Categorias de Base: O futebol é para todos e para todas

Preconceito. Uma barreira a ser quebrada para a evolução e o crescimento dos investimentos no futebol ainda está ligada ao preconceito que se tem de ver meninas correndo atrás da bola no Brasil. Infelizmente, durante competições femininas, não é raro ouvir pais e amigos de atletas fazendo comentários maldosos contra as adversárias.

Elas querem ser jogadoras de ponta, como Formiga, Marta ou Cristiane. Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Ronaldo também são lembrados, mas em segundo plano, pois quem realmente as inspiram são as jogadoras que fizeram o futebol feminino ser respeitado no Brasil. Marta, por exemplo, foi cinco vezes a melhor do mundo em escolha da Federação Internacional de Futebol (Fifa), feito nunca alcançado por nenhum homem. Mostrou o caminho para essas novas gerações. O sonha delas não é diferente do dos meninos que se espelham em craques masculinos.

Time de futebol feminino do Flamengo. Foto: Divulgação Flamengo

Time de futebol feminino do Flamengo. Foto: Divulgação / Flamengo

Em um terreno onde os homens mandavam até quatro anos atrás, meninas de todas as idades jogam futebol com naturalidade e competência. Ainda falta muito para o devido reconhecimento, mas essa geração que nunca desistiu fez com que uma nova colheita brotasse nos campos do país. O cenário ganhou um novo ânimo a partir da decisão da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), que ofereceu duas vagas para o Brasil na Libertadores, com a obrigação de os clubes apostarem em times femininos a partir da temporada de 2019.

Embora estejam cientes da dificuldade da profissão, essas jogadoras não olham o esporte apenas como entretenimento, mas como a possibilidade de ter uma vida melhor. Por isso, comemoraram a recente decisão da Conmebol sobre a obrigatoriedade da formação das equipes. Para Waltter D’ Agostino, vice-geral do Flamengo, a decisão pode sim ajudar a modalidade a crescer: “Espero que não seja apenas palavras ditas pelo pessoal da Conmebol. Enquanto não tiver apoio dos clubes de tradição e das grandes entidades, o crescimento do futebol feminino no Brasil será pequeno”.

Para Barbara, uma das jogadoras do Flamengo, as meninas precisam superar primeiro o medo de querer jogar e vencer este preconceito, pois muitas em época de categoria de base sofreram com a torcida falando que futebol não era esporte para mulher.  “Jogava na categoria de base em um time em São Paulo. Uma garota do meu time saiu chorando de campo por ouvir absurdos quando foi bater um lateral. Só que o torcedor do outro time preconceituoso esquece que no time dele também tem mulher”, conta Barbara.

Além do preconceito no futebol feminino, outro fator que atrapalha é a falta de patrocinadores para ajudar financeiramente os clubes a investir nas categorias de base e no profissional de mulheres. O que chama a atenção que, para a realização dos campeonatos de futebol feminino, a CBF arca com as viagens e hospedagens das delegações. Já a patrocinadora Sport Promotion promove ajuda de custo a todas as equipes. Na condição de mandante, cada clube recebe R$ 7 mil para arcar com despesas como arbitragem, ambulâncias, gandulas e exame anti-doping. Como visitantes, os times recebem R$ 5 mil da empresa.

A diferença de salários dos jogadores para as jogadoras profissionais também é um absurdo. Com salários girando em torno de R$ 880 a R$ 1.000, as jogadoras dependem de patrocinadores para saber se continuam no clube onde elas estão jogando ou se saem a procura de outro time. Técnico do time feminino Brasileirinho no Rio de Janeiro,  Matheus Tavares explica que a intenção é manter a equipe em treinamento até que uma decisão sobre patrocínio seja tomada, antes do final do ano. “Faremos uma reunião para tentar manter o elenco, precisamos fechar com patrocínio. Se não conseguirmos esse patrocínio, o investimento terá de ser menor em relação ao ano passado”.

Ano passado, o Brasileirinho conseguiu investir R$ 300 mil na equipe de futebol feminino. Com o 4° lugar no Campeonato Carioca, a diretoria está fazendo uma reavaliação de seu orçamento para definir qual valor será destinado para manter as jogadoras em atividade. Com a incerteza quanto ao futuro da equipe feminina, seis atletas já trocaram o time carioca por outros mais nomeados no futebol feminino aqui no Brasil ou na Europa, onde o futebol feminino é mais aceito e recebe mais investimento. Apesar das reclamações e de anos de abandono, a esperança de dias melhores no futebol feminino é maior do que o medo de ver tanto talento desperdiçado por falta de oportunidade.

