histórico da temática:
“Isso está no contexto da nossa sociedade, uma sociedade extremamente hostil com as mulheres, uma sociedade que mata as mulheres, e o futebol está dentro desse contexto. Então é uma mudança cultural que precisa ser feita, a partir da denúncia e da punição daqueles que são os agressores”, finaliza a pesquisadora.
Para além do futebol, o combate à violência contra a mulher precisa ser tratado como uma prioridade pela sociedade como um todo. O que ocorre no ambiente esportivo reflete a realidade enfrentada por elas no cotidiano em diferentes espaços. Assim, para que haja mudanças efetivas no futebol, é necessário que a própria sociedade avance na valorização e no respeito às mulheres. Não adianta buscar respeito dentro do futebol enquanto não houver uma mudança na mentalidade de quem o assiste e o acompanha.
Por isso, a resistência feminina é essencial para a mudança desse cenário. A atuação de pesquisadoras como Silvana Goellner e de grupos como a “Embaixada Meninas SRN” evidencia um movimento de ocupação e ressignificação de um espaço historicamente negado às mulheres. Essa presença representa uma exigência de mais reconhecimento, respeito, segurança e de uma luta para que esse ambiente seja cada vez mais frequentando pelo público feminino de forma livre e sem preconceitos.
Foto de capa: Reprodução/Instagram/@meninas_srn
Reportagem de Carolina Bento, com edição de texto de João Gabriel Lopes
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