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Enchentes fazem parte da história do Rio de Janeiro

Em artigo, Andrea Casa Nova Maia, que é Doutora em História, revela memórias da enchente de 1966, que deixou 250 mortos e mais de 50 mil desabrigados

Em artigo, Andrea Casa Nova Maia, que é Doutora em História, revela memórias da enchente de 1966, que deixou 250 mortos e mais de 50 mil desabrigados

A cidade do Rio de Janeiro atinge, mais uma vez em 2019, um estágio de crise em relação às chuvas. Nesta terça-feira (9), o Rio amanheceu alagado depois de forte temporal, impedindo que a maioria dos moradores pudesse se dirigir ao trabalho ou à escola. Enchentes como esta fazem parte da história de uma cidade que já viu alagamentos desde 1711.

Segundo dados históricos do Corpo de Bombeiros, publicados pela Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), o Rio de Janeiro teve 16 “grandes” enchentes, só entre 1711 e 2011. Para a Doutora em História Andrea Casa Nova Maia, professora do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), as chuvas estão presentes no Rio desde sua fundação e antes mesmo dela:

“Sua localização entre mar e montanha, em uma zona tropical, torna a cidade um ambiente úmido, propício para o desenvolvimento de extensos manguezais e florestas tropicais úmidas, como a Mata Atlântica”, diz a pesquisadora, no artigo “Narrativas de um Dilúvio Carioca: memória e natureza na Grande Enchente de 1966”. 

Rio alagado: após o temporal, ônibus tenta passar com água até o meio do veículo na Rua Jardim Botânico, Rio de Janeiro, em 1966. Foto: Jornal O Globo

Andrea explica que a chuva em si não é um problema. Segundo a pesquisadora, a natureza (plantas, animais e a terra) se beneficiam com a água que cai do céu. Quando a cidade e seu concreto entram na equação é que a chuva vira enchente. “A urbanização do Rio de Janeiro levou ao aumento, e não à diminuição, das enchentes históricas ao longo do século XX. Isso aconteceu pelo próprio planejamento urbano que canalizava rios, construía em áreas alagadas e aterrava extensas áreas da Baía de Guanabara”, diz.

Segundo a historiadora, a expansão histórica da cidade – “primeiro morro abaixo, depois baía adentro e finalmente morro acima” – criou espaços desiguais. “Espaços vulneráveis às águas, áreas de risco nas quais certos grupos da população (mais pobres, menos assistidos pelo Estado) estão também mais vulneráveis que outros às enchentes”, diz. 

Apesar de seu texto tratar da enchente de 1966, parece refletir bastante outros alagamentos vividos por cariocas. Veja, abaixo, a entrevista de Andrea Casa Nova Maia para o canal Café História TV: 

As piores enchentes no Rio de Janeiro segundo a EBC, com dados do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, entre 1711 e 2011:

Setembro de 1711
Inundou um sítio entre a Baía de Guanabara e os morros. Não há informações sobre número de mortos.

Abril de 1756
Um grande temporal atingiu o Rio de Janeiro. Foram três dias consecutivos de fortes chuvas. Canoas fizeram parte da paisagem do centro. Não há informação exata sobre número de vítimas.

Fevereiro de 1811
Episódio conhecido como “águas do monte”. O Morro do Castelo (no centro) desmoronou, arrastando casas e vítimas. A construção da muralha do Castelo-Fortaleza de São Sebastião foi uma providência adotada.

Março de 1906
Foram 165 mm precipitaram em 24 horas. O transbordamento do Canal do Mangue provocou alagamento em quase toda a cidade e houve desmoronamentos com mortes nos morros de Santa Tereza, Santo Antônio e Gamboa.

Abril de 1924
De novo no Canal do Mangue e inundação da Praça da Bandeira. Houve desabamento de barracos no Morro de São Carlos (no bairro do Estácio).

Janeiro de 1966
Resultou em 250 mortos e mais de 50 mil desabrigados.

Janeiro de 1967
Deslizamento em Laranjeiras com 200 mortos e 300 feridos, devido as fortes chuvas, uma casa e dois edifícios foram soterrados.

Março de 1982
Inundação com 6 mortos depois de deslizamentos no Morro Pau da Bandeira, inundando várias ruas com o transbordamento do Rio Faria-Timbó.

Março de 1983
Um grande temporal caiu na madrugada de 20 de março de 1983, provocando a desabamento de casas e a morte de 05 (cinco) pessoas em Santa Teresa, onde a chuva atingiu 189 mm. O transbordamento de rios e canais em Jacarepaguá deixou mais de 150 desabrigados 18 mortos.

Janeiro de 1987
Enchente na região serrana com 292 mortos, 20 mil desabrigados. Foi decretado pela primeira vez do Estado de Emergência e depois do Estado de Calamidade Pública.

Fevereiro de 1988
Enchente e deslizamento no Rio de Janeiro com 289 mortos, 734 feridos, 18.560 desabrigados

Janeiro de 1999
Enchente na capital e região Serrana com 41 mortos, 72 feridos e 180 famílias desabrigadas.

Janeiro de 2000
Enchente na região Serrana com 22 mortos, 60 feridos e 133 famílias desabrigadas.

Fevereiro de 2003
Enchente na Região Serrana, Sul e Norte Fluminense com 36 mortos, 95 feridos e 870 desalojados e 823 desabrigados.

Abril de 2010
Deslizamento no Morro do Bumba (Niterói) com 264 mortos.

Janeiro de 2011
Enchente na região serrana com mais de 1 mil mortos e considerado o maior desastre natural da história do Brasil

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Daniela Oliveira, professora responsável pela Agência UVA e Arielle Curti – 7o período

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

3 comentários em “Enchentes fazem parte da história do Rio de Janeiro

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