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Categorias de Base: A importância dos estudos para os jogadores


João Vitor Barros – 8º período

Categorias de Base: A importância dos estudos para os jogadores

Muitos jogadores brasileiros estão iniciando suas carreiras profissionais no futebol cada vez mais cedo e deixando para trás a escola e a família. Como consequência, acabam perdendo o suporte principal para a formação e o desenvolvimento de um atleta. E a estabilidade financeira que a profissão oferece muitas vezes faz com que o atleta não pense no planejamento de sua carreira. Embora sejam considerados fundamentais como fonte de receitas dos clubes, os jogadores nem sempre recebem direção e instrução sobre a construção da carreira profissional. Conhecer como os atletas profissionais de futebol dos clubes brasileiros enxergam o valor do planejamento de sua carreira é muito importante.

Além de ser considerado uma paixão nacional, o futebol é também visto como uma oportunidade profissional para jovens de baixa renda. Porém, a carreira deste profissional precisa ser planejada para que no futuro do mesmo não venha sofrer com as dificuldades que poderão surgir após o término da sua trajetória em campo. A profissão de atleta profissional do futebol vem acompanhada de certa insegurança quanto ao futuro, pois é uma carreira que apresenta instabilidade por depender do seu condicionamento físico para trabalhar, onde possíveis lesões podem surgir durante a trajetória esportiva. Por isso, a relevância destes profissionais pensarem no planejamento de suas carreiras e também de perceberem o quanto esta ferramenta pode auxiliar no seu futuro, permitindo estabelecer metas e objetivos a serem alcançados.

Os times estão cada vez mais preocupados com os jogadores nas suas formações acadêmicas. Clubes como Vasco da Gama têm em suas sedes escolas para seus jogadores não perderem os estudos enquanto defendem a camisa do time, pois ninguém sabe o que o futuro reserva para esses meninos.

“Aqui no Rio, o Vasco é o único clube que tem um colégio na sua própria sede. Sempre que passo para visitar a escola, falo para os meninos se dedicarem nos estudos. Os ensinamentos serão importantes mais para frente. Eu cheguei ao Vasco muito novo e me formei aqui. Tenho um carinho por todos que trabalham aqui dentro. Sou muito grato a ele pela educação que me deu”, conta Gabriel Felix, agora goleiro profissional do Vasco da Gama.

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Escola do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação

O clube dá suporte e faz com que os jogadores não deixem de estudar por conta dos treinamentos. A escola é fundamental. Administrada pelo Vasco, o colégio oferece ensino fundamental e médio. Não atende só aos jogadores de futebol, mas também aos atletas de outras modalidades.

“O clube não tinha necessidade de ter uma escola aqui dentro, mas a educação é fundamental e uma das coisas mais importantes para mim. Todo mundo quer virar um atleta de ponta, mas nem todos serão. O que nós procuramos é formar cidadãos. Aqui, ensinamos as pessoas a serem do bem, terem boas maneiras e, acima de tudo, disciplina’’, diz o professor Marcelo Duarte.

Ser um jogador de futebol profissional, ganhar um bom dinheiro e ser reconhecido no mundo todo é um sonho que atrai a maioria dos jovens. Mas começar cedo requer superar diversos obstáculos e enfrentar desafios que podem ser marcantes para garotos com pouca idade. O principal deles é ficar longe da família, já que muitos jovens saem de suas cidades natais para jogar nas categorias de base dos clubes e, assim, crescer dentro da profissão. A saudade da família é algo que costuma estar sempre presente no cotidiano desses meninos que tentam a vida como jogador de futebol em outras cidades. Pablo Siqueira mora longe da família. Ele viaja para Natal três vezes por ano durante as férias, para visitar seus pais. Mesmo mantendo contato todos os dias com eles, o menino diz que a saudade é muito grande.

‘’Sempre que sobra um tempo, eu vou para minha cidade ver meus amigos e família, mas sei que é preciso passar por isso agora no início se eu quero ser jogador profissional, para depois quando eu tiver minha instabilidade financeira, trazer todos para perto de mim para não ter problemas com saudades’’, conta Pablo, que veio para o Rio de Janeiro jogar no Vasco da Gama por meio de um olheiro (saiba qual é a diferença entre olheiro e empresário de futebol).

