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Festejos no quintal: a tradicional celebração do dia de São Cosme e Damião

Como a festa aos santos se tornou popular no subúrbio do Rio de Janeiro

Todos os anos, no dia 27 de setembro, as ruas são tomadas por crianças correndo atrás de sacos de papel repletos de guloseimas. O dia de São Cosme e Damião carrega uma tradição antiga e popular na cultura brasileira: a distribuição de doces.

A data celebrada entre o catolicismo e as religiões afro-brasileiras tem dois significados. Para os católicos, a comemoração tem a ver com a data de morte de Cosme e Damião, gêmeos canonizados e tidos pela religião como médicos voluntários que foram martirizados pela perseguição ao cristianismo, por volta do século III d.C.

Nas religiões de matriz africana, os chamados Ibejis são filhos de Xangô e Iansã. O termo “Ibeji”, em Iorubá, é usado para designar os gêmeos: Ibi – nascido ou parto; Eji – dois. Nas crenças afro-brasileiras, são entidades que protegem as crianças e também representam a pureza, a infância e a inocência, e comumente aparecem em rituais de cura.

No Brasil, houve sincretismo entre as duas crenças. O ato de oferecer bolo, guaraná e doces aos Ibejis se encontrou com o pagamento de promessas aos santinhos gêmeos, e a receita é a tradicional distribuição de doces, seguindo o calendário litúrgico que estabeleceu, em 1969, o dia 27 como o dia oficial da celebração. A festa é comum no subúrbio do Rio de Janeiro, tanto pelo ato de dar as guloseimas às crianças (muitas vezes carentes), quanto pelo viés religioso.

Os doces

Na cultura popular, os doces são distribuídos em saquinhos de papel ou plástico listrados nas cores verde e branco com estrelas rosas, representando as cores das túnicas dos santos, além da imagem de Cosme e Damião estampada na parte da frente.

Doces são distribuídos em saquinhos para as crianças. (Foto: Victor Baetas/Reprodução)

Doces de abóbora e de amendoim, maria mole, paçoca, suspiro, pirulitos, balas e pipocas são as guloseimas mais comuns dos pacotinhos. Há pontos de distribuição em praças e também caminhões lotados de saquinhos de Cosme e Damião para a garotada.

A política do festejo

Nos últimos anos, porém, há uma crescente intolerância com a tradição e até mesmo a propagação de fake news e demonização da festa, afetando também as crianças que são alvo do preconceito étnico-religioso que circunda a prática. Essa discriminação resultou numa diminuição no número de celebrações pela cidade, além da instauração do mito de que os doces são envenenados.

Apesar das intervenções e preconceitos, a tradição persiste e segue firme como uma das festas mais tradicionais da cultura popular do Rio de Janeiro e do Brasil.

Foto de capa: Victor Baetas/Reprodução

Reportagem de Julia França, com edição de texto de Jorge Barbosa

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