Em direção ao refúgio: conheça as histórias de sete refugiados que encontraram um lar no Brasil

Kimia, Salaam, La paix, Mbote e La paz. Todas essas palavras significam “paz”. Seja em lingala, árabe, francês, kikongo ou castelhano, idiomas e dialetos dos refugiados que frequentemente chegam ao Brasil, todos têm o direito legítimo de buscar a paz. De acordo com o Comitê Nacional para Refugiados (Conare), só em 2016, cerca de 9.552 refugiados, de 82 nacionalidades distintas, aportaram em território nacional.

​Conhecido pela diversidade social e liberdade de expressão, o Brasil vem se consolidando como destino de milhares de refugiados. Com o objetivo de acompanhar a convivência dos solicitantes de refúgio com o povo brasileiro e revelar momentos de superação, esta grande reportagem multimídia conta a história de sete personagens. Mazen Sahlie, J., Louise Berthe, Daniel Neves, Christine Kamba, Mara Soki Frederico e Armando Baro encontraram um lar no Brasil.

Taj Din: o brasileiro-sírio que acolhe refugiados da Síria

A partir de dados do documento emitido pelo Alto Comissariado das Organizações das Nações Unidas (ONU), o “Global Trends”, é possível perceber que é da Síria o segundo maior número de solicitações de refúgio no Brasil. Mais da metade da população da Síria viveu em deslocamento em 2016, chegando ao total de 5,5 milhões de refugiados. A maior parte desse aumento ocorreu entre 2012 e 2015, quando a guerra atingiu seu ápice. Porém, foi em 2011, seguido por um efeito dominó da Primavera Árabe, que começou o início de um conflito que duraria mais de seis anos.

​Para o empresário, Taj Din, 59 anos, que nasceu no Brasil e foi criado na Síria desde pequeno, as intervenções de potências bélicas como os Estados Unidos, que armaram a milícia curda, e a Rússia, que, por outro lado, enviou tropas para ajudar o governo, mostram que a guerra envolve interesses políticos. “É tudo comercial, é uma guerra 100% econômica. A Síria é um país localizado estrategicamente, ele conecta a toda Ásia pelo acesso ao mar mediterrâneo”, diz ele.

تاج الدين / Taj Din: "Refugiados são empreendedores natos, eles não gostam de trabalhar como empregados."

تاج الدين / Taj Din: “Refugiados são empreendedores natos, eles não gostam de trabalhar como empregados.”

​​Taj voltou ao Brasil, pela primeira vez, em 1980, quando já tinha 22 anos. Embora tenha estudado engenharia eletrônica, na Jordânia, escolheu trabalhar no ramo de restaurantes no Rio de Janeiro. No mesmo ano em que a guerra da Síria começou, abriu sua loja especializada em comida árabe e com as receitas da família. Aos poucos, o restaurante Camelo’s, na Tijuca, Zona Norte do Rio, se consolidou no mercado. “O brasileiro adotou a esfiha (esfirra), é um dos salgados que mais vendemos. Tudo que oferecemos em nosso restaurante é feito com receitas de família e com ingredientes árabes”, conta.

Além de fabricar os lanches que vende, Taj usou sua fábrica, também localizada na Tijuca, para acolher diversos refugiados que chegavam da Síria. “No andar de cima da fábrica, havia um salão imenso com cozinha e banheiro. Eu comprei camas, travesseiros e outros objetos para eles morarem lá”, revela. Taj conta que a maioria dos refugiados chegava sem dinheiro e sem saber falar português. “Alguns trabalharam comigo durante um ou dois meses, para aprender um pouco da língua e ganhar um salário, até dar tempo de receber os documentos necessários”. Hoje, a maioria dos refugiados que ele acolheu trabalha na rua, com comida árabe. “Refugiados são empreendedores natos, eles não gostam de trabalhar como empregados”, afirma. “Mas fico feliz por ter ajudado a tanta gente”, diz Taj, que já abrigou mais de 10 pessoas em todos esses anos – atualmente, dois moram na sua fábrica.

Ao voltar a falar sobre a guerra em seu país, Taj é bem crítico. “Se fosse uma guerra só do povo contra o governo, o presidente já teria sido deposto, porém, ainda continua lá”, afirma Taj. O exército do governo Sírio e seus aliados vêm progredindo na retomada dos territórios invadidos pelo Estado Islâmico, e vem se notando que muitos refugiados estão voltando para suas cidades, a fim de reconstruir a vida e ver o que restou. A guerra não chegou ao fim, mas talvez esse seja um momento de esperança, para aqueles que deixaram tudo para trás. Atualmente, os familiares e amigos de Taj, ainda moram na Síria. “O exército sírio é o filho da nação, quando eles recuperam as cidades, as pessoas voltam e fazem festas”, comenta.

​A Síria do povo deixa lembranças. Liberdade religiosa, segurança, direitos às mulheres – como estudar, ter emprego, dirigir carros e se vestirem de acordo com suas crenças – eleições livres, de acordo com a Constituição, e entre outros aspectos faziam da Síria um país em ascensão. “A última vez que estive lá foi em 2010. Havia muitos hospitais, escolas e faculdades públicas para toda população. A cidade era segura e se vivia muito bem”, relembra Taj Din do tempo que passou em Tartus, antes do conflito começar. Hoje, o Brasil é sua casa.

Bem-vindos à Cáritas / Boyeyi malamu na Cáritas / Bienvenue à Cáritas / مرحبا بكم في كاريتاس / Bienvenidos a Cáritas

Localizado no bairro Maracanã, a casa discreta, de portão azul, com muros grafitados e uma placa amarela que diz “Atendimento a refugiados e solicitantes de refúgio”, antiga e desgastada pela ação do tempo, dá as boas-vindas a milhares de histórias vivas que cruzam pela entrada, diariamente. Mas que uma instituição social, eles são a primeira casa para os refugiados e famílias que chegam ao Rio de Janeiro, usualmente sem nada, apenas com as roupas no corpo e um coração pulsando por solidariedade. O Programa de Atendimento aos Refugiados (PARES), de acordo com a Cáritas, tem o objetivo de promover o acolhimento, assegurar os direitos dos refugiados e criar condições para que eles possam reconstruir a vida de forma digna.

Além do programa, há algumas ações e projetos envolvidos (Você pode ser a mudança na vida de um refugiado. Saiba como apoiar). Para tudo isso ser colocado em prática, profissionais, voluntários e apoiadores são indispensáveis para o programa realmente mudar tantas vidas. O trabalho profissional somado ao papel social que eles exercem, é a chave para lidar com tantas diferenças de idiomas, culturas e personalidades. A assistente social, Giuliane Gomes, 32 anos, apelidada pelos colegas de trabalho por Giu, é a responsável pela integração local do solicitante de refúgio, realizando o primeiro atendimento direto, visando responder as necessidades mais importantes. “Muitos não têm onde ficar, a questão do abrigamento é crucial, outros têm família ou amigos para ajudar. Em último caso encaminhamos para abrigo da Prefeitura ou redes de apoio”, explica. O primeiro contato é sempre difícil, pois são muitas informações que precisam ser averiguadas e repassadas aos refugiados.

Cáritas / Acervo público

Reconstruindo sonhos e um “lar doce lar”. Foto: Cáritas / Acervo público

​Há um ano e meio trabalhando na Cáritas, Giu tem que lidar com o lado profissional e os laços afetivos que os refugiados acabam criando. Para ela, é uma responsabilidade ser considerada “família” por eles, pois gostaria de poder fazer muito mais. “Eles têm tanta consideração pela gente, é recompensador”, afirma. Ela explica que há dois movimentos de refugiados, aqueles que após o processo de integração só voltam depois de meses, às vezes para tomar um café e dizer que estão bem, ou não. E aqueles que são recentes, aparecem quase todos os dias, para participar de todas as atividades, frequentar o curso de idioma, duas vezes na semana, perguntar sobre vagas de trabalho, e entre outros tipos de demanda. “A gente sabe que quando eles “somem” é porque estão bem, e que, quando precisam, mesmo depois de um tempo, ainda tem a gente como um ponto de referência”, conta.

Cinco países se destacam com maior número de solicitações reconhecidas, entre eles estão a Síria, República Democrática do Congo, Paquistão, Palestina e Angola. Já na América Latina, a Venezuela e a Cuba, se destacam com o aumento de deferimentos das solicitações. Em 2016, houve um aumento de 12% no número total de refugiados reconhecidos no país.

Atualmente 7.405 refugiados e solicitantes de refúgio moram no Rio de Janeiro. De junho a setembro, foram contabilizadas cerca de 212 novas entradas de refugiados na cidade, de acordo com a Cáritas. Em média, o setor de proteção legal atende até 25 pessoas por dia, contabilizando cerca de 80 atendimentos por semana.

Diante dessa crise humanitária, o trabalho social segue sendo essencial e prova que conviver – viver em paz – é uma condição que depende da nossa capacidade de viver, mutuamente, em solidariedade e cooperação. O melhor caminho sempre será com investimentos sociais, que visam a integração das pessoas, para o bem estar da sociedade.


Vitória Benício – 8º período. Esta reportagem faz parte do trabalho de conclusão de curso  “Em direção ao refúgio” (acesse a íntegra da reportagem) em Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida – Campus Tijuca.

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Em direção ao refúgio: Mazen Sahlie, o jovem sírio que fugiu da guerra

مازن ساهل/ Mazen Sahlie: "A minha cidade é pequena, todo mundo se conhece."

مازن ساهل/ Mazen Sahlie: “A minha cidade é pequena, todo mundo se conhece.”

Como toda guerra, marcas são deixadas nas ruas e construções das cidades, e além da falta de luz, água e comida, muitos jovens acabam sendo obrigados a servir no Exército. É o caso do refugiado Mazen Sahlie, 22 anos. Ao perder alguns dos seus amigos para a guerra, decidiu fugir da Síria para o Brasil e construir uma vida em que pudesse tomar suas próprias decisões. Tomado pelo orgulho de sua pátria, trouxe consigo um pouco da sua cultura e na culinária árabe encontrou uma forma para recomeçar.

​Nascido em Tartus, o segundo maior porto do litoral sírio, Mazen fugiu da sua terra natal, com 20 anos. “Minha cidade teve algumas complicações por causa da guerra, mas foi pior em Alepo. Também cheguei a ver muitas construções destruídas em Damasco, capital da Síria. Por isso, fui embora”, relembra. De acordo com o Observatório Sírio, em 2016, a cidade de Mazen sofreu três atentados, porém, o ataque mais violento ocorreu em uma ponte, onde havia diversos carros e ônibus.

Sozinho, em um país desconhecido, sem saber falar português, longe da família e com apenas alguns pertences trazidos de casa, ele foi um dos refugiados acolhidos pelo empresário Taj Din. “Eu trabalhava muito no restaurante dele e ganhava um salário. Depois, resolvi ter meu próprio negócio”, explica. Durante o tempo em que esteve no Camelo’s, ele conseguiu emitir os documentos indicados pelo o Comitê Nacional para Refugiados (Conare), no que garantem ao refugiado acesso à justiça, educação, saúde, condição de igualdade, direito à vida, liberdade e segurança. Mazen segue trabalhando e sendo dono do seu próprio futuro, dessa vez, sem guerra e violência.

