Da sala de aula

Isolamento musical – lives, aulas por videoconferência e composição à distância

Pandemia do Coronavírus está afetando a forma como os músicos criam e performam sua arte. Professores de música também precisaram se reinventar para ensinar

Estudantes de música e profissionais da área estão impedidos de realizar suas atividades da forma tradicional por conta do enfrentamento da pandemia do Covid – 19. Para evitar o contágio, a população se viu forçada a se isolar em suas casas. Diversas atividades tiveram que ser interrompidas ou adaptadas a essa nova realidade. Lançadas em meio do caos, atividades relacionadas à cultura e educação já sofreram muitas mudanças e eventos como shows foram cancelados para evitar aglomerações. Músicos não podem mais se reunir para produzir novas músicas e nem para ensaiar. Alunos interessados em aprender um novo instrumento não podem mais ter o apoio presencial de seus professores.

Gabriel Lopes está satisfeito com os resultados das aulas online. (Foto: arquivo pessoal)

Quem está vivendo essa realidade é o músico Gabriel Augusto Lopes Pereira, de 23 anos, formado pelo Instituto Villa Lobos e que atualmente estuda na Starling Academy of Music, na Barra da Tijuca. Além de vocalista da promissora banda Milo, ele ministra aulas de canto, que são sua principal fonte de renda. Para Gabriel, o estudo da música é algo muito importante “Sempre gostei de ter banda, mas percebi que ficava limitado quando não estudava, quando não sabia como chegar onde eu queria. Quando você estuda, você meio que tem um mapa na mão”. Sua paixão pela música começou cedo, paixão essa que ele tem prazer em partilhar com seus alunos “Acho que todo mundo que tem um conhecimento pode passar o que sabe para outra pessoa. Eu sempre ajudei quem soubesse menos do que eu. O seu pouco pode ser muito para alguém”.

O também músico Rafael Barros de Freitas Oliveira e Cruz, de 33 anos, enfrenta os desafios da pandemia de forma parecida. Formado em violão clássico pelo Instituto Villa Lobos e que já atua como músico profissional há 15 anos, ele também exerce a função baixista das bandas “Vendo Meu Sofá Vermelho” e “Velatura”. Sua vida profissional vai além dos palcos e estúdios de gravação, já que também atua como professor. Decidiu desde muito cedo que iria se profissionalizar. O diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção  e Hiperatividade não foi um obstáculo para a realização de seus sonhos. “Sempre tive dificuldade de me concentrar. Com 14 anos comecei a estudar música, uma paixão louca que apareceu na minha vida, e eu conseguia me dedicar por horas e horas”.

Rafael Cruz acredita que as lives mudarão a forma como é vista a música. (Foto: arquivo pessoal)

O ensino da música também estaria ameaçado se não fosse pela internet e pelas videoconferências, que se tornaram tão comuns nesse período. “Estou muito feliz de trabalhar online. Tenho tido feedbacks de alunos que estão curtindo muito”, comemora Gabriel. O novo método de ensino parece ter agradado tanto aos alunos quanto ao professor, que acredita que um recurso valioso está sendo mais bem aproveitado: o tempo. “A gente precisa de tempo para se preparar, sair de casa e se deslocar para algum lugar. Dentro de casa você ganha mais tempo. Eu tenho conseguido me organizar bem melhor dando aula em casa”, acrescenta Gabriel. Entretanto, essa adaptação não é tão fácil quanto parece. O músico defende a necessidade de uma preparação mais elaborada do material para dar aulas.

A incerteza de como funcionariam as aulas nesse período fez com que algumas pessoas desistissem de atividades extracurriculares. E isso teve um impacto significativo nas aulas ministradas por Rafael. “O baque principal foi das aulas, que eram minha maior fonte de renda. A primeira coisa que as pessoas fizeram quando se assustaram foi suspender os cursos. Aulas de inglês, de música, por exemplo”. Entretanto, passados três meses, alguns alunos regressaram. “Já tenho uma didática mais formulada. É óbvio que não é a mesma coisa, tem uma defasagem, coisas mais sutis como ensinar a forma correta de segurar o instrumento, por exemplo, seriam melhores pessoalmente. A transmissão de áudio não é tão perfeita, mas o pessoal está disposto, está aceitando as mudanças”, avalia Rafael.

Outros setores da vida de ambos também precisaram de adaptações, já que antes da pandemia suas bandas estavam produzindo seus EPs. Com as determinações de isolamento social, algumas mudanças foram necessárias para a banda “Milo”, de Gabriel: não haveria mais a gravação de seu videoclipe, o show de lançamento do EP estava fora de cogitação e alguns detalhes da produção musical precisaram ser adaptados à nova realidade. “Temos que pensar na forma de distribuir, não temos como fazer um show de lançamento do EP ou da nossa single. Viramos uma banda de internet”. E é pela internet os integrantes da banda dão os retoques finais a sua arte, compondo a parte dos instrumentais por videoconferência.

Mas nem tudo se resume a interrupções. Um exemplo é a banda de Rafael, “Vendo meu Sofá Vermelho”, que antes da pandemia estava com seus projetos paralisados, mas que em meio a ela conseguiu finalmente lançar seu single. No entanto, a banda “Velatura”, outro projeto seu e que tem um aspecto mais experimental, sofreu um pouco mais para se adaptar à nova realidade. “Nosso ensaio era todo sábado, o dia inteiro tocando, dialogando, a gente criava muito só na conversa no estúdio. Agora não temos mais isso. O Nino, compositor da banda, continuou produzindo. Ele manda para nós e produzimos algo em cima disso. Ficou um processo mais lento”, acrescenta Rafael.

A internet tem sido uma ferramenta fundamental, não só para solucionar problemas relacionados a trabalho, mas como forma de ocupar o tempo ocioso. Muitos artistas encontraram nas lives musicais uma forma de se conectar com seu público. Gabriel vislumbra um futuro para essa nova modalidade musical. “Acho que as lives artísticas serão mais comuns. São uma ferramenta que as pessoas deviam usar mais. É legal, você se conecta com as pessoas. Normalmente não há um cachê para fazer live, mas você abre sua particularidade, sua intimidade para as pessoas. Acho bem legal”. As apresentações online se mostram vantajosas para o público e para o artista. O isolamento social pode fazer com que as pessoas se sintam muito solitárias. Para o músico, as lives são uma maneira de reencontrar amigos e promover encontros, mesmo que de maneira virtualizada. 

Rafael também enxerga um futuro para as lives, mas destaca que alguns cuidados não podem ficar de fora. “Eu só não sou a favor da forma como alguns cantores estavam fazendo, juntando uma equipe imensa na produção, furando a quarentena”. O risco de contaminação em aglomerações é muito alto. As redes sociais se tornaram o novo palco. Apoiar o artista, mesmo que à distância, também se tornou algo mais simples. “O que eu sempre digo quando alguém me pergunta como ajudar um artista independente: é bem simples, curta e comente o conteúdo deles nas redes. Isso já é muita coisa, aumenta o alcance do trabalho dessa pessoa. Esse é o momento para a gente fazer isso. Quanto mais pessoas estiverem fazendo isso, maior será a ajuda para o artista independente”, diz Rafael.

*Matéria produzida pela aluna Luciana Cunha para a disciplina Teoria e Técnica da Notícia, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi.

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

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