Como as mulheres encaram o feminismo nos dias de hoje

Igualdade de gênero é um assunto que vem sendo discutido há décadas, mas recentemente o tema vem recebido mais atenção da mídia e causado mais interesse nas pessoas.

”Não é não”, ”ni una a menos”, ”girl power!” e outras expressões são bem conhecidas e amplamente disseminadas tanto nas redes sociais, como em outros meios de comunicação e também em protestos. Esses lemas são sobre empoderamento feminino, liberdade sexual e sobre algo bem mais básico que isso: o direito de ir de vir. Que ainda é algo impensável para a população feminina que constantemente se vê diante de assédio e outros tipos de violência.

Para a Organização Mundial de Saúde(OMS), a violência contra as mulheres é um dos maiores problemas de saúde e direitos humanos no mundo. Seus dados são alarmantes: uma em cada três mulheres no mundo já sofreram violência física e/ou sexual, 30%  já sofreram violência do seu parceiro, 38% dos assassinatos contra mulheres a nível global são cometidos pelo namorado ou marido. A baixa escolaridade, a normalização da violência e a desigualdade de gênero são alguns fatores de risco.

Tanto a repercussão de crimes sexuais cometidos contra mulheres como o aumento dos relatos indicam que há um grande avanço em relação ao reconhecimento graves das violações aos direitos humanos.

O Feminismo ainda é algo novo na vida de muitas mulheres, seja por não conhecerem o movimento ou por nunca ter tido interesse ou até mesmo por ter uma certa resistência sobre o assunto. Mas ideias de igualdade de gênero, direitos básicos e outros assuntos são frequentemente questionados por elas, então o movimento as acolhe mesmo que elas o conheçam apropriadamente.

‘’Posso dizer que sempre fui feminista, mesmo sem saber. O feminismo, como movimento político, passou a fazer parte da minha vida de forma mais contundente depois do nascimento do meu primeiro filho, especialmente pelo desafio que é criar um menino em uma sociedade machista e misógina como a brasileira’’, afirma Roberta Lussac, tabeliã e professora  do curso de Direito da UVA, que também acredita que a sobreposição de opressões precisa ser uma das maiores preocupações do movimento, ‘’Estudos indicam que mulheres negras, por exemplo, sofrem mais violência doméstica e obstétrica do que mulheres brancas. Não podemos ignorar estas estatísticas e precisamos, incansavelmente, reconhecer que mulheres são diferentes entre si e, em diversas situações, merecem políticas públicas específicas’’, acrescenta a professora.

*Foto da professora Roberta Lussac, acervo pessoal*

Diferentes perspectivas

O movimento feminista é dividido em 3 ‘’ondas’’:

A primeira onda ocorreu entre o fim do século XIX até meados do século XX e era basicamente as mulheres reivindicando por direitos que já estavam sendo debatidos e conquistados pelos homens há muito tempo. A sociedade à época era industrial, urbana, cientificista, acadêmica, positivista e economicamente liberal. Foi também no século XIX que surgiu o Socialismo, a luta pelos direitos dos operários, mas nada disso incluía as mulheres.

A segunda onda tem seu início em meados dos anos 50 e se estende até meados dos anos 90 do século XX. Surge também a vertente do ‘’feminismo radical’’, entre a década de 60 e 70. A segunda onda é  caracterizada também como a fase da luta pelos direitos reprodutivos e das discussões acerca da sexualidade. Questões de gênero também começam a ser debatidas.

A terceira onda: punk, interseccionalidade e pós modernidade

  Costuma-se associar essa onda ao surgimento dos movimentos punk femininos, cuja ideologia de gênero girava em torno da completa negação de corporativismos e era adepto do ‘’do it yourself’’(faça você mesmo). Essas mesmas garotas punk lançaram o termo riot grrrl (garota rebelde, em tradução livre) e introduziram a confecção e a estética dos zines ao feminismo, abordando temas como: estupro, patriarcado, sexualidade e empoderamento feminino.

  Em 1989, Kimberlé Creenshaw incorporou  à luta feminista o conceito de interseccionalidade enquanto ferramenta para que diferentes grupos que sofrem variados tipos de opressão(raça, classe, sexualidade) pudessem analisar sua situação. ‘’Eu queria criar uma metáfora cotidiana que qualquer pessoa pudesse usar’’

Outro grande foco da terceira onda foi se apropriar de termos misóginos e pejorativos. Como a palavra ‘’vadia’’ e seus sinônimos que são usados pelos homens para censurar e julgar mulheres que vivem como querem, e houve a tentativa de tentar uma ressignificação.