 

Em direção ao refúgio: conheça as histórias de sete refugiados que encontraram um lar no Brasil

 


Vitória Benício – 8º período. Esta reportagem faz parte do trabalho de conclusão de curso  “Em direção ao refúgio” (acesse a íntegra) em Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida – Campus Tijuca.

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Em direção ao refúgio: J., no rastro da milícia colombiana

Os refugiados são trabalhadores assíduos, produtivos, criativos e carregam consigo sua cultura e têm orgulho disso. Eles chegam com um ideal para reconstruir suas vidas e acabam contribuindo culturalmente e economicamente para o país. O cientista político e professor do departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Maurício Santoro explica que há um perfil relativamente comum entre os refugiados que costumam chegar até o Brasil. A maioria se mostra intelectual, artística, empreendedora e acadêmica.

​​Com o potencial de criar negócios, os refugiados conseguem montar suas próprias empresas. No Rio de Janeiro, por exemplo, é possível perceber um grande aumento de refugiados empreendedores no ramo culinário. Aqui é possível experimentar comida árabe ou africana, feita por sírios, congoleses ou nigerianos. Isso também ocorre em outros setores, como a música e a costura. Em termos de ganhos culturais, ao trazerem os estilos de outros países, a sociedade brasileira cada vez mais vem se renovando. “Abrir o Brasil para refugiados significa não só uma questão humanitária de ajudar pessoas que estão precisando, mas também trazer benefícios para o país, algo que é de interesse direto da própria comunidade”, diz Maurício.

Há sete meses morando no Rio de Janeiro, a refugiada J., 28 anos, veio de Bogotá, capital da Colômbia, e para esta reportagem preferiu não se identificar. Sem saber falar português, buscou ajuda no Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio (PARES), da ONG Cáritas. Atualmente, ela e o marido trabalham na praia vendendo cordões e pulseiras. Porém, ambos estão na espera por um emprego fixo. “Eu sou empresária, tenho ensino superior e pós-graduação”, revela J. Além de já ter trabalhado na Colômbia como engenheira de sistemas, ela conta que possuía uma empresa de telecomunicações e tinha projetos de instalação de telefonia móvel. “Nosso contrato com uma empresa privada colombiana girava era em torno de 80 mil pesos (cerca de R$ 85 mil) e lá, empresários sofrem com extorsão”, explica ela.

J.: "Sou empresária e líder; pode ser difícil, mas vamos seguir adiante."​

J.: “Sou empresária e líder; pode ser difícil, mas vamos seguir adiante.”​

​Depois de vender o carro, o apartamento e móveis para pagar a extorsão, J. ficou sem dinheiro e seu marido passou a receber ameaças de morte. “Eu tinha que pagar o equivalente a R$ 5 mil reais, por semana”. Para fugir da milícia urbana, ela e sua família pegaram um barco pelo rio Amazonas, para não deixar rastros e conseguir chegar até o Brasil. “Foi difícil, eu fiquei preocupada com meus filhos pequenos, pois podiam ficar doentes por conta do clima, da falta de higiene do barco e pela lotação, era muita gente dormindo amontoada. Foram oito dias de viagem”, conta. Desde que chegou ao Rio de Janeiro, J. procurou não entrar em contato com o restante da família na Colômbia, para que ela e o marido não fossem reconhecidos.

​Apesar da dificuldade, a colombiana só quer encontrar estabilidade emocional, segurança e um bom lugar para reconstruir a vida. “Eu tenho vários projetos e espero conseguir montar um negócio. Sou empresária e líder, pode ser difícil, mas vamos seguir adiante”, diz ela.

Trabalhar na praia foi uma opção temporária para sustentar a família, o verdadeiro sonho de J. é abrir uma empresa. De início, pretende abrir uma barraca na praia para oferecer comida colombiana aos turistas, porém, mais adiante, quer ter seu próprio restaurante e assim manter contato com estrangeiros que falem espanhol. “É muito difícil trabalhar na praia. Eu tenho estudo e tinha outro tipo de trabalho. Mas eu prefiro ter minha família completa e segura do que viver uma tragédia”, afirma ela.

Devido à grande demanda de refugiados empreendedores, o PARES Cáritas, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), criou um grupo de costura e outro de gastronomia, para os refugiados trabalharem em eventos, feiras e criar seus próprios negócios. Esse projeto visa incentivá-los e elaborar um meio que possa compor a renda dessas famílias e ao mesmo tempo, realizar inúmeros sonhos.

Em direção ao refúgio: conheça as histórias de sete refugiados que encontraram um lar no Brasil


Vitória Benício – 8º período. Esta reportagem faz parte do trabalho de conclusão de curso  “Em direção ao refúgio” (acesse a íntegra) em Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida – Campus Tijuca.

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Em direção ao refúgio: Louise Berthe, minha família Togolesa

Louise Berthe: "Sinto saudades deles (família), se eles estivessem aqui meu coração estaria mais livre. Mas não posso voltar." Foto: Cáritas / Arquivo público

Louise Berthe: “Sinto saudades deles (família), se eles estivessem aqui meu coração estaria mais livre. Mas não posso voltar.” Foto: Cáritas / Arquivo público

A refugiada J. não é a única que tem planos para abrir um restaurante, a togolesa Louise Berthe, 53 anos, também compartilha esse mesmo desejo. “Eu gosto muito de cozinhar e tenho o sonho de abrir um restaurante para fazer comida africana. As comidas que eu faço são togolesas e camaronesas”, diz. Pequena, Louise aprendeu a cozinhar com sua avó e não deixou seu sonho para trás. Hoje em dia, trabalha na feira social “Chega Junto”, que reúne diversos refugiados cozinheiros de comidas típicas de seus respectivos países. Além de empregar, a feira promove uma experiência cultural, visando à integração deles na sociedade.​

A relação entre a África e o Brasil é bem antiga, vem dos tempos coloniais. Eles ajudaram a criar a culinária brasileira, e receitas como a tradicional feijoada e o “cozido”, preparado com cenoura, batata, abóbora e carne, são verdadeiras heranças gastronômicas africanas. Sem falar no azeite de dendê, leite de coco, banana da terra e outras iguarias também originárias da África. “A comida brasileira é parecida com a togolesa. A gente come acaçá, pirão, farinha com feijão, acarajé, a típica tapioca com coco ralado e churrasco. São os mesmos ingredientes, mas no estilo africano”, explica Louise.

​A cultura brasileira é o resultado da mistura de tradições indígenas, europeias e africanas. Essa diversidade, de certa forma, faz os refugiados se sentirem bem recebidos. “Tem muitos refugiados que acabam se encantando pelo Brasil, pela própria diversidade cultural e étnica. Eles também elogiam muito a capacidade de acolhimento do povo brasileiro. E, embora também façam críticas, a maioria destaca que os aspectos bons se sobrepõem que os ruins”, explica o cientista político, Maurício Santoro. Há quatro anos no Brasil, Louise, já se vê como uma brasileira e diz com orgulho, “Eu quero naturalização”.

Porém, bem antes de se quer imaginar que um dia seria tão feliz no Brasil, precisou enfrentar a ditadura, a discriminação, a imposição e violações aos direitos da mulher.  “Sai de Lomé, capital do Togo, para um lugar em que fosse livre. No meu país, se você for contra a família e o marido, ele pode bater em você e te expulsar de casa. Lá a mulher não é livre”, afirma ela. Mãe de três filhos e casada com Aliim, veio embora sozinha, com o sonho de preparar um lugar aqui, para recebê-los. “Sinto saudades deles, se eles estivessem aqui meu coração estaria mais livre. Mas não posso voltar”, reflete.

​Por um tempo, ela e o marido tentaram levar a vida que eles queriam, mas a influência da família tradicional, cada vez mais, se tornou insuportável. “Um dia estava lavando a roupa dos meus filhos, meu marido chegou para me ajudar, e colocou as roupas para secar. Suas irmãs viram e disseram que não podia”, explica Louise, referindo-se ao machismo praticado em seu país de origem. Além das restrições, a família de Aliim, também não aceitava o casamento e depois que Louise foi embora ele foi forçado, pela família, a casar de novo. “A irmã do meu marido mexia nas minhas coisas, batia o portão, me insultava, na minha própria casa e eu não podia fazer nada”, conta.

​​O Togo é composto por uma variedade de povos, e ainda há muitas famílias com costumes, que para nós, brasileiros, são arcaicos. Louise não aceitava a forma como eles queriam que ela vivesse, fazendo trabalhos domésticos, cuidando dos filhos e obedecendo às ordens, sem poder tomar suas próprias decisões. “Para fazer faculdade, estudar e trabalhar eu dependia da família. Tem família que não aceita. Lá eu não tive tempo de estudar, eu estava sozinha, trabalhava, ia ao mercado, cuidava da casa, filhos e marido. Eu fazia tudo”, revela.

​Louise veio para o Brasil por intermédio de uma amiga togolesa, que conhecia algumas pessoas no Rio de Janeiro. Inicialmente, pretendia ficar apenas seis meses, mas quando chegou aqui disseram para ela ficar e reconstruir sua vida. Depois de ter sido acolhida por uma família brasileira, foi morar em uma igreja. Atualmente, vive em uma casa alugada, em Brás de Pina, na Zona Norte do Rio. “Eu não sinto falta do Togo. Não quero voltar. Sou feliz aqui”, afirma Louise.

Em direção ao refúgio: conheça as histórias de sete refugiados que encontraram um lar no Brasil


Vitória Benício – 8º período. Esta reportagem faz parte do trabalho de conclusão de curso  “Em direção ao refúgio” (acesse a íntegra) em Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida – Campus Tijuca.

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Em direção ao refúgio: Daniel Neves e a fé que pode custar a vida

Daniel Neves: "Ser um refugiado é ser vitorioso. Passamos por uma dificuldade a ponto de colocar nossas vidas em risco, saímos do nosso país para um lugar que também não sabemos o que poderia acontecer."​

Daniel Neves: “Ser um refugiado é ser vitorioso. Passamos por uma dificuldade a ponto de colocar nossas vidas em risco.”​

Ter fé é a certeza de algo que ninguém pode ver, mas sentir, existir. Essa convicção pode ser considerada uma arma poderosa, podendo ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Independente da religião ou filosofia, o poder da crença dá propósito à vida. Porém, quando utilizada de forma negativa, pode resultar em violência, perseguição, intolerância e preconceito. O refugiado Daniel Neves, 22 anos, nasceu em Luanda, capital da Angola, e sofria perseguição religiosa, por seguir o Tocoísmo, nome dado aos seguidores do profeta angolano Simão Toco. “Eu fugi, pois, não achei certo o presidente e a lei serem contra a religião que eu seguia”, afirma.

​Um dos maiores movimentos cristãos em Angola, essa doutrina religiosa é fundamentada pelos ensinamentos de Jesus Cristo e da Bíblia, sendo considerada uma vertente do cristianismo. De acordo com a Ajuda à Igreja Que Sofre (ACN), 33.7% da população angolana são protestantes, e 59.1% são católicas, formando assim a religião com mais seguidores no país. “Igrejas como a Mundial, Católica, Maná e entre outras, ficaram contra, e queriam eliminar os seguidores da minha religião”, afirma ele. Com o aumento da intolerância religiosa, Daniel passou a temer que algo pudesse acontecer. “Estavam matando as pessoas. Pedimos ajuda ao Governo, porém não adiantou. Eu tive que sair do meu país de origem para procurar a paz”, conta.

