Geral Sociedade

O peso da maternidade solo durante a pandemia

Mais de 11 milhões de mães solo administram sozinhas a crise e as mudanças dentro de casa

“Eu estou cansada!”. Este é o desabafo de Vanessa Araújo, de 35 anos, que reverbera em outras mães solo. Da noite para o dia, essas mulheres viram o seu isolamento social se mesclar com seu isolamento materno, e tiveram que encarar também, as consequências da pandemia da Covid-19. 

O universo da maternidade solo já é envolto por uma enxurrada de desafios. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2018, são mais de 11 milhões de mulheres que entre preocupações e medos, precisam lidar com as responsabilidades que envolvem sustentar a casa, sozinha.  

Durante a pandemia, os cuidados precisaram aumentar, e junto deles o peso da insegurança e a solidão. A advogada de direito da família, Flávia Aguilhar, deixa claro o quanto essas famílias monoparentais, chefiadas por mulheres, sofreram com a crise financeira e social que o país enfrenta atualmente.

“As mães solo, que já são normalmente sobrecarregadas na criação dos filhos em tempos normais, foram severamente afetadas na pandemia. Algumas perderam seus empregos, outras tiveram redução de salários, e aquelas que conseguiram manter seus empregos e foram autorizadas ao trabalho remoto tiveram que se desdobrar para dar conta dos filhos em casa, das aulas online, dos cuidados da casa e do trabalho”, afirma Flávia.

A advogada ainda ressalta que o auxílio emergencial, por exemplo, foi uma das medidas implementadas pelo Governo Federal para auxiliar essas mães durante a pandemia. Porém, muitas delas não tiveram acesso à essa ajuda. Segundo a advogada, os motivos vão desde dificuldades do processo em si, até a descoberta de que o pai já havia relacionado o filho como dependente para conseguir o auxílio.

“Algumas instituições organizaram mutirões de assistência jurídica para que essas mães pudessem recorrer do indeferimento do auxílio e comprovar a regularidade no pedido – já que elas criavam a criança – mas não podemos negar que o simples fato de ter que buscar atendimento em tempos de pandemia, ter que fornecer documentos e aguardar decisões judiciais ou extrajudiciais que podem demorar – como de fato demoram, acabam sendo mais um entrave”, conclui.

Foto: Ueslei Marcelino / REUTERS

Vanessa é professora e mora sozinha com seu filho Arain, de 1 ano e 9 meses. Após se separar e passar a cuidar sozinha da casa e das necessidades da criança, a professora perdeu a oportunidade de emprego que estava prestes a conquistar. As dificuldades que já eram grandes, ficaram ainda maiores. “Eu tive que cortar vários gastos, e outras dívidas ficaram pendentes. É desesperador ver a bola de neve se formando”.

De acordo com a Pesquisa Nacional por amostra de domicílios contínua (PNAD) do IBGE, o número de mulheres empregadas sofreu uma redução significativa de mais de 4 milhões de pessoas, durante a pandemia.

Desempregada e cumprindo o isolamento social com seu filho, que parou de frequentar a creche, Vanessa conta que não tem mais tempo pra ela e para suas próprias necessidades. Para a professora, sair para trabalhar vai além de uma questão financeira, pois ao se ocupar de outros assuntos, ela se sente preenchida. Em alguns momentos, ela admite não saber o que fazer.

” Tem uma hora que você quer respirar…vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana com uma criança sem dividir a atenção com ninguém, é enlouquecedor! É um ser completamente dependente de você o tempo inteiro”, desabafa.

Para além das questões financeiras, o peso emocional também é capaz de desestruturar essas mulheres. A psicóloga Carlla de Faria trabalha com o relacionamento entre pais, bebês e crianças, e explica as diversas origens dessas alterações. “A ansiedade em relação ao futuro, pânico, ameaça com o contágio, estresse pelo acúmulo de tarefas e pela privação de liberdade, e o aumento dos sintomas psíquicos já instalados anteriormente ao momento da pandemia”.

