Protagonizado pela premiada atriz norte-americana Susan Sarandon, o longa “A Intrometida” chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira, dia 04, para tratar de um assunto que ainda afeta muitas mães de filhos adultos: a Síndrome do Ninho Vazio, aquele momento em que, após dedicar grande parte de sua vida à criação de sua prole, uma mãe vê seus filhos saírem debaixo de suas asas em busca de independência. Mais uma vez, a vida servindo de inspiração para a arte.
Tendo participado de importantes festivais cinematográficos ao redor do mundo – como o Toronto International Film Festival e Tribeca Film Festival –, o filme tem arrancado elogios de crítica e público, principalmente devido à interpretação irrepreensível e simpática de Sarandon, que consegue imediatamente criar uma identificação com o espectador, absorvendo-o para o universo da trama.
Em “A Intrometida”, a atriz veterana interpreta Marnie, uma mulher que já passou da metade de sua vida que se vê vazia após o falecimento de seu companheiro de longa data. Por isso, passa a “se intrometer” na vida das pessoas ao redor – oferecendo carona para um jovem morador de seu bairro, dando conselhos a todos que ela acha que precisam, etc.
Nestes últimos tempos, seu passatempo – além de tentar ser útil às pessoas à sua volta – tem sido ligar constantemente para a filha, Lori (Rose Byrne), que vive em Los Angeles, onde trabalha como roteirista, e também tem convivido com a melancolia após seu namorado trocá-la por outra mulher. Sem ter planos e atividades relevantes que preencham seu vasto tempo livre, Marnie decide se mudar de Nova York para LA, sem perceber que seus momentos de carência e solidão acabam por invadir a privacidade de sua filha – muitas vezes de maneira hilariante.
As ações de Marnie são similares a de muitas mães mundo afora: chegar à casa da filha sem avisar, entrar na residência sem tocar a campainha porque tem as chaves, querer se tornar amiga dos amigos da filha, etc., sem ver mal algum nisso. Estas situações que podem parecer triviais dão todo o charme da trama quando unidas ao roteiro bem estruturado e a atuação sincera de Sarandon, que consegue fazer com que todas as “intromissões” de sua personagem – que poderiam parecer artificiais nas mãos de uma atriz menos talentosa/carismática – pareçam naturais e até mesmo fofas.
Um dos pontos fortes de “A Intrometida” é justamente conseguir tratar de assuntos complexos com são as relações familiares de maneira leve e totalmente anti-didática, evitando que o filme se torne cansativo. No longa, mãe e filha se sentem depressivas e carentes, porém buscam coisas diferentes – tudo o que Lori quer é ficar sozinha em sua fossa; já Marnie quer tudo menos a solidão – e ao tentar lidar com as divergências desta depressão conjunta, oferecem ao público cenas tão engraçadas quanto cativantes.
Outro ponto positivo do enredo é a disposição das personagens coadjuvantes, que têm sua importância dentro da história. Um exemplo disso é o ex-policial Zipper, interpretado pelo ganhador do Oscar J.K. Simmons (o professor durão de “Whiplash”). O oficial reformado surge na vida de Marnie e acaba por ajudá-la a trabalhar o
sentimento de amor, que, no fundo, é o maior causador das atitudes da mamãe onipresente: Marnie é puramente maternal; após sua única filha se mudar para uma cidade distante e seu companheiro da vida toda falecer, Marnie simplesmente não sabia a que ou a quem direcionar tal sentimento, por isso tanta carência e solidão.
Um detalhe interessante sobre o longa é que ele foi roteirizado e dirigido por Lorene Scafaria, que passou por uma situação semelhante à das protagonistas – em termos claros, o roteiro do filme foi baseado na experiência que a própria Lorene viveu com sua mãe após a morte de seu pai. Talvez seja esta a razão de tanta sensibilidade e delicadeza ao tratar de temas difíceis para várias pessoas – assuntos como perda, solidão, carência e amor, sentimentos que muitas pessoas fazem de tudo para ocultar.
Por fim, “A Intrometida” – um título demasiado redutivo para tamanha complexidade da trama, mesmo que não pareça devido à sutileza com a qual o tema é tratado pela mão firme da diretora – é uma dramédia que tem uma mensagem a passar e o faz com louvor e com um nível ímpar de humanidade, fazendo o telespectador refletir e, sem dúvida, querer estar mais próximo de seus entes queridos. Vale uma ida ao cinema – especialmente em família.
Daniel Deroza – 3º período

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