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Categorias de Base: Uma das principais fontes de receitas dos clubes brasileiros


João Vitor Barros – 8º período

 

Categorias de Base: Uma das principais fontes de receitas dos clubes brasileiros

Os grandes clubes do futebol brasileiros vivem há muito tempo atolados em dívidas multimilionárias que seriam capazes de decretar falência a qualquer empresa comum em todo o país. Para se ter uma ideia, os quatros maiores clubes do Rio de Janeiro estão entre os primeiros entre as equipes mais devedoras. No futebol, porém, há uma ajuda por parte do governo no parcelamento desses débitos.

Por amor ao esporte ou como alternativa à pobreza e à violência, muitos garotos que começam suas trajetórias nos clubes por volta dos 10 anos de idade sonham com o dia que se tornarão jogadores de futebol profissional. Para os clubes de futebol, essas crianças pobres ou de baixa de renda com um talento grande nos gramados são vistas como joias a serem lapidadas nas categorias de base até chegar ao profissional. Muitas vezes, antes mesmo de estrearem no futebol profissional, esses jovens são vendidos para diferentes lugares no mundo, como uma forma de diminuir as dívidas que os times carregam.

Com essa rotina dos clubes de lapidar talentos, colocar para jogar e vender para outros times, os garotos das categorias de base atualmente têm em sua maioria a mentalidade de que não jogarão por muito tempo pela suas equipes formadoras. Mais do que chegar ao profissional, já faz parte do sonho dos garotos ser vendido logo, de preferência para algum país da Europa, local ele conquista a independência financeira e fica ciente que também ajudou o time que o formou.

Se o Fluminense resistiu ao mercado e manteve seus principais nomes para o ano de 2017, recusando ofertas até de clubes europeus, o mesmo não acontecerá na próxima janela de transferências internacional. Sincero, o diretor de futebol Alexandre Torres afirmou que faz parte do planejamento financeiro do tricolor das Laranjeiras a venda de atletas importantes para o clube em 2018.

“Hoje o futebol se faz com dinheiro. Se não tem dinheiro, não faz futebol. Certamente terá algum jogador que precisaremos vender. Vivemos uma época onde as informações são tão desencontradas que a gente tem de ser muito direto com o torcedor, não adianta querer enganá-lo”, afirma Alexandre.

Centro de Treinamento do Fluminense. Foto: Divulgação

Centro de Treinamento do Fluminense. Foto: Divulgação

Campeonato de Aspirantes

A Confederação Brasileira de Futebol anunciou quais serão os participantes do Campeonato Brasileiro de Aspirantes, cujo objetivo é realizar a transição de atletas das categorias de base para o profissional. São eles: Atlético-MG, Atlético-PR, Botafogo, Coritiba, Cruzeiro, Figueirense, Grêmio, Internacional, Santos e São Paulo. A ideia é que os clubes usem jovens sub-23 na competição, com a autorização para utilizar um goleiro e três jogadores de linha com idade acima da restrição. Outra limitação é que cada time poderá aproveitar no máximo seis atletas nascidos a partir de 1998.

O torneio é um projeto que a confederação tenta tirar da gaveta há alguns anos, mas que enfrentou resistência de clubes como Corinthians, Flamengo, Fluminense, Palmeiras, Ponte Preta e Vasco, seis equipes da primeira divisão que não disputarão a competição. O objetivo da federação em ter um campeonato disputado desta maneira é para os clubes brasileiros não perderem seus jogadores assim que estourarem a idade dos campeonatos de base, onde a maioria dos atletas não tem seus contratos renovados para subir ao profissional.

Com o apoio da maioria dos times, jogadores que achavam que seu sonho de ser jogador de futebol havia ido por água abaixo têm uma nova chance de mostrar o seu talento para seus respectivos clubes e, quem sabe, assinar um contrato com seu time que tanto defendeu nas categorias de base. Para Joanderson, este Campeonato de Aspirantes é um recomeço de carreira dele, pois depois de muitas lesões no São Paulo e no Cruzeiro, onde jogou profissionalmente, perdeu espaço e foi para o Internacional em campeonato não muito badalado.

“Desde que eu tinha 16 anos, me tratavam como uma promessa no São Paulo; assinei contrato, joguei duas partidas pelo time principal e fui emprestado em uma troca de jogador pelo Cruzeiro e, em Minas, foi onde comecei a me machucar muito. Vendo que eu podia não dar retorno no futebol e financeiramente para o clube, vim parar no Internacional, onde me deram esta nova oportunidade e onde vou abraçar o máximo para retomar minha carreira e quem sabe ajudar muito o time no Brasileirão”’, diz o atacante Joanderson, um dos craques do time do Internacional no Campeonato de Aspirantes.

