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“Sirat” aposta na tensão e no desconforto como experiência

Drama ambientado no deserto transforma luto e sobrevivência em uma jornada extrema.

No dia 26 de fevereiro, chega aos cinemas brasileiros “Sirat”, um drama sensorial ambientado no deserto do Marrocos. O longa foi um dos vencedores do “Prêmio do Júri” no Festival de Cannes 2025 e também está concorrendo ao Oscar nas categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Som.

Dirigido por Oliver Laxe, o filme acompanha Luis e seu filho Esteban na busca pela filha/irmã desaparecida há cinco meses, vista pela última vez em uma rave realizada no deserto marroquino. Após se unirem a um grupo de viajantes que seguem rumo a outra festa, os personagens atravessam uma jornada marcada pela exaustão física e emocional.

O título “Sirat” faz referência a uma tradição islâmica que descreve uma ponte que cruza o inferno, que seria mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma espada, metáfora que dialoga diretamente com os obstáculos enfrentados pelos personagens. A narrativa coloca seus protagonistas diante de um verdadeiro inferno da vida real, onde o luto, o desespero e a sobrevivência se misturam. A música eletrônica, elemento central da obra, embala uma espécie de espiritualidade caótica, funcionando como um fio condutor para a reconexão consigo mesmo.

É quase impossível não roer as unhas durante a exibição. O longa aposta em reviravoltas constantes e em uma construção de tensão que mantém o espectador atento. É um filme que se assiste na ponta da cadeira, sustentado por uma atmosfera sufocante e por um trabalho sonoro imersivo.

Com apenas dois atores profissionais no elenco, impressiona a forma como o grupo atua em perfeita sintonia com a proposta do filme. A conexão construída por meio da música eletrônica, com suas danças e gritos de liberdade é quase palpável.

No entanto, a obra tropeça em seu desfecho prematuro. O que se inicia como uma busca por uma filha desaparecida acaba se transformando em um road movie estranho e irregular, deixando a sensação de que a jornada poderia ter sido conduzida a um destino mais potente.

No fim, “Sirat” se impõe menos como um filme sobre respostas e mais como uma experiência sobre atravessar o vazio. Ainda que seu desfecho não sustente com a mesma força a tensão construída ao longo do percurso, o longa deixa marcas ao apostar em uma narrativa sensorial. Por vezes bizarro e por vezes poético, o filme encontra potência justamente nesse desconforto, convidando o espectador a caminhar por sua própria “Sirat”.

Foto de capa: Divulgação / Forest Film

Crítica de Luisa Lucas com edição de texto de Gabriel Goulart

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2 comentários em ““Sirat” aposta na tensão e no desconforto como experiência

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  2. Avatar de Agnes Garcia

    Análise simplesmente perfeita! Mesmo com os erros da obra apontados, isso não vem com um efeito desmotivador. Pelo contrário, com o contraste com os elogios feitos pela autora do texto, você se sente instigado a assistir a trama para tirar suas próprias conclusões! Definitivamente um filme que irei assistir. Uma observação especial ao cuidado com a explicação do significado do título da obra, que faz referência a cultura islâmica.

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