A primeira oportunidade que surgiu para sair de Angola foi justamente para se refugiar no Brasil. Daniel conta que precisou sair da capital e se esconder em M’Banza Kongo, uma cidade no interior do país. “Eu pedi ajuda para meus familiares, inclusive meu vizinho pagou minha passagem de avião e conseguiu um visto para mim, mas não fui pegar os documentos, pois tinha medo de sair”, relembra.

Há dois anos no Brasil, além de trabalhar, Daniel está se preparando para realizar um sonho: estudar engenharia mecânica. “Eu estou fazendo pré-vestibular na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e esse ano vou fazer o Enem. Primeiro eu procurei salvar minha vida e depois fui atrás dos meus objetivos. Meu sonho não morreu”, revela. Outro sonho de Daniel é estar legalizado no país, pois, até hoje, sua solicitação de refúgio não foi aceita, embora tenha CPF e o protocolo da Polícia Federal. “Ser um refugiado é ser vitorioso. Passamos por uma dificuldade a ponto de colocar nossas vidas em risco, saímos do nosso país para um lugar que também não sabemos o que poderia acontecer”, afirma.

Em direção ao refúgio: conheça as histórias de sete refugiados que encontraram um lar no Brasil


Vitória Benício – 8º período. Esta reportagem faz parte do trabalho de conclusão de curso  “Em direção ao refúgio” (acesse a íntegra) em Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida – Campus Tijuca.

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Em direção ao refúgio: Christine Kamba, uma canção para esquecer

Christine Kamba: "A música me ajudou a sair do buraco. Tinha pensamentos sobre a guerra, a violência e o estupro. Ela me ajudou a esquecer o passado. Hoje não consigo viver sem cantar." Foto: Arquivo pessoal

Christine Kamba: “A música me ajudou a sair do buraco. Ela me ajudou a esquecer o passado.” Foto: Arquivo pessoal

“Algo especial estava dentro de mim, desde a infância eu não deixava ninguém me impor nada”, diz a congolesa Christine Kamba, 27 anos, sobre o casamento infantil, um dos costumes mais tradicionais da sua província, Bandundu, na República Democrática do Congo. Além de ser forçado, muitas vezes pelos próprios pais, esse tipo de casamento é proibido pelo governo e por isso, foram criadas leis que vão contra a essa prática cultural. “Lá na minha cidade tem lei, mas a gente não pratica. Eu tive que me casar com um dos meus primos. Os pais fazem isso para receber os dotes e quando a menina atinge 12 anos, é levada para a casa do marido”, conta.

​De acordo com o relatório “Perfil do Casamento da Infância na África”, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), cerca de 125 milhões de meninas se casaram antes dos 18 anos na África. Christine, porém, não entrou nessa estatística, pois pediu ajuda da sua mãe para fugir de casa. “Minha mãe me deixou na casa de uma irmã mais velha em uma cidade vizinha. Desde então, nunca mais nos vimos e se não fosse por ela, eu não estaria viva”, relembra. Sem poder voltar para casa ou ver sua mãe, Christine foi criada por uma tia até os 17 anos, quando decidiu se casar e construir uma vida ao lado do seu marido.

​A história da República Democrática do Congo não é marcada apenas por tradições culturais arcaicas, mas pela guerra civil que desestabilizou o país, resultando na pobreza e na violência impulsionada por grupos rebeldes. Os dados do “Global Trends”, documento emitido pela ONU, revela que 2,9 milhões de congoleses foram forçados a sair do país em busca de refúgio. “Eu comecei a viver a guerra com sete anos, em 1997, quando o presidente Mobutu Sese morreu”, afirma ela. Durante muito tempo convivendo com a guerra, quando as filhas de Christine nasceram, ela decidiu fugir para um país vizinho. “Na minha cidade havia muita guerra e eu precisava ir embora. Nessa mesma época os rebeldes estavam saindo de Uganda para atacar o Congo. Eu só tive uma oportunidade para ir embora”, explica.

Ao chegar em Kampala, capital da Uganda, conseguiu passagens para o Rio de Janeiro e não pensou duas vezes. “Eu não podia ficar fugindo de cidade em cidade com minhas filhas. E também não queria arriscar ir para a França, pois, muitas crianças morrem nos barcos de travessia. Então preferi vir para o Brasil” conta ela.

​​A famosa receptividade e solidariedade do povo brasileiro já tinham chegado ao seus ouvidos, e esse foi um dos fatores decisivos para tomar a decisão de pegar o avião e aterrissar em um país totalmente desconhecido. “Tivemos que esquecer tudo. Esquecer quem éramos, esquecer-se da casa, dos bens que conquistamos, dos amigos, da rotina, da vida no Congo. Para seguir em frente é preciso esquecer”, ressalta Christine.

Ela chegou ao Brasil, em 2015. Estava grávida de dois meses e foi acolhida pela refugiada Ester, junto com seus três filhos. Seu marido ficou trabalhando no Congo, e só depois de um ano e oito meses, eles se reencontraram no Rio de Janeiro. “Só tinha um pouquinho de dinheiro quando finalmente consegui chegar ao Brasil. A dona da casa descobriu que Ester tinha deixado minha família passar um tempo lá, e obrigou a gente sair. Foi difícil, mas depois acabei indo para a Cáritas”, conta.

​Iniciativas como a da ONG Cáritas dão apoio aos refugiados, desde ajudar na alimentação até o requerimento de documentos. Ajuda financeira, no entanto, é precária. “O governo deveria tentar ajudar a gente. Até para conseguir documentação. Eu vou fazer dois anos e nunca fui chamada no Conare (que libera a documentação), a sede aqui no Rio até fechou. Eu não sei como vai ser”, diz ela.

​Processos como o de Christine costumam demorar até dois anos ou mais para que o cidadão estrangeiro seja reconhecido legalmente no país, o que acaba atrapalhando o refugiado a reconstruir sua vida. “Há uma fragilidade na acolhida governamental dessas pessoas. Elas dependem muito das ações individuais da caridade privada. Hoje em dia, o Conare tem uma dúzia de funcionários para analisar milhares de pedidos de refúgio. Então, as análises demoram alguns anos para sair”, explica o cientista político Maurício Santoro.

Um dos motivos para querer os documentos é para ter a possibilidade de convidar sua mãe para vir até o Brasil. Há treze anos sem vê-la, Christine sonha com esse dia. “Eu quero que ela veja como a filha cresceu. Como eu consegui ter tantos filhos, sem apoio e sem família. Ela ficaria muito orgulhosa”, diz, emocionando-se. As duas conversam todos os dias por telefone, desde que conseguiram se falar pelo Facebook. “Uma vez falei para minha mãe ligar a câmera do Skype, mas ela não quis. Disse que preferia ouvir minha voz, do que me ver pela tela de um computador, pois um dia quer poder me ver pessoalmente.”, conta.

​Christine não pode voltar ao Congo, e a saudade que sente da mãe, permanece no anseio por um reencontro. “Não posso voltar agora. Fui estuprada por um policial que está no comando até hoje”, revela ela. Ao passar por várias etapas de vida, esse momento ainda é delicado, pois, esse é um trauma difícil de esquecer. “O que aconteceu comigo ficou no “sangue”, descreve. Na tentativa de superar a dor, ela buscou nas canções um caminho para vencer. “A música me ajudou a sair do buraco. Tinha pensamentos sobre a guerra, a violência e o estupro. Ela me ajudou a esquecer o passado. Hoje não consigo viver sem cantar”, afirma.

​A música entrou na sua vida, inicialmente, como uma solução para acabar com a gagueira. “Eu cantava muito subindo as montanhas, com o tempo a gagueira passou, mas a música ficou dentro de mim”, conta Christine, que, aos cinco anos de idade começou a cantar nas igrejas e comemorações. “Embora não cantasse boas notas, era o meu sonho, então não desisti e continuei persistindo”. Atualmente, a congolesa é cantora gospel, trabalha com uma banda que canta músicas da sua cultura e faz aulas de canto. “As músicas daqui são mais clássicas, estou tentando me aperfeiçoar. Lá no meu país eu não tive essa oportunidade como estou tendo aqui”, relata.

 

Ser cantora é tudo para Christine, e a música é o motivo de sua fé. “A música me levou a ser cristã. Jesus ajuda na alma e a melodia também”, afirma. Recentemente, teve a oportunidade de cantar no programa da jornalista Fátima Bernardes, nos estúdios da TV Globo e testemunhar sua fé por meio de uma canção brasileira. A música não tem divisas, não precisa ser traduzida, basta apenas ser sentida. Além de unir culturas, ela é um meio para promover a espiritualidade, seja qual for a denominação religiosa.

Em direção ao refúgio: conheça as histórias de sete refugiados que encontraram um lar no Brasil


Vitória Benício – 8º período. Esta reportagem faz parte do trabalho de conclusão de curso  “Em direção ao refúgio” (acesse a íntegra) em Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida – Campus Tijuca.

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Em direção ao refúgio: Mara Soki Frederico, representatividade trans

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Mara Soki: “Ninguém me obrigou a ser desse jeito. Eu nasci, cresci e vou morrer assim.”

Negra, transgênero, mulher, cabeleireira e refugiada. Essa é a angolana Mara Soki, 38 anos. Para muitos pode ser difícil entender, mas é simples assim. É quem ela é. Atualmente, milhares de pessoas enfrentam violência e discriminação, apenas por ser quem são. Há quatro anos no Rio de Janeiro, Mara já sofreu alguns casos de preconceito, mas nenhum se compara à intolerância que sofria em Luanda, capital da Angola. “É muito difícil para a sociedade africana aceitar minha escolha de identidade, tive muitos problemas e por isso precisei ir embora”, conta.

​A descoberta de Mara sobre sua identidade de gênero começou cedo. Ainda na infância ela já se sentia diferente, o que não foi nenhuma surpresa para família. “Sempre mostrei quem eu era, todo mundo já me conhecia assim, então não era algo estranho”, afirma. Se por um lado ela tinha a aceitação da família, por outro era fortemente reprimida pela sociedade. A homofobia ocorre de diversas formas, desde comentários ofensivos e xingamentos, até atos de violência física. “As outras famílias não entendiam que isso é natural, a gente nasce assim”. Na Angola, a cultura é um pouco fechada, muita gente me chamava de “bruxa” e me olhava de “cara feia”, relata Mara.

​Já no Brasil, ela descreve que se sentiu abraçada pela diversidade, além de ser bem acolhida, sempre foi respeitada. “Agora eu sou carioca. Todas minhas amigas me deram força para continuar aqui”, diz. Entretanto, de acordo com o Disque 100, só em 2016, foram realizadas 1.876 denúncias de violações dos direitos humanos contra a comunidade LGBT. Comparando os números com a vida real, a sociedade brasileira ainda tem um longo caminho a percorrer na luta contra esse tipo de preconceito.