Joanderson, um dos craques do time do Internacional. Foto: Divulgação

Joanderson, um dos craques do time do Internacional. Foto: Divulgação

No entanto, é possível destacar alguns problemas neste processo aqui no Brasil. Quando os clubes não possuem ou precisam de um jogador de determinada posição, geralmente buscam contratações com grandes salários, jogadores vindos da Europa ou jogadores em fase final de carreira. Neste ano, aqui no Campeonato Brasileiro, é perceptível a ocorrência relacionada a esses casos onde inúmeros jogadores foram contratados na tentativa de solucionar problemas diversos.

Jogadores talentosos que se destacam nas categorias de base dos clubes são deixados de lado em troca de um jogador “medalhão” com nome e que, muitas vezes, não consegue desempenhar o seu melhor futebol. Se as categorias de base objetivam formar atletas para o grupo profissional e o investimento ocorre neste sentido, por que não colocar os garotos constantemente nesta seleção? Além disso, diariamente podemos observar a indignação de todos com os gastos com os salários dos jogadores de futebol. Este seria um dos outros pontos favoráveis à utilização de jogadores da base que, com certeza, têm um custo bem menor em relação a jogadores consagrados que, muitas vezes, nem criam uma identificação com o clube e a torcida.

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João Vitor Barros – 8º período

 

 

Categorias de Base: O sonho de ser jogador de futebol e os principais campeonatos

As peneiras de futebol são “avaliações técnicas” realizadas por clubes e vêm se tornando um grande sucesso entre jovens talentos que procuram se lançar no mercado da bola, aumentando assim as chances de se tornarem grandes jogadores de futebol (Leia também: A difícil vida para se tornar jogador profissional). A enorme presença de jovens em peneiras de futebol é motivo de grande alegria para dirigentes e comissão técnica dos grandes e pequenos clubes do Brasil.

Os atletas chegam de todas as partes do país para participarem das peneiras de futebol. As avaliações são realizadas com embasamento técnico e são constituídos de até 20 treinamentos. Após as avaliações, os atletas aprovados iniciam treinamentos diários de segunda à sexta-feira. Em turmas mais adiantadas, os atletas treinam em dois períodos, somando nove treinamentos semanais que contam com treinos técnicos, táticos e físicos.

 

Cerca de 250 jovens entre 10 e 17 anos tentam a sorte de integrar as divisões de base do Fluminense. Apenas 40 deles são selecionados pelo grupo de captação. Foto: Divulgação / Fluminense

Cerca de 250 jovens entre 10 e 17 anos tentam a sorte de integrar as divisões de base do Fluminense. Apenas 40 deles são selecionados pelo grupo de captação. Foto: Divulgação / Fluminense

Todo o trabalho desenvolvido dentro das categorias de base dos clubes é voltado para  encaixar o jogador na equipe principal em um futuro próximo. A formação do atleta deve ser cuidadosa para prepará-lo, primeiramente, para atuar pelas categorias de base do time. Caso essa meta não seja atingida por algum motivo, os clubes têm internamente o conceito de que preparou e ofereceu uma formação de qualidade para o atleta se profissionalizar e atuar nos mais diversos mercados do futebol.

Apesar de possuir um objetivo amplo e comum, os clubes adotam a individualização do atleta como um dos princípios básicos. Cada jogador recebe atenção personalizada, de acordo com suas potencialidades e pontos de melhoria. Os times trabalham o processo de formação respeitando alguns conceitos estudados e bem definidos pelos profissionais que coordenam a parte metodológica da formação. Para eles, o jogador deve estar em sintonia com a história do clube e também dentro dos objetivos do trabalho atual de sua equipe. Dessa forma, não existe uma predisposição de captar jogadores somente do estado aonde o clube se localiza, e sim uma visão aberta de mercado: é importante primar pelas características técnicas do jogador, mesmo que seja de regiões distantes, e formá-lo dentro de um processo de desenvolvimento que respeite as características históricas do clube.

Os grandes clubes dividem seu processo de formação entre escolinhas de futebol espalhadas por todo o estado e categorias de base dentro do Centro de Treinamento. As duas fazem parte de uma mesma estrutura e se comunicam de forma que o processo seja interligado. As escolinhas são destinadas às crianças de 5 a 13 anos, pois ainda estão em processo de formação . Não existe ainda campeonatos da federação para essas idades.