A psicóloga alerta que as puérperas (mulheres que deram à luz há pouco tempo) e mães solo de bebês de até dois anos, são as que mais necessitam de uma rede de apoio, e que contam com mais alterações hormonais que tendem a evoluir para quadros psicológicos graves. Entre tanto, existem questões gerais que afetam mães das mais variadas condições.

“O denominador comum, me parece que é a ansiedade e preocupação dessas mães de ter que proteger, cuidar e oferecer o melhor para os seus filhos. Seja a nível material com a impossibilidade de recursos financeiros, seja a nível mais subjetivo pelo prejuízo de recursos emocionais saudáveis pelo acúmulo de dias em confinamento”, afirma Carlla.

O isolamento também modificou o dia a dia dessas mulheres. A contadora Thatiane Jeronimo, é mãe da Luiza de 5 anos, que desde o início da pandemia está estudando de forma remota. Com a ajuda dos pais, que moram com ela, a contadora relata que tentou criar uma rotina com cobrança, mas que não funcionou e acabou tornando os dias mais estressantes.

Por isso, Thatiane preferiu alterar a dinâmica para conciliar o trabalho em home office com as aulas online da filha.

“Ela não consegue assistir uma aula sozinha, eu tenho que estar do lado. Se for uma aula de linguagem, de ballet…já tira 1 hora do meu dia, das 12 horas de trabalho, eu já me comprometo demais. Então eu deixo as aulas passarem e em outro momento separado para revisar a matéria com ela”, diz Thatiane.

Mães solo negras

As mulheres negras, que enfrentam as adversidades causadas pela desigualdade racial e de gênero, são também as responsáveis pela maior parte dos lares monoparentais (61%) e a maior parte dessas famílias se encontram abaixo da linha da pobreza (63%), segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A empreendedora Uini Lithiére, de 31 anos, é mãe de Kayala de 2 anos que frequentava a creche desde os 4 meses de vida. O suporte externo que possibilitava Uini a trabalhar e estudar para seu mestrado, foi interrompido pela pandemia. Mais do que nunca, o processo exigiu mais de seu controle psicológico e inteligência emocional.

A psicóloga, Carlla de Faria afirma que o movimento de romantização da maternidade pode contribuir para o cansaço de mães que lidam com a solitude durante a maternidade, e que se esforçam mais para cumprir com esse compromisso.

Já a advogada Flávia Aguilhar ressalta como a pandemia salientou as desigualdades. “Neste contexto, é evidente que as mães das classes sociais menos favorecidas acabam sendo ainda mais impactadas pela pandemia. É justamente nesta camada da sociedade que os impactos chegam primeiro, diz a advogada.

Como mulher negra e periférica, Uini acredita que a maternidade para essas mães é circundada por uma realidade que demanda ainda mais esforços. Ao compartilhar suas dores e pensamentos nas redes sociais, a empreendedora recebeu relatos de outras mães que também sentiam a necessidade de dialogar sobre o assunto. “São mulheres pretas como eu, mulheres mais velhas e mais novas.”.

A partir disso, é idealizado o projeto ‘Escrevivências Maternas’. Ainda em fase de desenvolvimento, o nome foi escolhido a partir do termo criado pela escritora Conceição Evaristo, e tem a função de acolher e da voz à essas mulheres. “Eu preciso abrir um espaço para essas mulheres desabafarem. Tem esse nome para tratar justamente dessas vivências através da escrita nas redes sociais, sobre a maternidade antes, durante e depois da pandemia, com um recorte racial”, conta Uini.

“Esse processo é doloroso pra uma mãe, admitir essas coisas…mas isso não define a minha maternidade”, diz Uini, que completa:

“Está tudo bem estar cansada, isso não significa que eu não ame minha filha. É importante falar sobre isso, mesmo sendo doloroso. A Kayala é a pessoa mais importante da minha vida, e é minha parceira. É o meu grande amor”.

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Bárbara Souza – 6° período

1 comentário em “O peso da maternidade solo durante a pandemia

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