Atualmente, Mara está passando por um processo de reconhecimento e transformações no corpo. Ela nasceu em um corpo masculino, mas sempre se identificou com o universo feminino, e por isso, decidiu fazer tratamento hormonal, para se sentir bem com sua aparência física, e se prepara para uma cirurgia de implante de seios. “É meu sonho. Eu quero mudar. Meus seios são resultado do hormônio, então quero colocar um seio maior”, revela, ela que tem como sonho fazer uma cirurgia definitiva de mudança de órgão sexual.

​“As pessoas que estão cheias de preconceito não conseguem entender o que nós queremos e o que gostamos. Ninguém me obrigou a ser desse jeito. Eu nasci, cresci e vou morrer assim”, afirma. Para conseguir fazer a cirurgia, Mara vai recorrer ao Sistema Único de Saúde (SUS), que já está realizando esse tipo de procedimento. “Eu não tenho condições de pagar uma cirurgia, mas não se trata só de estética”, conta.

​A agente de proteção legal da Cáritas, Aryadne Waldely, explica que a ONG tem uma abertura para encaminhar casos cirúrgicos para o SUS. “A gente tem as parcerias com hospitais, centros de saúde, com trabalhos especialmente em medicina social, que nos ajudam a dar um melhor atendimento a esses refugiados”, explica.

Mesmo diante da aparência, o não uso do nome social pode gerar situações difíceis. E por isso, Mara abriu um processo para mudar de nome juridicamente. Muitos transgêneros escolhem nomes sociais diferentes daqueles que estão na certidão, é uma forma para que se sintam completos. “A mudança de nome, no âmbito jurídico, vai ser mais difícil, especialmente no caso dela que ainda não teve reconhecimento pelo governo. Esse caso vai entrar numa demora que já acontece para os brasileiros e é acrescida pela condição provisória que ela se encontra”, explica Aryadne. Apesar disso, a agente acredita que se tiver paciência, Mara conseguirá sua documentação com o tempo.

Mara conta que tem o desejo de ser mãe e no futuro, depois que passar por esses procedimentos, se estiver com a vida mais organizada, irá adotar uma criança. “Eu quero adotar uma ou duas meninas. Penso nisso desde criança. Se tivesse condições seria agora, mas estou me preparando para isso”, revela. Seja brasileira ou angolana, ela não tem preferência e nem distinção, ama crianças e sabe que será uma boa mãe, independente da sua escolha de gênero. “Na minha vida eu escolhi não me esconder, as pessoas têm que se aceitar”, ressalta.

Em direção ao refúgio: conheça as histórias de sete refugiados que encontraram um lar no Brasil

 


Vitória Benício – 8º período. Esta reportagem faz parte do trabalho de conclusão de curso  “Em direção ao refúgio” (acesse a íntegra) em Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida – Campus Tijuca.

Leia também: Crítica do filme ‘Human flow – não existe lar se não há para onde ir’

 

Em direção ao refúgio: Armando Baro, na luta pela democracia

Armando Baro: "Tenho fé de que aqui encontrei um lar."

Armando Baro: “Tenho fé de que aqui encontrei um lar.”

A palavra democracia é originária do grego e significa “governo do povo”. Uma das formas de exercer essa função é engajar-se em movimentos sociais, votar nas eleições diretas e participar ativamente na sociedade. Só assim o governo e as demais autoridades conseguem ter um retorno da opinião pública. A partir do momento em que a liberdade de expressão é reprimida, a sociedade entra em um processo de retrocesso, colidindo com o bem-estar da população. É o que podemos chamar de “estado de emergência”.

​Esse é o atual cenário da Venezuela. Herdeiro do chavismo, o atual presidente, Nicolás Maduro, tem conduzido o país a uma verdadeira crise humanitária. De acordo com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), só em 2017, mais de 52 mil residentes venezuelanos solicitaram refúgio em países estrangeiros. Esse é o caso de Armando Baro, 37 anos, que chegou ao Brasil há dois meses. Acompanhado da esposa e de uma filha, de três anos, Armando e sua família vieram para o país na tentativa de reconstruir uma vida longe da represália do governo de Maduro. “Eu vim de Caracas, capital da Venezuela. E escolhi o Brasil por ser um país vizinho”, diz ele.

Além da crise econômica e política, o país está enfrentando escassez de alimentos nos supermercados, fracionamento de energia elétrica, falta de remédios e violência urbana, como torturas, desaparecimentos, assassinatos de manifestantes e presos políticos. “O PIB venezuelano caiu quase 20% no ano passado e isso é uma catástrofe. O desemprego aumentou muito. O problema da falta de comida que está afetando mais da metade da população está deixando as pessoas sem os gêneros básicos de alimentação, e há menos que se tenha muito dinheiro para comprar comida no mercado clandestino, as pessoas estão passando fome”, afirma Mauricio Santoro, professor de relações internacionais da Uerj.

​Armando e sua família fugiram do autoritarismo, que promove a insegurança à população. “Pedi ajuda para fugir da política e dos conflitos. Está havendo muita repressão para as pessoas que não apoiam a presidência. Eles não respeitam a democracia e a liberdade”, relata. O venezuelano conta que, durante uma passeata, presenciou a morte de um jovem que estava protestando contra o governo. “Aquilo me assustou e deu medo. Podia ter sido eu ou minha esposa ou qualquer outro conhecido. Na hora das manifestações, não há garantias de segurança”, relata. Para Armando, a democracia ocorre quando o direito de concordar ou não com a política é respeitado. De fato, ele não concorda e, por isso, saiu do país. “Eu venho em buscar de democracia e liberdade”, ressalta.

​O Brasil é um dos principais países que tem recebido refugiados da Venezuela, só em 2016, houve um aumento de 307% de solicitações de refúgio, de acordo com o “Global Trends”, da ONU. “As pessoas não precisam ser necessariamente perseguidas politicamente pelo governo, para se refugiar. As condições de vida na Venezuela somam uma série de violações dos direitos humanos, e por isso, muitos deles estão chegando como refugiados”, explica Maurício.

“Graças a Deus a política de refugiados do Brasil é muito boa, aqui nos ajudam, arrumam carteira de trabalho, protocolo de refúgio, currículo e entre outros”, diz Armando. Sem saber falar português, ele começou a fazer aulas de idioma, para então, conseguir um emprego na sua área de atuação, a informática. “Eu quero trabalhar no que eu sei fazer muito bem. Porém, agora aceitarei o que conseguir. Não quero ficar sem trabalhar, isso que importa”, explica.

​Mesmo sentindo falta de ir à casa de amigos em um domingo, comer comidas típicas venezuelanas e ouvir músicas de lá, ele ainda está no processo de readaptação. “Estamos como refugiados em um país que não é nosso, precisamos nos acostumar”, mas ressalta que no ponto de vista da relação interpessoal, os brasileiros são um povo afetuoso. “Mesmo que eu aprenda português, na minha casa falaremos espanhol. Eu quero que minha filha aprenda os dois idiomas, porque espanhol faz parte da sua vida, sua cultura, sua raiz”, diz ele. A sua cultura sempre fará parte da sua vida, porém, aqui Armando tem a certeza, de que encontrou uma possibilidade de viver, e afirma: “Tenho fé que aqui encontrei um lar”.

Em direção ao refúgio: conheça as histórias de sete refugiados que encontraram um lar no Brasil

 


Vitória Benício – 8º período. Esta reportagem faz parte do trabalho de conclusão de curso  “Em direção ao refúgio” (acesse a íntegra) em Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida – Campus Tijuca.

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Do mundo mágico à realidade: Disney encanta e transforma a vida de brasileiros

Personagens como Pato Donald, Minnie, Mickey, Pluto e Pateta compõem a própria realidade de magia e encantamento. Foto: Yasmin Thomaz

Personagens como Pato Donald, Minnie, Mickey, Pluto e Pateta compõem a própria realidade de magia e encantamento. Foto: Yasmin Thomaz

O maravilhoso mundo da Disney tem conquistado milhares de pessoas, ultrapassando fronteiras e oceanos ao longo das nove décadas desde que foi criado. Histórias, personagens, parques. Cada vez mais, o universo criado por Walt Disney aumenta seu alcance e inúmeras vidas são influenciadas por essa magia em todo o mundo, inclusive no Brasil, seja na realização do sonho de ir à Disney, na escolha do parque como cenário de casamentos, na eleição da profissão, nas relações interpessoais e até nos valores morais passados por seus filmes. Crianças e – por que não dizer – adultos se encantam com as princesas e heróis. Uma delas é a personagem do primeiro longa-metragem animado da história: a princesa Branca de Neve, que comemora 80 anos em 2017. Até mesmo o Brasil tem seu representante: Zé Carioca, o papagaio que acaba de completar 75 anos e inseriu o Rio de Janeiro no universo encantado.

Os brasileiros invadem a Disney todos os anos em busca deste encanto. O Departamento de Comércio dos Estados Unidos confirma: em 2014, 768 mil brasileiros visitaram a terra do Mickey. Orlando foi eleito como o destino preferido, chegando a 1,2 milhão de brasileiros na Flórida inteira. Isso gerou a circulação de mais de 25,6 bilhões de dólares na economia americana. Este ano, a quantidade de turistas brasileiros que visitaram os parques aumentou e tudo indica que esse crescimento será contínuo, mesmo com a crise econômica (Os quatro parques temáticos do Walt Disney World). Na América Latina, o Brasil tem o maior mercado e ganha mais importância que outros países da vizinhança. A previsão da equipe do Walt Disney World Resort para 2018 é que haja ainda mais visitantes, principalmente pela nova área temática inspirada no filme “Toy Story”, com previsão de abertura ao público nas férias do meio do ano. Este mundo criado por Walt Disney e comandado por seu camundongo Mickey atrai gente de todas as idades e impacta diversas áreas e pessoas, basta se aprofundar na história de personagens da vida real.

Uma destas histórias parece roteiro de cinema. Era para ter sido uma viagem de lua de mel. Um homem e uma mulher animados, com vontade de visitar Walt Disney World juntos. O casamento foi caro e a viagem precisou ser adiada. Três anos depois havia chegado a hora, mas um convite de amigos mudou o rumo e, mais uma vez, não foram para Orlando. A chance seguinte de visitar as terras do camundongo foi cancelada com a chegada de uma pequena na família e, então, decidiram esperar para quando a filha crescesse. Passou-se um ano e meio e o casal se separou. A tão esperada viagem dos sonhos parecia não sair. Precisaram se passar mais seis anos para que eles se reaproximassem, ficassem oficialmente juntos e, finalmente, junto da filha, realizassem o sonho de visitar o parque da Disney. O que poderia ser história de filme, na verdade, é a vida da brasileira Beatriz Durlo.

Em 2017, aos 37 anos, ela conseguiu revisitar o parque que conheceu havia mais de duas décadas, numa excursão. Desta vez, foi com a família reunida: o marido, a filha, que festejou o aniversário de 8 anos, e os pais, comemorando o aniversário de casamento. “A sensação de finalmente conseguir realizar a viagem dos sonhos com a família é maravilhosa. Muita gratidão”. Ver a felicidade da filha superou qualquer outra que Beatriz pudesse sentir e ela lembra que foi muito especial. O enredo sobre tentativas de visitas ao parque começou em 2005, mas a Disney a conquistou desde pequena e sempre esteve presente na infância da paulista. Bruna se encantou ainda mais pela empresa por conta da viagem: “Acho um lugar mágico mesmo. Tem a capacidade de nos tirar da realidade por alguns dias”.