 

   A experiência de algumas garotas com o movimento Feminista e suas interpretações

    Para Thayanne Porto, jornalista  e fundadora do blog ‘’Que nem Mocinha’’, o feminismo deve englobar, entender e lutar por todas as mulheres.

*foto da Thayanne Porto, acervo pessoal

‘’Eu acho que eu sempre fui feminista, mas não sabia da palavra. Sempre achei um absurdo a diferença de salário, não poder fazer coisas por ‘ser menina’. Foi um processo de aprendizado que aconteceu principalmente na faculdade. Quando a gente abre os olhos para o machismo que existe no mundo, fica bem difícil ignorar. E por um lado, isso é péssimo, porque você passa a ter muita consciência das opressões que sofre enquanto mulher, principalmente das mais sutis, como a constante interrupção, mansplaining, etc. Por outro lado, quanto mais consciente você é, mais você consegue lutar contra esse sistema e tentar fazer com que nossos direitos sejam respeitados.’’

O nome do blog  é justamente uma crítica à frases que as meninas escutam desde pequenas como ‘’sente que nem uma mocinha’’, ‘’mocinhas não fazem isso’’, etc. As postagens são feitas no  facebookinstagram e no website.  As matérias falam sobre a sexualidade feminina e aborda temas que são considerados tabu.

A estudante de Jornalismo Paula Silva é uma feminista interseccional, e recentemente escreveu sobre a cantora norte americana Azealia Banks, que foi vítima de abuso sexual.

*foto da Paula* – 

‘’A intersecção é necessária, porque deve incluir todas as mulheres, principalmente as mulheres negras e trans. Sem sombra de dúvida, o feminismo me empoderou. Hoje, a palavra empoderamento anda um pouco distorcida, mas ainda continua sendo extremamente importante para mim. O feminismo fez com que eu pudesse me enxergar de uma maneira mais gentil e mais poderosa. Minha autoestima melhorou muito quando me dei conta de que posso ser uma mulher livre longe das amarras dos padrões de beleza. Resumidamente, o feminismo fez com que eu amadurecesse’’.

O texto sobre a cantora pode ser lido no link a seguir:  texto azealia banks 

‘’Eu sempre fui focada em desenhar e pintar mulheres, tanto que quando pinto quadros meu foco é sempre destacar a beleza do corpo feminino, em especial o corpo gordo, que é onde eu me encaixo e gosto de me ver representada’’, afirma a Ilustradora e estudante de Belas Artes da UFRJ, Fernanda Oliveira. Como feminista, ela gosta de retratar diferentes tipos de mulheres pois acredita na importância da representatividade.

O trabalho da Fernanda pode ser acompanhado no tumblr e no instagram  

*foto da Fernanda

‘’O grande feito do Feminismo na minha vida foi, primeiramente, me trazer a compreensão de que, de fato, a desigualdade entre os gêneros existe. Até me ser falado sobre, tampouco me dava conta de que existia. O feminismo me educou à ser mais cooperativa, à ver todas as mulheres como semelhantes e não rivais. Assim como tirou de mim a carga de preocupação excessiva e tortura psicológica quanto ao ideal que a sociedade projeta para uma menina e uma mulher’’, afirma a Gineterapeuta Giulia Amandit, que conheceu os ideais feministas na infância, através de sua mãe.

A  Gineterepaia é a arte de cuidar da mulher, e deriva dos vocábulos gregos ‘’gyne’’ que significa ‘’mulher’’ e ‘’therapeia’’ que significa cuidar, servir, tratar de. Faz parte do amplo mundo das terapias holísticas e coincide com essa abordagem. Giulia lidera grupos de mulheres em Curitiba, Paraná.

*foto Giulia, acervo pessoal

‘’Esse trabalho surgiu como maneira de suprir a solidão e desamparo feminino que percebia no meu círculo social. Chamamos os encontros de “Círculo de Mulheres” pois eles remetem à maneira ancestral, sentadas em círculo, com que as mulheres se reuniam para compartilhar saberes acerca do ciclo menstrual, concepção, parto, menopausa, experiências de vida, saberes medicinais. São encontros que favorecem e estimulam o autoconhecimento, o poder interno pessoal e a irmandade feminina. No Círculo de Mulheres não existe hierarquia, todas são iguais em um ambiente onde existe diversidade, inclusão e troca. Acreditamos que incentivadas e apoiadas, umas pelas outras, podemos melhorar nossa maneira de pensar e agir. Com isso, a cultura também se modifica e uma nova realidade se manifesta’’.


Mariana Bahia

(Reportagem para a disciplina Oficina Multimídia em Jornalismo

 

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