Da sala de aula

Aumentam os casos de ataques a jornalistas

Violência contra profissionais foi duas vezes maior em 2020. O presidente da República lidera agressões, principalmente contra mulheres

Mesmo em um ano marcado pela pandemia do novo Coronavírus, quando o jornalismo foi considerado atividade essencial, o Brasil registrou recorde de casos de agressões contra os jornalistas. Pelo quarto ano consecutivo, o país caiu no ranking de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), estando agora na 111ª colocação – na chamada “zona vermelha”, ao lado de países como Afeganistão e Emirados Árabes.

Enquanto isso, o Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil, elaborado pela Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ), considera o ano de 2020 como o mais violento desde o começo da década de 90. O número de casos de ataques à liberdade de imprensa dobrou, passando de 208 para 428 entre 2019 e 2020. Para o órgão, tal crescimento está ligado diretamente ao bolsonarismo.

Jair Bolsonaro, quando deputado, xingou jornalista Manuela Borges de “idiota” e “ignorante”
Arquivo: Antônio Cruz/Agência Brasil

A avaliação da instituição tem motivo: o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) atacou a imprensa em pelo menos 20 transmissões realizadas em suas redes em 2021, com a acusação de criar notícia falsa para prejudicar seu governo. Os casos mais recentes de ataque foram contra a âncora da CNN Brasil, Daniela Lima, e contra a jornalista Laurene Santos, da TV Vanguarda, afiliada da TV Globo.

No primeiro caso, Bolsonaro parou para conversar com apoiadores, quando uma mulher citou uma fala da apresentadora Daniela que foi distorcida. Como resposta, o presidente respondeu que a jornalista era uma “quadrúpede”. No segundo episódio, ao ser se irritar com as perguntas de Laurene, mandou a repórter “calar a boca” e falou que o trabalho dela era “porco”.

Não foi a primeira vez

Este não é um caso isolado. Em abril, o presidente chamou uma jornalista de “idiota” ao ser questionado sobre uma foto em que posou junto com o apresentador Sikêra Júnior com uma placa escrito “CPF cancelado”. E, antes mesmo de assumir a presidência, ainda em 2017, chamou Miriam Leitão de “porca” e afirmou que esta lamberia as suas botas “como fez com todos que chegaram no poder”.

Jair Bolsonaro e Sikêra Junior segurando uma placa de “CPF Cancelado”
Foto: Divulgação

Já em 2014, uma repórter da RedeTV! foi xingada de “idiota” e “ignorante” ao questionar se Bolsonaro achava que o golpe nunca existiu. Após isso, a jornalista foi alvo de ataques de apoiadores do parlamentar, e não recebeu nenhum apoio, nem de seu empregador. A RedeTV! a desencorajou, orientou que não fosse adiante com o processo. Ela se demitiu no mesmo ano.

Nota-se, nestes casos, um padrão. Quando o jornalista não informa o que se quer ouvir, ele é alvo de retaliação, e ressalta-se, os ataques e ameaças não ficam apenas por trás das telas. No dia 22 de maio, durante a cobertura de um ato em defesa do presidente, o repórter da CNN, Pedro Duran, foi alvo de agressões, foi impedido de exercer sua função profissional e teve que ser escoltado por policiais militares para escapar dos manifestantes. Apesar de ter sido o único que precisou ser levado pela polícia, o repórter da CNN não foi o único a ser hostilizado. Os profissionais que ficaram no espaço reservado a jornalistas ouviram a todo momento xingamentos de quem passava por lá.

Relatos de quem sofreu na pele

Em meio a tantos ataques e humilhações, os profissionais de imprensa se sentem acuados e com medo de atuar em sua própria profissão. É o caso do estudante de jornalismo Crystopher Leforte, 20 anos, que foi vítima de ataques virtuais por apoiadores do presidente após criticar Bolsonaro em seu canal do YouTube. “Essas pessoas descobriram até onde eu morava, fiquei com medo de sair na rua, com medo de que algo acontecesse com a minha família. Falavam que eu estava espalhando fake news, que eu merecia uma surra, que eu era comunista de iPhone”, conta.

Crystopher Leforte garante que os ataques não o impedirão de cumprir seu papel de combater fake news
Foto: Acervo Pessoal

Leforte precisou abandonar seu canal por alguns meses, e por pouco não teve que mudar de endereço. Mesmo assim, ele deixa bem claro que todos os ataques que recebeu não o farão parar. “O jornalismo nunca teve um papel tão importante como agora. Precisamos nos unir, e resistir!”.

Contudo, alguns profissionais acabam abandonando o ramo, tendo que partir às pressas para outras profissões. A fotógrafa Laís (cujo nome foi alterado a pedido da entrevistada, que prefere não se identificar), 37, afirmou ter sofrido pressão por parte da própria família, e acabou saindo do curso de jornalismo na Estácio para estudar Fotografia. “Amo a arte da fotografia, amo minha profissão, mas tive que aprender a amar. Eu senti na pele a sensação de ser oprimida pela carreira com que sonhava. Para minha família, valia qualquer curso para eu não virar jornalista. Uma pena”.

Público polarizado

Uma opinião formada sobre determinado assunto importa mais do que os fatos relacionados a ele, em muitos casos. Um ambiente polarizado, sem tolerância e respeito a opiniões discordantes, apenas reforça essa tendência. Por isso que fake news se espalham mais do que notícias verdadeiras: independentemente de sua veracidade, elas falam o que seu público quer ouvir.

O jornalista e assessor de imprensa Gabriel Menezes relata que seus familiares compartilhavam notícias falsas na época das eleições. “Foi muito difícil, eles viviam acreditando em fake news e eu vivia tentando conscientizar”, conta, aos risos. Isso fez com que a família de Menezes desacreditasse nos veículos de imprensa. “É chocante a força que as fake news têm. Elas conseguiram convencer minha família e muitas outras pessoas de que a mídia era culpada e certos políticos anjos sem auréola. Ver meus pais, meus tios, avós, xingando jornalistas e chamando-os de lixo, comunistas, burgueses, doeu em mim”.

Jornalista Gabriel Menezes tentou conscientizar a família sobre notícias falsas
Foto: Reprodução/Twitter

O editor-chefe do Portal NTVB, Gustavo Dill, aponta que o público precisa checar informações cruciais antes de compartilhar qualquer notícia: “Veja onde a notícia foi divulgada, se foi em um site confiável. Depois, pesquisar se essa notícia foi publicada em outros veículos de imprensa. Além disso, nunca compartilhar sem ler a notícia completa”, relata.

Editor-chefe Gustavo Dill alerta sobre a importância de checar as informações
Foto: Reprodução/Twitter

Gustavo ressalta que os jornalistas não têm interesse em desestabilizar o governo, mas que a imprensa tem a missão de informar, conscientizar e garantir a transparência para a população. “É um absurdo ver os constantes ataques do presidente contra nós, jornalistas. Isso tem sido normalizado, e não pode ser. É necessária uma intervenção, uma punição para esses atos antidemocráticos, tanto para quem incentiva quanto para quem é incentivado. A liberdade de imprensa é fundamental para nossa democracia. Sem ela, não vivemos em uma democracia, e sim numa ditadura”.

Bruno Venâncio – 3º período

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

3 comentários em “Aumentam os casos de ataques a jornalistas

  1. Maristela Fittipaldi

    Parabéns, Bruno! Bjs!

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