Não é difícil encontrar pessoas que tenham tido contato com o mundo Disney durante a infância, vivido momentos mágicos, aprendido valores e lições morais que levam para a vida adulta. Por meio do universo de filmes, livros, desenhos e parques, a Disney planta uma semente de magia em inúmeras crianças ao redor do mundo. Uma delas é do município de Paulina, interior de São Paulo. Fernanda Heloísa Salvi, hoje com 20 anos, teve a infância repleta de filmes, roupas e produtos da Disney. Ela se encantou pelo mundo mágico por conta do primeiro longa-metragem de sucesso, “Branca de Neve e os Sete Anões”. “Foi o primeiro filme de princesas a que assisti quando era criança e fiquei encantada”, diz Fernanda, que não sabe como explicar o motivo de gostar mais dessa princesa. Como os filmes refletem os valores da sociedade em um determinado tempo da história, mesmo que Branca de Neve seja a princesa preferida, Fernanda tem consciência de que o filme seria diferente caso estreasse este ano: “Se hoje em dia fosse lançado como ele é, iria causar um certo estranhamento. Afinal, ‘mulher não nasceu apenas para cuidar da casa’”.

Para a paulinense, a Disney tem uma maneira lúdica de mostrar os problemas encontrados na sociedade, colocando-os nos filmes e dando soluções. Nos filmes, quando personagens encontram dificuldades e sentem que não irão conseguir o que precisam, uma das soluções que a Disney insere nos filmes é o trabalho em equipe, com os amigos e família. Um exemplo que pode ser seguido pelo público que a assiste. Em comemoração aos 18 anos, ela, junto à família, vivenciou de perto a magia no Walt Disney World, o parque em Orlando. Com o planejamento que durou dez meses, a família passou doze dias por lá: “A experiência foi inacreditável. É um sentimento de sonho realizado, superação. Eu amei”. A família irá matar a saudade do parque chegando no primeiro dia de 2018 e aproveitar tudo o que puderem por vinte dias. “Estou muito ansiosa e feliz”.

Fernanda Heloísa, aos 18 anos, no Magic Kingdom, um dos quatro parques temáticos de Orlando. Foto: Arquivo pessoal

Fernanda Heloísa, aos 18 anos, no Magic Kingdom, um dos quatro parques temáticos de Orlando. Foto: Arquivo pessoal

Quem, além de estar no primeiro dia do ano, também vai passar o réveillon no parque de Orlando é a paulista de 25 anos, Bruna Spaolonzi. A primeira vez que esteve lá foi quando tinha apenas 5 anos e, embora lembre pouco, ainda se recorda do sentimento de ser uma princesa, como se estivesse dentro dos filmes, por conta da criação fiel dos brinquedos e das pessoas fantasiadas dos personagens. Na última vez que foi, em janeiro deste ano, o sentimento já era de nostalgia e amor. Atualmente, ela presta mais atenção aos detalhes no momento em que é atendida pelos Cast Members, como os funcionários são conhecidos. Mesmo já tendo visitado o parque cinco vezes, Bruna afirma que cada ida é uma sensação imensa: “Como a Disney sempre está se renovando, a emoção da viagem é tão incrível quanto a primeira vez mesmo”.

Mais do que a relação com o parque, o amor da mãe e da irmã mais velha pela Disney fez com que a infância de Bruna fosse repleta de mundo encantado. Foi em contato com os filmes que ela aprendeu valores morais como respeito, amor ao próximo e compaixão. “Aprendi a dar mais valor aos meus pais e a minha irmã, e que não preciso de um homem para ser ‘feliz para sempre’. Eu achava muito chato as princesas casarem com um cara que conheceram por um dia”. Foi esse contato que a fez acreditar que finais felizes são possíveis e a ensinou sempre ver o lado bom das pessoas, inspirada no filme a Bela e a Fera: “Se a Bela via o lado bom da Fera, por que eu não posso ver o lado bom das ‘feras’ da vida real? Talvez isso tenha seu lado negativo, porque eu sempre tive a inocência e acabei caindo nas mentiras de algumas pessoas, mas eu, com certeza, fui muito feliz sendo exatamente como sou: Disney maníaca”.

A irmã que incentivou o amor de Bruna pela Disney é Carla Spaolonzi, de 27 anos. “Não consigo lembrar da minha vida, especialmente da minha infância, sem os filmes e histórias da Disney”. Ela foi a todos os shows relacionados à empresa no Brasil, tinha todas as bonecas e vestia várias fantasias. Atualmente, Carla enxerga a organização representada pelo camundongo mais famoso do mundo como um modelo perfeito de empresa. Tão perfeita que foi na capela da Disney que, em 2015, ela se casou: “Quando percebi que estava casando na capela, com vista para o parque, e que, no dia seguinte, fizemos as fotos no Magic Kingdom ainda fechado, foi incrível, indescritivelmente emocionante”.

Por ser tão distante de casa, havia a preocupação se tudo sairia como o imaginado, mas ela não teve trabalho algum: “Tudo estava muito mais lindo do que eu jamais imaginei”. Embora tenha sido um sonho, os noivos que deram o primeiro passo para o “felizes para sempre” não sabiam da possibilidade de casar em Orlando. Carla não sonhava em trocar alianças na Disney, a ideia surgiu de uma conversa com a mãe, que comentou que ela e o noivo deveriam casar por lá. A reação dos dois foi de risada, mas após pesquisar sobre o assunto, o ponto de vista mudou: “Simplesmente nos olhamos e vimos como era a nossa cara”.

O preço do sonho pode ser adaptado à imaginação e ao bolso, claro. Na Flórida, a Disney oferece três pacotes de casamento: Memories, Escape e Wishes. O primeiro é o de menor custo, com direito a apenas quatro convidados, por 3.500 dólares. Os noivos que optarem pelo Escape podem convidar até dezoito pessoas, por 7.000 dólares. O pacote Wishes é para quem deseja ir ao infinito e além, tanto nos sonhos quanto no bolso, com direito à carruagem da princesa Cinderela para levar a noiva à cerimônia, com preço mínimo de 12 mil dólares e possibilidade de aumento, dependendo da escolha personalizada dos noivos.

Bruna e noivo em frente ao tradicional castelo da Cinderela, no parque temático Magic Kingdon. Foto: Arquivo pessoal

Bruna e noivo em frente ao tradicional castelo da Cinderela, no parque temático Magic Kingdon. Foto: Arquivo pessoal

Um paulista que sonha em algo parecido é Gustavo Favaro, 22 anos, que cresceu assistindo aos filmes e diz ter a própria formação influenciada pelos personagens. Ele esteve no parque por duas vezes e, mesmo sem estar em um relacionamento sério, tem certeza de que fará o pedido de casamento no parque da Disney. Foi com o universo do Mickey que aprendeu a valorizar mais as pessoas, e hoje o sentimento pela empresa é de gratidão: “É quase um sentimento de estar devendo algo a eles. Eu quero fazer parte da equipe da Disney, ajudar a fazer com que outras pessoas tenham essas experiências positivas, iguais às que eu tive”.

Isso é o que a Disney deseja: superar expectativas. Mas como uma empresa consegue exceder expectativas quando é conhecida mundialmente por ser um lugar mágico para as pessoas passarem as férias? O segredo é saber o que os visitantes querem encontrar e, principalmente, atentar aos detalhes. Quem já participou do trabalho e da organização da recepção ao público é a mineira Ana Novais, que trabalha com esse mundo desde 2005. Quando tinha 15 anos foi ao Disneyland Paris, o parque da Europa, e ficou encantada, mas, mesmo assim, o lugar em que ela sonhava ir era o famoso parque de Orlando. Cinco anos depois, descobriu que era possível trabalhar na Disney e isso se tornou seu objetivo de vida.

Ana decidiu fazer o processo seletivo e quando foi selecionada, participou da Disney University, a universidade que passa os valores, o modo de atendimento e a cultura da empresa para quem vai fazer parte dos bastidores do parque. Hoje, aos 32 anos, é especialista em Disney e já foi uma Cast Member no Walt Disney World por três vezes. Para ela, é difícil explicar o amor por esse mundo encantado: “Quando estou lá é quando eu me sinto em casa. Não dá vontade de ir embora de lá nunca”. Entre as melhores experiências que Ana já teve estão os Magical Moments: ações inesperadas e bondosas que os membros do elenco fazem para surpreender ainda mais o público, como criar o encontro de uma criança com o personagem que ela mais deseja.

A bagagem de experiência e conhecimento sobre o parque em Orlando cresceu tanto que Ana se tornou referência em informações e dicas entre os amigos e a família: ajudava no planejamento e roteiro das viagens. Foi assim que há três anos surgiu o site Disney Guia, com o objetivo de ajudar famílias brasileiras a planejarem a viagem para Orlando. Hoje, Ana Novais também gerencia a página no Facebook, com cerca de 250 mil curtidas, Instagram e YouTube, se dedicando a elas aproximadamente quatro horas por dia. Os momentos que fazem o trabalho valer a pena são simples: “Me sinto muito realizada quando recebo comentários dizendo que minhas dicas fizeram a diferença na viagem da família”.

Para se tornar criador de conteúdo na internet sobre o mundo de magia não precisa de muitas viagens. Lucas Neves nunca foi a Orlando, mas faz parte do site O Camundongo, composto por dez pessoas encantadas pela Disney, com diferentes formações acadêmicas e diferentes naturalidades, há integrantes desde o Acre até o Rio Grande do Sul. Ao longo dos anos, conforme a equipe e os leitores cresciam, o projeto deixou de ser uma mera brincadeira e ganhou forma mais profissional, passando por diferentes fases. “Enquanto houver um leitor nos acompanhando, nós continuaremos seguindo em frente e fazendo o nosso melhor”, diz o editor-chefe. Atualmente, a equipe leva um conteúdo mais aprofundado e focado para pessoas quem amam o universo Disney.

“Todos nós vivemos em uma realidade um tanto metódica, mas também precisamos de sonhos e fantasias para nos desligarmos um pouco das responsabilidades do cotidiano. Conseguir mesclar os dois lados é como ter o melhor de dois mundos”, diz Lucas. O site também busca levar um pouco de magia para os leitores com algo positivo, como um refúgio em meio ao caos, às tragédias e às polêmicas presentes nas redes sociais. O encantamento que a Disney gera em grande parte do público surge, na maioria das vezes, na infância, quando as crianças são apresentadas aos personagens e aos filmes. Para Lucas não foi diferente:  “A Disney foi responsável por diversos momentos mágicos da minha infância, assim como de todos os membros da equipe”.

O casal de camundongos Mickey e Minnie faz sucesso nos desenhos e encanta grande parte do público. Foto: Yasmin Thomaz

O casal de camundongos Mickey e Minnie faz sucesso nos desenhos e encanta grande parte do público. Foto: Yasmin Thomaz

A existência do site O Camundongo exemplifica o quanto a Disney é capaz de participar da vida das pessoas e influenciá-las de alguma forma, sejam crianças ou adultos. Não é preciso muita procura para encontrar crianças fantasiando sobre esse universo. Basta observar na família ou nos grupos de amigos para perceber quantas pessoas tiveram contato com esse mundo de fantasia na infância. Segundo a psicóloga Patrícia Alcantra, é comprovado que a Disney tem poder de influência no público, assim como qualquer meio de comunicação. “Ela pode mudar o perfil da criança e pode ter consequências para a vida adulta, mas tudo vai depender de como ela irá absorver aquela informação”, diz a psicóloga.

