Essa noite eu sonhei com você. Estávamos em uma festa, você passou por mim, mas não falou nada, conversamos apenas através dos olhares. Conforme se afastava seu rosto foi sumindo, se transformando em um borrão. Será que eu ainda lembro da sua voz? Quando acordei, aí que o pesadelo começou, ainda não acredito que estamos vivendo assim.
Foi no dia que a gente começou a namorar que você resolveu recitar um “poeminha”. É assim que eu introduzo esse momento, eternizado em um vídeo no meu celular. Que bom que eu gravei isso. Você começa dizendo o título errado, “Os Desiludidos do Amor”, e segue, quase impecável. A essa altura os desiludidos do amor já teriam desfechado os primeiros tiros no peito. E sinceramente, eu também queria ter feito isso.
Mas não dá, parece que não existe nem tempo de sofrer em paz, quem dirá fazer todo um escarcéu para te trazer remorso eterno. Drummond deveria ter escrito sobre como é difícil viver assim, talvez tenha considerado ser impossível e que o fim comum para todos nós seja mesmo a perda do brilho debaixo da terra. Eu estou vagando, faz dias que eu não quero fazer absolutamente nada, principalmente depois que gastei todos os meus argumentos negociando uma possível reconciliação.
Algumas pessoas sabem que não está tudo bem, chegam próximo e me falam alguma palavra de carinho, como se estivesse me desejando pêsames. E eu fico aqui nesse velório que não tem mais ninguém, até o caixão está vazio. Estou de luto por alguém que não morreu, ao contrário, parece viver muito bem, sambando sobre a minha própria tumba. É muito mais fácil aceitar o luto de uma morte real.
A única coisa que eu queria era sair correndo até a sua casa, eu ainda sei onde você mora e como você vive, tenho uma boa noção sobre o que se passa na sua cabeça. Simplesmente não consigo voltar a viver depois da gente, não sei escrever essa parte da história. É cruel imaginar que, depois de tanto tempo, meu maior amor está solto pelo mundo, quase indefeso.
E a culpa é sua, as amadas são as verdadeiras culpadas. Cheias de amor, recebido por desiludidos como eu, escolhem acabar com tudo e esperam que o fim seja próspero, que uma nova relação possa surgir daí. Querem que no dia seguinte sejamos bons amigos. Impossível, não consigo resumir nossa relação a uma amizade como as outras que eu tenho. Você não sente nada? Será que eu realmente estou sentindo tudo isso sozinho?
As pessoas trazem muitas receitas sobre como superar e aceitar o ponto final que você colocou, mas eu só queria uma fórmula que me tirasse desse necrotério. Você não vem me buscar mesmo? Temo que se algum dia você vier, seja tarde demais e que minha paixão de primeira classe já tenha sido competentemente encaixotada. Se isso acontecer, coloque uns girassóis no meu túmulo, por favor.
Deveriam inventar um outro nome pra esse sentimento que toma conta de mim. O luto só dá pra aceitar, não tem muito o que fazer, nenhuma possibilidade de mudança. Acho que ilusão seria triste da mesma forma, talvez amor seja uma boa, embora eu odeie ter que descobrir o que o amor vira quando chega ao fim. Meu amor não acabou, eu só não sei o que fazer com ele. Talvez essa seja a hora de dizer o que eu quero escrito na minha lápide: Aqui jaz um grande coração e muitas tripas sentimentais.
Foto de Capa: Reprodução/Pexels
Crônica de Gabriel Ribeiro, com edição de texto de João Agner
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