Não é de hoje que o estado do Rio de Janeiro enfrenta eventos climáticos extremos. Inundações e deslizamentos são exemplos de catástrofes ambientais, decorrentes de tempestades que angustiam boa parte da população fluminense. A questão das fortes chuvas e suas consequências é um problema antigo no estado, principalmente as precipitações intensas que ocorrem entre os meses de dezembro e abril, temporais tão fortes que, muitas vezes, em apenas alguns dias, superam o volume de chuva previsto para todo o mês. Essas tempestades têm se tornado cada vez mais frequentes e são efeitos da crise climática vivida pelo planeta.
Diante desse cenário, as pessoas que residem em áreas de risco, sofrem frequentemente com as consequências desses desastres naturais. Esse fato explicita o conceito de justiça ambiental, ou melhor, evidencia a injustiça ambiental vivida por cidadãos de determinadas regiões do estado. Os indivíduos mais afetados pelos problemas causados pela crise climática são os que menos contribuem para o aquecimento global. Nas regiões mais humildes e de baixa renda, o número de pessoas atingidas por catástrofes é consideravelmente maior do que em locais com melhor infraestrutura e maior poder financeiro. Mateus Aguiar, morador de Vilar dos Teles, São João de Meriti, na Baixada Fluminense, viveu na pele os efeitos dessas chuvas.
“Todas as vezes que chovia forte e eu morava na antiga casa com minha família, era um desespero. Meu pai tinha uma fábrica de artesanato no quintal e, em diversas ocasiões, nas fortes chuvas, alagava tudo. Precisávamos correr para levantar as madeiras e salvar o material”, relembra.
Segundo Mariana Villas Boas e Victor Paca, hidrólogos do Serviço Geológico do Brasil (SGB), as chuvas na região sudeste, principalmente no estado do Rio, têm se tornado mais intensas e localizadas, com um comportamento diferente da séria histórica. Para Mariana, essa alteração do padrão é reflexo direto das mudanças climáticas, que impactam o ciclo hidrológico e aumentam a ocorrência dos eventos extremos.
“A elevação das temperaturas, por exemplo, altera os volumes precipitados e evaporados, gerando desequilíbrios nas fases do ciclo da água”, afirma a pesquisadora.
A falta de planejamento urbano agrava ainda mais o problema. A impermeabilização do solo por construções e asfaltos impede a infiltração da água, acelerando o escoamento superficial e aumentando o risco de inundações. Segundo Victor, técnico do SGB, o Rio de Janeiro, com rios canalizados, morros ocupados de forma irregular e sistema de drenagem sobrecarregado, é um terreno fértil para tragédias. “O lixo acumulado, a ausência de coleta adequada e a intensificação das chuvas tem paralisado a cidade com mais frequência”, explica.
Bianca Delbons, moradora da Penha, bairro da Zona Norte do Rio, vive em uma área alta da região, mas cercada por morros e locais considerados de risco para deslizamentos. Ela destaca a constante preocupação, especialmente em dias de chuva forte. Muitos moradores do bairro estão cadastrados no sistema da Defesa Civil, que emite alertas sobre os possíveis deslizamentos, o que ajuda na prevenção mas não elimina o medo e a insegurança. A situação se agrava com o acúmulo de lixo nas ruas.
“Tem muito lixo na minha rua, o que acaba entupindo os bueiros e piora a situação de quem mora nas ruas mais baixas. Quando a água desce, leva o lixo junto e alaga tudo”, conta.
O monitoramento dos níveis dos rios é essencial para prevenir desastres. Esses dados alimentam modelos preditivos e sistemas de alerta, como o Alerta Rio do INEA e os trabalhos desenvolvidos pela COPPE/UFRJ, que buscam adaptar a cidade aos novos padrões climáticos. Mas, como ressalta a pesquisadora Mariana, “a gestão das águas só será mais justa e eficiente com a participação ativa da população em todas as etapas das políticas públicas: planejamento, implementação, monitoramento e avaliação”.
A tragédia anunciada das chuvas no Rio de Janeiro não é apenas uma questão ambiental, mas social. Segundo um estudo do Ambiental Media e Instituto de Computação da UFF, utilizando dados do IBGE e da prefeitura do Rio, cerca de 600 mil famílias vivem hoje em áreas com alto risco de deslizamentos ou inundações na capital.
Algumas ações vêm sendo implementadas, como o Programa Limpa Rio, desenvolvido pela Secretaria Estadual do Ambiente e Sustentabilidade e pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que atua na remoção de sedimentos e resíduos de rios e canais do estado, e obras de contenção como o Piscinão da Praça da Bandeira, projetado para reduzir alagamentos em pontos críticos da cidade. No entanto, essas medidas ainda são pontuais e insuficientes diante da complexidade do problema, que exige soluções integradas e de longo prazo.
Foto de capa: Fernando Frazão/Agência Brasil
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Reportagem realizada por Mariana Motta e Raphael Molinaro para a disciplina de Política Ambiental e Modelos de Desenvolvimento, ministrado pelo professor Eduardo Bianchi

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