Os filmes passam mensagens de valores morais e as crianças se identificam, criam uma projeção e absorvem como um ideal a ser seguido. Dessa forma, começam as brincadeiras de imitar personagens e a procura por alcançar o que o personagem conquistou. O mesmo filme pode gerar influências diferentes, variando de criança para criança, de idade e de personalidade de cada uma. Uma possível situação pode ser sobre o filme Mulan, que mostra uma jovem que foge de casa e vai à guerra no lugar do pai para protegê-lo: isso pode influenciar uma criança a proteger os pais, dar mais valor à família, ou, por conta das lutas da guerra, a ser mais agressiva. A psicóloga explica: “Quando uma criança ainda não tem uma personalidade muito forte e ainda está se construindo como pessoa, há mais chances de ela ser mais influenciada e seguir o que a maioria faz”.

Cabe aos pais dosar e mediar esta relação. O contato das crianças com o universo Disney, aliás, na maioria dos casos, parte dos pais. Em Rio das Ostras, município do Rio de Janeiro, uma menina já está destinada a conhecê-lo. Heloísa ainda nem nasceu, mas a mãe Marianna Lischt faz questão de apresentar esse mundo à nova princesinha que irá chegar e fazer companhia ao filho Isaac, de 4 anos. Desde que Marianna soube que seria uma menina, surgiu a ideia de fazer uma sessão de fotos de gestante com tema Disney, já que esse universo a encantou principalmente há dois anos, quando entrou para o grupo de canto Disney Singers Brazil: “No momento em que comecei a cantar, vi que as mensagens das músicas e dos filmes eram lindas”. Nesse período, Marianna estava doente, em depressão, e a Disney a ajudou nesse período complicado. Hoje, aos 26 anos, no grupo de canto, ela tem quase três mil seguidores, que escutam as versões das músicas na voz dela, e já teve oportunidade de cantar com Kika Tristão, dubladora da personagem Pocahontas.

Marianna Lischt com fantasia da princesa favorita, a sereia Ariel. Foto: Indiana Cedraz

Marianna Lischt com fantasia da princesa favorita, a sereia Ariel. Foto: Indiana Cedraz

Separados por mais de mil quilômetros, o jovem curitibano Thiago Müller, 18 anos, tem uma relação bem parecida à de Mariana com a Disney. Assim como a princesa favorita também é a sereia Ariel, ele também já conseguiu superar momentos difíceis com a ajuda do mundo mágico. Thiago perdeu um ano no colégio por ter sido internado por depressão e a Disney o ajudou: “Ela nos dá uma ideia de esperança, mesmo que inconsciente, de um mundo melhor”. O amor que ele diz ser incondicional pela empresa faz com que ele, há cinco anos, tenha a própria coleção: há CDs, filmes, bonecos, livros, entre outros, chegando a cerca de 700 itens.

Thiago conseguiu superar uma doença com ajuda do mundo criado por Walt Disney e aprendeu valores que a empresa busca passar para o público. A coordenadora de Marketing, Laura Storni, teve oportunidade de trabalhar na Disney Brasil, mesmo nunca tendo pensado em atuar para a marca, apesar de amá-la, e permaneceu por dois anos. Ela conta que, por grande parte do público ser formado por crianças e jovens, existe a preocupação em transmitir conteúdo nos filmes e canais de TV que ajudem no dia a dia das pessoas: “Um exemplo é o filme “Divertidamente”, lançado em 2015, que trouxe em questão a importância da tristeza na vida das pessoas. Nos canais também vemos programas que mostram a importância da amizade para as crianças”.

O diferencial de se trabalhar na empresa criada por Walt Disney, comparada a outras do mercado, segundo Laura, é fazer parte da equipe de uma instituição que é forte e faz parte da vida de muitas pessoas. “A melhor experiência para mim foi ter a chance de dividir o espaço de trabalho com muita gente boa e que faz a magia acontecer todos os dias, além de poder trabalhar com pessoas e filmes dos quais eu era fã”, lembra ela.

A marca Disney é tão forte que consegue enraizar valores que são passados nos filmes. O cearense de 24 anos, Juan Victor, carrega consigo as mensagens que aprendeu: ser gentil, mesmo que a situação não favoreça; enxergar que para ser uma família basta estar junto e haver amor; tratar todos de forma igual e não querer mudar quem realmente são. Para Juan, pelos filmes serem animações, muitas pessoas não dão valor às histórias e às mensagens, porém é justamente isso que chama atenção dele: desenhos que têm lindas mensagens, que cada pessoa tem uma maneira diferente de interpretar. “A partir do momento em que você se apega ou se identifica com um personagem, você se coloca no filme, consegue se ver lá, e até mesmo associar algo do filme ao mundo real ou a alguma situação com sua própria vida, mesmo que no filme existam seres mágicos e magia”.

Correr atrás dos sonhos e não deixar de acreditar são as principais mensagens deixadas pela empresa, independentemente do momento que a sociedade esteja vivendo durante o lançamento de um filme. Já são 80 anos desde o primeiro longa-metragem, “Branca de Neve e os Sete Anões”, e que, pela inovação de arriscar em algo que nenhuma empresa havia feito, rendeu um Oscar honorário para a Disney. Foram muitos avanços tecnológicos, mas as máquinas não interferiam no perfil das personagens, que são interessantes e capazes de prender a atenção do público, visto que o filme da primeira princesa do mundo Disney motivou aplausos da maioria dos críticos. Para Juan, a Disney sempre acompanhou o momento que a sociedade vive para a criação de seus personagens: “Vemos personagens femininas fortes, até as primeiras princesas são assim, se considerarmos a época em que o filme foi feito. Isso vem aumentando”.

Uma das personagens femininas de personalidade forte é Pocahontas. O filme, lançado em 1995, conta a história de uma índia que enfrenta tanto o pai quanto imigrantes para passar uma mensagem a favor do amor, contra o preconceito e ódio. Na terra que já foi apenas de índios, a paulista Fernanda Souza traz para a realidade a caracterização da personagem, prática popularmente conhecida como cosplay. A ideia surgiu de tanto as pessoas dizerem que ela se parecia com a personagem. E bastou uma oportunidade para ver como ficaria caracterizada. O que começou em festas da faculdade se tornou trabalho como personagem vivo em festas.

Fernanda Souza caracterizada da personagem Pocahontas. Foto: Jenniré Narváez

Fernanda Souza caracterizada da personagem Pocahontas. Foto: Jenniré Narváez

Aos 23 anos, ela afirma que mesmo quem se considera maduro e que já passou da idade para gostar de animações precisa admitir que as histórias não são puramente para passar tempo de criança. “Me manter nesse universo seria uma forma de nunca deixar aquela criança interior ir embora”, diz Fernanda. O ponto em que a empresa vem acertando é a produção de remakes de sucessos de décadas anteriores, na versão live actions, ou seja, atores reais para interpretar personagens que nasceram na animação, como o lançamento deste ano de “A Bela e a Fera”, com a atriz Emma Watson, recontando a animação criada há 26 anos. Fernanda acredita que o sucesso surge da nostalgia que esses filmes causam nos adultos, somada à novidade para as crianças.

Como fã, ela coleciona 13 bonecas de princesas e, para concluir a faculdade, escolheu o tema do trabalho de conclusão de curso relacionado à empresa. Entretanto, antes de entrar para o Ensino Superior, quando fazia curso de vestibular, o contato com histórias da Disney aumentou por ser um ano difícil, e, a partir daí, surgiu a coleção de DVDs, para poder assistir sempre que quisesse ou quando estivesse triste. Mas Fernanda é apenas uma de várias pessoas que conseguem apoio no mundo mágico da Disney.

Muryllo De Nile teve um ponto de virada na vida por conta das mensagens dos filmes. Ele passava por dias difíceis: o término de namoro veio junto da demissão do emprego, uma temporada em que nada parecia dar certo. Muryllo passou a ficar apenas em casa, assistindo à televisão, até que começou a comparar a situação da vida real com o enredo dos filmes de princesas e heróis: “Eles não ficam se lamentando, eles dão a volta por cima, sozinhos ou com ajuda de amigos. Todos vão atrás dos seus sonhos, seus objetivos, e era o que tinha que fazer também”. Atualmente, aos 28 anos, ele trabalha e está no 4° semestre da faculdade, correndo atrás do próprio final feliz, assim como nos filmes.

A construção e a valorização de uma identidade, com alguma medida infantil, é reforçada pela dinâmica da própria experiência na Disney, como defende o sociólogo Franklin Emygdio. A empresa conseguiu impactar uma geração específica com os primeiros filmes e, ao passar dos anos, o amor criado por ela foi passado às gerações seguintes. Isso gerou impacto sobre o que é considerado infantil, para o mundo mágico também atender aos adultos, que nada mais seriam do que aquelas crianças que amavam a empresa na infância. O sucesso do mundo encantado é tanto que há produtos de diversos segmentos, como brinquedos infantis, roupas, objetos de decoração, material de estudo, filmes, entre outras áreas do mercado, que trazem o tema Disney.

A massificação do consumo possibilitou esse cenário contínuo, porém, é preciso estar atento: “O excesso desse cenário pode acarretar dificuldades variadas de sociabilidades frente aos desafios da vida adulta”, explica o sociólogo. O amor pelo mundo de magia e encantamento pode ser uma grande admiração, em que há o reconhecimento de algo, mesmo que não se tenha acesso, ou em casos extremos, pode se tornar uma obsessão, em que o indivíduo não consegue viver com naturalidade sem um determinado produto ou sensação.

Na vida do paulistano Muryllo, o contato com a fantasia o ajudou mudar a vida para melhor: “Disney faz parte da minha história nos melhores momentos e nos mais tristes. Sempre esteve junto, seja uma lembrança de um trecho de filme, uma pelúcia, uma canção”, lembra. Da mesma maneira que Muryllo compartilha momentos mágicos com o irmão Myguell Fazanaro, de 19 anos, ele deseja também transmitir a magia Disney para um futuro filho, para assistir aos filmes e apresentar tudo desse universo.

Isso é algo que Filipe Rhein faz com o filho de 5 anos, que já ama o mundo da Disney. Eles assistem aos filmes juntos, principalmente o Rei Leão, o favorito de Filipe, que o marcou pelo personagem principal perder o pai quando criança, sendo o caso na vida real do paulista de 30 anos. Assim, ele se identifica bastante e se espelha como pai. O professor acredita que a empresa faz com que muitas pessoas, de diferentes idades, se encantem por conta da mensagem da busca pelos sonhos. “Eu sempre curti a ideologia Disney, em que sonhos se transformam em realidade. É como a frase do Walt Disney, ‘se você pode sonhar, você pode fazer'”. Assim como a paulista Fernanda Souza diz que se aproximar desse universo seria uma forma de manter a criança interior viva, Filipe decidiu também eternizá-la em uma tatuagem e registrou na pele a ideia passada no filme do “Peter Pan”, para lembrar a criança que vive dentro do adulto: “Never grow up“.

Influenciar na formação da personalidade de uma pessoa é uma enorme responsabilidade e a Disney sabe disso. Mas a parceria com os pais é fundamental. A personalidade de uma pessoa é construída até os 5 anos de idade, de acordo com os conteúdos externos, ou seja, é nesse período que há mais influência na construção da personalidade e na maneira como a pessoa vai se relacionar com o mundo. Em grande parte, esse grau depende de como o responsável pela criança ensina a lidar com o universo lúdico da Disney. Conforme ela cresce, o lúdico vai sendo trazido para a realidade e, caso não haja maior cuidado com essa relação, como o responsável adulto não conseguir criar um limite, pode gerar o que a psicologia intitula de Síndrome da Cinderela ou Síndrome do Peter Pan.

A síndrome, com o nome ligado a personagens da Disney, é conferida a adultos que não conseguem se afastar da infância e, assim, não desempenham as responsabilidades com sucesso em seus trabalhos e vida pessoal. Para a psicóloga Cristina Linhares, é importante ter atenção durante a infância, pois caso não seja bem conduzida, da forma adequada, há consequências para a vida adulta. A aproximação do mundo de fantasias pode acontecer por uma carência emocional, embora não seja em todos os casos: “Se essa criança ou pré-adolescente se fixar no universo Disney encarando-o como realidade, é porque na base houve alguma carência, falta de presença de pai, mãe, ou uma figura com que a criança deveria se identificar”. Mas não há como generalizar. As pessoas não são fãs dos desenhos apenas por fugirem da realidade. A psicóloga afirma: “Eu gosto dos filmes da Disney porque acho bonitos, bem feitos e trazem histórias legais”.

Os filmes geram magia e encantamento no público e levam mensagens que cativam o coração de quem os assiste. Conforme os anos passam, adultos sentem falta do sentimento da infância e muitas são as formas de manter a criança interior viva, e até mesmo de passar a magia Disney para novas gerações. Luiz Roberto é um jovem que há três anos ajuda a criar momentos mágicos a serem eternizados na memória dos pequenos. As festas de aniversário que Luiz teve na infância, até os 7 anos, tinham como tema o universo Disney e, 17 anos depois, formado em Publicidade, ele está do outro lado: trabalha na empresa de animação de festas infantis que ele mesmo criou. “Larguei todas as propostas de trabalho para trazer um pouco de Disney para o Brasil com minha agência”, diz o jovem de 24 anos.

Por fim de semana são no mínimo duas festas, e a equipe, composta apenas de fãs, também ensina às crianças, além de brincadeiras, os valores presentes nos filmes da Disney. A intenção de passar a magia às outras pessoas não se limita a festas infantis. Além de levar personagens nas festas remuneradas, a equipe também faz visitas a hospitais de crianças com câncer, orfanatos e ajuda em arrecadação de brinquedos. Para tomada de decisões, Luiz questiona o que Walt Disney faria: “Tenho o próprio Walt Disney como exemplo de vida! Eu vivo, respiro e trabalho Disney”.

Embora seja totalmente envolvido com esse universo, Luiz nunca foi ao parque Walt Disney World. A primeira vez seria em 2017, mas por investir em fantasias do Mickey e da Minnie importadas de Orlando, para melhorar a própria agência, precisou adiar a viagem dos sonhos para conseguir ter mais condições financeiras no futuro. A paixão por este mundo é tanta que, aos 20 anos, Luiz fez uma tatuagem no pé em homenagem ao personagem Woody, do “Toy Story”. Lançado em 1995, foi o primeiro filme de animação totalmente computadorizado, realizado pela inauguração da parceria entre a Walt Disney Pictures e a Pixar Animation Studios.

Tatuagem na sola do pé de Luiz, em homenagem ao personagem Woody, do filme Toy Story, que tem o nome do dono na sola da bota. Foto: Arquivo pessoal

Tatuagem na sola do pé de Luiz, em homenagem ao personagem Woody, do filme Toy Story, que tem o nome do dono na sola da bota. Foto: Arquivo pessoal

“Toy Story” conquistou e ainda ganha muitos fãs até os dias de hoje. O filme conquistou Leonardo, autista moderado, verbal, de 18 anos. A mãe, Marisa Gimenes, conta que os personagens favoritos do filho são dessa animação, e aos 3 anos de idade Leo já começava a desenhar. Quando assistia aos filmes, se interessava pelas informações de storyboard e iniciava as ilustrações. Atualmente, a coleção de desenhos e telas cresceu e Marisa criou uma página no Facebook para mostrar o trabalho do filho autodidata. “É maravilhoso ver que ele faz desenhos incríveis. É uma forma de ele ocupar a mente, e a Disney, de certa forma, o ajuda a sair um pouco desse mundo tão fechado do autismo”.

Desenho do personagem Buzz Lightyear, do filme Toy Story, feito por Leonardo Gimenes. Foto: reprodução

Desenho do personagem Buzz Lightyear, do filme Toy Story, feito por Leonardo Gimenes. Foto: reprodução

Não é difícil conhecer pessoas que começaram a desenhar inspiradas no mundo Disney. O fluminense Isaque Arêas, com os pais apaixonados por animações, cresceu assistindo aos filmes e começou a desenhar quando era pequeno, copiando capas da Disney. Hoje, aos 24 anos, ele trabalha com ilustração, e a quantidade de desenhos cresceu tanto que ele divulga em uma página no Facebook, com mais de vinte mil seguidores, diversas ilustrações de personagens, inclusive como as princesas seriam com a aparência da idade atual. “Eu acredito que a Disney moldou uma parte do meu caráter por conta das lições que havia em cada filme e porque meus pais sempre conversavam comigo sobre as mensagens”.

Apaixonado pelas histórias, em outubro deste ano, Isaque fez o pedido de casamento inspirado na Cinderela, a princesa preferida da noiva Marcela de Castro. O pedido foi planejado com antecedência e ajuda tanto dos amigos quanto da família: enquanto os amigos eram responsáveis por dizer em um vídeo os motivos pelos quais ela deveria se casar com Isaque, a avó, assim como a Fada Madrinha, costurou um vestido azul, inspirado na princesa. Para representar o sapatinho de cristal, Isaque comprou um tênis metálico. Na noite de um domingo de outubro, era a hora do show: no retiro da igreja, no meio do culto, Isaque havia combinado com o pastor de fazer o pedido. Em uma sala reservada, a avó fez o papel de Fada Madrinha: disse a Marcela que ela precisava provar o vestido azul antes do término do culto, com a desculpa de que sairia mais cedo. Quando voltou, no telão passava o vídeo dos amigos. Ao fim, ele foi em direção a sua princesa com o tênis para calçá-la. Enfim, os dois tornaram-se noivos. Isaque diz que a Disney é presente em grande parte da vida: “Significa muito para mim, para minha família e para quem sou hoje”.

Ilustração da princesa Branca de Neve. Crédito: Isaque Arêas

Ilustração da princesa Branca de Neve. Crédito: Isaque Arêas

Já no estado ao lado, em São Paulo, Caíque Garroti, por conta da Disney, desenvolveu o gosto por musicais, e esse é um dos pontos mais esperados por ele em novos filmes. Caíque também foi incentivado a desenhar por causa da empresa e até hoje tem o sonho de trabalhar com ilustrações e música, melhor ainda se for com a própria Disney. “Anualmente, o meu gosto pela Disney só cresce, e sempre fico no aguardo para ver qual será o próximo filme ou desenho a ser lançado!”, exulta o publicitário de 31 anos. A primeira vez que pôde ir ao Walt Disney World foi em 1998, quando passou o ano novo em um dos parques aos 12 anos. Em 2015, ele conseguiu revisitar o local, mas ainda pretende ir muito mais vezes.

Desenho do Mickey Feiticeiro, lançado em 1940. Foto: Caíque Garroti

Desenho do Mickey Feiticeiro, lançado em 1940. Foto: Caíque Garroti

A carioca Gabriella Adami já foi três vezes ao parque. Aos 16 anos, Orlando foi a primeira viagem internacional, onde vivenciou experiências que ficarão guardadas na memória: “Melhor viagem da vida”. A emoção de estar no mundo da Disney era tanta que lágrimas transbordavam dos olhos. “Quando você entra no parque, nem lembra no mundo exterior. Você não vê as pessoas sentadas mexendo no celular. Parece que entrou num mundo alternativo, as pessoas são educadas, e não são apenas os funcionários, as pessoas se transformam”, ela lembra. A última viagem para a Disney foi este ano, aos 20 anos, sozinha, sem amigos e sem família, apenas ela e o mundo Disney: “Não me arrependo, foi a melhor coisa que eu fiz. É muito mágico”. O medo da tristeza aparecer por não estar em um grupo existia, mas Gabriella conseguiu aproveitar sem problemas: “A Disney sempre está ali para ajudar, você não passa por dificuldade, não se preocupa com nada, é muito tranquilo”.

Mesmo gostando da experiência de estar sozinha, ela não recomenda que façam isso na primeira viagem, pelo fato de os visitantes precisarem saber como andar por lá, além de dicas, como quais brinquedos têm lugares sozinhos. Embora goste de viagem em grupos, ela considera que excursão limita a viagem dos visitantes: “Com excursão o horário é limitado, o número grande de pessoas no mesmo grupo também dificulta e torna o passeio mais longo”. Nos meses de férias, o tempo em filas é grande e prejudica quem tem vontade de conhecer tudo. Entretanto, para quem deseja viajar pela primeira vez com um planejamento prévio, contratar agências de turismo é uma opção. Segundo o agente de viagem, Ronnie Flávio, as pessoas podem criar uma viagem personalizada, escolhendo os lugares de visitação, como também podem escolher pacotes prontos, destinados aos meses de férias, formados a partir da preferência da maior parte do público. O que encarece a viagem para a Disney é o ingresso para o parque: “Há diárias de hotel da Disney mais baratas que hotéis do Nordeste”, diz o agente de viagem.

Mesmo que grande parte dos pacotes de viagens seja destinada aos meses de Janeiro e Julho, a maior parte do público procura ir à Disney em Março e Abril, por ser época de baixa temporada. Pessoas de todas as idades desejam conhecer as terras do Mickey e, levando em conta o fato de ser uma viagem internacional, segundo Ronnie, o tempo de antecedência considerado bom é de seis meses. “Viagem é antecipação, quanto mais cedo o planejamento, melhor”. Quem contrata agência de turismo precisa se preocupar apenas com o visto para a viagem internacional, que não demora a ficar pronto, mas é importante ter a aprovação antes de comprar a viagem. Em 2013, Ronnie deu à irmã como presente de 15 anos uma viagem para a Disney e considera o lugar mágico: “As pessoas são muito solícitas”.

Sendo em grupo ou sozinho, quem está nos parques da Disney tem a mesma visão: “A sensação que você tem quando vai para Orlando é que elas realmente amam trabalhar naquele lugar e defendem a empresa Disney. Nunca conheci uma empresa que conseguisse fazer isso”, explica Gabriella, que tem o sonho de fazer parte dos bastidores que criam momentos mágicos para os visitantes. Isso é algo que Amanda Gramazio já experimentou. Aos 23 anos, já ultrapassa dez visitas ao parque, se somadas todas as vezes em que esteve por lá. Além de visitação, também trabalhou por oito meses, por dois programas de intercâmbio, sendo no último uma representante cultural do Brasil no Magic Kingdom, o parque com o icônico castelo da Cinderela.

“Eu planejei minha vida toda para trabalhar na Disney e esses programas foram o primeiro passo. Foi incrível me mudar para lá e é maravilhoso poder criar a magia, estar do outro lado”, diz a Amanda. A Disney a influenciou a escolher o curso de Turismo e atualmente pretende fazer pós-graduação em entretenimento fora do Brasil. O primeiro trabalho foi no parque, aos 20 anos, e Amanda diz ser uma empresa muito diferente: “Saí de lá acostumada a tratar o turista e ser tratada como funcionária de uma maneira que não é tão comum no mercado. Eles reconhecem a importância do funcionário, do trabalho em grupo e fazem as regras valerem para todos. Foi o que senti mais diferença se comparado às outras empresas em que trabalhei”.

Outra jovem que teve oportunidade de trabalhar em Orlando foi Renata Caruso, que voltou em setembro deste ano, da segunda vez em que trabalhou nos parques. Ela afirma que a emoção em tirar fotos com personagens continua a mesma, embora outras questões sejam vistas de outra forma: “Na hora de prestar atenção no atendimento, ficamos muito mais exigentes. Sabemos algumas coisas que, por exemplo, para um guest normal é incrível, mas para nós não é mais que a obrigação do cast member”. O último dia das duas vezes em que trabalhou na Disney foram marcantes pelo carinho dos visitantes e das amizades que criou por lá: “Esses dois dias foram surreais, de verdade, me emociono até de contar para as pessoas”. Atualmente, ela trabalha em uma agência de publicidade que gerencia páginas da Disney na internet e, assim, ela mantém algum contato com o mundo Disney no trabalho.

Renata Caruso ao final do programa de intercâmbio. Foto: Arquivo pessoal

Renata Caruso ao final do programa de intercâmbio. Foto: Arquivo pessoal

Quem confirma a ligação forte que se cria entre quem é cast members é Bruna Furlan, que é apaixonada pelo lado corporativo da Disney desde os 15 anos, na primeira visita ao parque. Ela sonhava conhecer o local desde os 6 anos, ao assistir propagandas do maravilhoso mundo de Disney das fitas VHS. Na primeira vez dela como cast member, a equipe se tornou uma família e todos se veem praticamente uma vez por mês. “A experiência toda é incrível, o trabalho, os amigos, os benefícios de entrar e sair dos parques quando quiser, as festas, tudo. Trabalhar para Disney é um conjunto de coisas incríveis”. Hoje, aos 23 anos, acha fantástica a forma como a empresa consegue manter padrões de qualidade. É com o alto grau de qualidade que a Disney impacta tantos visitantes e constrói boas memórias para os convidados.

Diego Sprouse pôde ter contato com a qualidade do atendimento dos cast members. Fã da Disney desde 2 anos de idade, ele planejou por um ano e meio a viagem para o lugar dos sonhos. Foi em 2014, junto de três amigos, que teve a primeira viagem de avião, a primeira viagem internacional e a primeira viagem para a Disney de uma única vez. “Foi uma sensação maravilhosa. Era meu dia, meu sonho, minha realização”, diz Diego ao lembrar de quando chegou ao parque e viu o castelo da Cinderela, a imagem que mais representa o parque em Orlando. Em casa, ele coleciona filmes e livros, além de 47 bonecos importados. O contato com esse mundo mágico fez Diego acreditar que os sonhos podem se realizar: “Eu cresci acreditando que o mundo era apenas um conto de fadas. Claro que depois descobri que não era bem assim, porém ainda acredito em contos de fadas e felizes para sempre”, diz o carioca de 26 anos.

Diego na primeira viagem da Disney, em 2014 Foto: Arquivo pessoal

Diego na primeira viagem da Disney, em 2014. Foto: Arquivo pessoal

Em Salvador, uma jovem de 21 anos também sempre foi apaixonada pelo mundo encantado criado por Walt Disney. Camilla Maia, aos 4 anos de idade, já conseguiu visitar o parque e ainda hoje consegue lembrar como ficou encantada com tudo, acreditando na magia: “Tudo foi mágico e eu amei”. Depois retornou aos 11 anos, quando já sabia inglês o suficiente para falar com as princesas, que se juntaram para dançar com ela uma música do filme “High School Musical”: “Foi muito incrível”. Dez anos depois ela fez a última visita, aos 21 anos, e conseguiu ter outra visão do parque, por conta da idade. Mesmo que tenha deixado de ser criança, ela não deixou de acreditar em valores que aprendeu com a empresa e que a influenciaram no modo de enxergar as situações e de viver: “Eu acredito piamente que todos os sonhos podem se realizar. Esse é um pensamento que pode até ser considerado meio infantil e ingênuo para uma mulher de 21 anos. Mas sempre tento enxergar o melhor nas pessoas, mesmo aquelas que já me machucaram”. Atualmente, Camilla faz cosplay de duas princesas e tem planos para conseguir de todas.

Ao contrário de Camila, um jovem de Brasília, de 27 anos, nunca conseguiu ir à terra do Mickey Mouse, mas tem planos para 2018. O desejo de Jhonny Leite surgiu de uma admiração desde criança pelas produções Disney e pela forma que as histórias são contadas. Jhonny diz ser por causa disso que nasceu sua paixão pelo cinema e que ele se descobriu como escritor. “A Disney sempre fez parte da minha vida e teve um papel fundamental na formação do meu caráter”. Os personagens criados por ele são inspirados em personagens da Disney e já perdeu a conta de quantos já criou. O jovem escreveu fantasia, policial, romance e atualmente trabalha numa distopia, que deve ser o primeiro a ser publicado.

As histórias já ajudaram não só o brasiliense a se descobrir na vida, como também o mineiro de 21 anos, Daniel Estanislau. Ele já se apoiou em diversos momentos difíceis da vida nos filmes da Disney. “Duvido que eu seria quem sou hoje sem essas influências”. Se considerando uma pessoa solitária, ele revela que as histórias o fizeram acreditar em magia e que embora haja dificuldades, sempre existe algo bom. Muitas amizades que Daniel fez têm ajuda do mundo mágico, inclusive conhecer o melhor amigo ao interpretar um dos personagens da Disney para o curta de um trabalho em cinema. Além de apreciar os filmes, Daniel também participa de um grupo de canto há cinco anos e grande parte dos trabalhos é relacionada à Disney. Isso faz com que a empresa esteja presente em diversas áreas de sua vida, tanto pessoal quanto profissional.

Não muito longe dali, em Goiânia, a vida profissional de Frede Antonio mudou com as mensagens dos filmes. O jovem de 20 anos aprendeu sozinho a fazer esculturas com biscuit. Isso já tem um ano e meio, mas Frede sempre teve receio de mostrar o próprio trabalho para outras pessoas, receoso em saber o que poderiam falar a respeito. Quando passou a ter atitudes dos personagens como exemplo, o cenário mudou: “Tanto a Rapunzel quanto a Elsa tinham que esconder o que tinham de especial por causa dos outros, e a libertação de ambas foi um meio de me libertar e ter coragem para mostrar quem eu sou de verdade”. Atualmente, ele utiliza o Instagram para divulgar a produção e todos são voltados para vendas.

Frede não foi o único a se inspirar em Elsa, a personagem principal do filme. João Paulo Barbosa, 24 anos, é apaixonado por “Frozen” e, para dividir a mesma paixão que sentia com outras pessoas, criou uma página no Facebook que hoje tem mais de duas mil curtidas. O amor pela Disney acompanha João desde a infância e, conforme os anos passam, ele só percebe essa admiração crescer. “Uma frase que amo é que ‘você nunca será velho demais para a Disney’. Um dos meus maiores sonhos é poder ir ao parque”. Os fãs que algumas pessoas classificam como velhos demais para gostar desse universo, ou que não deveriam gostar por ser um mundo considerado feminino demais, não compreendem o motivo do julgamento.

Em Pernambuco, uma das pessoas encantadas é Darlisson Soares. Embora tenha 14 anos e algumas pessoas considerarem idade limite para ser fã da empresa, ele escuta uma vez ou outra que gostar dos filmes é ‘coisa de menina’: “Muitos têm mente fechada para compreender os filmes da Disney”, diz ele. Na infância, enquanto outros meninos assistiam a animes, animações do Japão, ele assistia ao Mickey, por considerar fantástico. “Independentemente de assistir à maioria de filmes e desenhos da Disney, não sou gay, e não vejo problemas em quem seja. As pessoas costumam dizer que a Disney desenvolve apenas desenhos e filmes dedicados para as meninas, mas o que vai me definir não será o que eu assisto, certo?”.

Darlisson e muitos fãs esperam por mais filmes, para que possam admirar e se encantar ainda mais por todo esse universo criado por um americano sonhador nos anos 20. A influência e a mudança que gera nas pessoas é transformadora e, certamente, para a vida toda. Os brasileiros, independentemente dos estados em que vivam, tiveram e continuam tendo, todos os anos, momentos mágicos graças ao mundo de Walt Disney. Assim como o Brasil, o mundo foi conquistado por personagens que levam alegria e entretenimento ao público não só na infância, mas para a eternidade.

Bonecos da Disney. Foto: Yasmin Thomaz

Bonecos da Disney. Foto: Yasmin Thomaz


Yasmin Thomaz – 8º período

Os quatro parques temáticos do Walt Disney World

Magic Kingdom

O castelo da Cinderela que representa o parque da Disney em Orlando. Foto: Dicas da Flórida

O castelo da Cinderela que representa o parque da Disney em Orlando. Foto: Dicas da Flórida

Primeiro e principal parque da Disney, inaugurado em 1971. Tem o castelo da Cinderela e, dos quatro, é o mais cheio.

Epcot

O ícone deste parque é o globo prateado. Foto: Disney Guia

O ícone deste parque é o globo prateado. Foto: Disney Guia

O segundo parque que estreou e um dos mais populares, com o tradicional globo prateado. É baseado na ideia de união entre os países, além da visão de futurismo.

Disney’s Hollywood Studios

Nele há o Hollywood Tower, o elevador que despenca e faz os visitantes sentirem frio na barriga. Foto: Azul Travel

Nele há o Hollywood Tower, o elevador que despenca e faz os visitantes sentirem frio na barriga. Foto: Azul Travel

É o menor parque do complexo, porém repleto de shows, teatros e atrações sobre filmes. Consegue agradar desde os mais aventureiros até os mais calmos, com montanha russa e show para crianças.

Animal Kingdom

Parque oferece safari para o público conhecer mais os animais. Foto: Azul Travel

Parque oferece safari para o público conhecer mais os animais. Foto: Azul Travel

Inaugurado em 1998, como o nome já diz, o parque é focado no Reino Animal. Abriga mais de mil animais diversos, numa área com mais de 200 hectares.


Yasmin Thomaz – 8º período

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Zé Carioca, o personagem brasileiro criado por Walt Disney