“Nas escolinhas acontecem os primeiros ensinamentos. São trabalhadas questões de coordenação motora e relação com a bola. É muito mais um processo de descoberta de qualidades do que de competição. O clube promove e incentiva que os processos de treinamento para as escolinhas sejam em campos reduzidos e com equipes com menos jogadores’”, diz o coordenador da escolinha do Fluminense Guerreirinhos, Rodrigo Moreira.

Guerreirinhos, Escolinha de Futebol do Fluminense. Foto: Divulgação.

Guerreirinhos, Escolinha de Futebol do Fluminense, de onde saem alguns meninos que brilham em Xerém e defendem a camisa profissional do clube. Foto: Divulgação / Fluminense.

A partir dos 13 anos, os clubes já passam a tratar o jovem atleta como parte das categorias de base. Evidente, que nem todos os que participam da escolinha acabam integrando as equipes de base, porém a ideia é que ocorra essa transição. Após a formação inicial na escolinha, os clubes dedicam seus esforços para os sub 13, 15, 17 e 20, a chamada categorias de base.

Atualmente, os clubes contam com mais de 150 atletas nas categorias de base. Esse número de pessoas é divido em aproximadamente 30 por cada categoria e cada uma delas possui um objetivo e uma carga de trabalho de acordo com as especificidades da idade. Todas elas trabalham questões táticas e técnicas, individuais e coletivas, de acordo com uma metodologia desenvolvida dentro do clube que usa percentuais para determinar o tipo de trabalho a ser realizado em cada uma das categorias.

A partir do sub-15, os atletas começam a jogar campeonatos importantes pelos clubes, como a Copa Brasil Sub-15, que atende aos padrões oficiais da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Na Copa Brasil Sub-15, já participaram grandes equipes brasileiras e também equipes internacionais representando os Estados Unidos, Venezuela, Paraguai, Japão e Bolívia. Com isso, esses jogadores vão ganhando experiências até chegar no sub-17, que é quando começam os campeonatos de títulos nacionais, como a Copa do Brasil Sub-17. Neste último, as emissoras de televisão começam a transmitir os jogos e torcedores passam a conhecer os atletas. Em um desses campeonatos, o lateral esquerdo do Fluminense Matheus Mascarenhas se destacou e ganhou uma chance de mostrar seu futebol no profissional: jogou quatro partidas e marcou um gol.

“Estava em um treino contra o profissional. O professor Abel me chamou no canto e falou que já estava de olho em mim nos jogos que estavam sendo transmitidos na televisão. Fiquei surpreso e muito animado para ajudar o time em que estou há mais de 10 anos. Em uma dessas partidas, fiz um gol e passou um filme na minha cabeça: na hora chorei e vi que o sonho estava começando a se realizar”, conta Mascarenhas, que hoje joga pelo sub-20 do Fluminense para ajudar o time a conquistar mais um campeonato de base.

O campeonato mais importante das categorias de base é a Copa São Paulo de Futebol Junior onde 92 clubes, divididos em 23 grupos com quatro equipes cada na primeira fase, mostram suas promessas sub-18 e 20 sob olhares de treinadores, diretores, empresários e olheiros rivais (sabe qual é a diferença entre olheiro e empresário?). É a hora de garimpar a próxima joia rara que pode surgir no futebol brasileiro. A copinha todo ano chega cercada de uma expectativa que vem se transformando em realidade nos últimos anos.

O lateral-esquerdo Mascarenhas, em sua primeira participação como profissional. Há mais de 10 anos, o jogador defende o clube de coração. Foto: Instagram do atleta

O lateral-esquerdo Mascarenhas, em sua primeira participação como profissional. Há mais de 10 anos, o jogador defende o clube de coração. Foto: Instagram do atleta

Camisa 10, Brayan Nascimento, o Maestro, foi um dos destaques do bom time do Paulista na Copinha. Autor de gols e de vários passes para gol, o meia vê o sonho de ser jogador de futebol se tornar realidade.  O contrato com um dos maiores clubes do Brasil é a grande chance da carreira de Bryan, que fala com otimismo sobre a oportunidade até mesmo de poder atuar pelo time profissional. Nos últimos anos, o Flamengo tem aproveitado e dado chance aos jogadores vindos da base.

“Não é apenas um sonho meu, mas da minha família também. Um sonho realizado poder vestir a camisa do Flamengo, um clube gigante e com essa história, com a maior torcida do mundo. Espero representar da melhor maneira e honrar as cores do clube. Com certeza é a oportunidade da minha vida. O Flamengo vem dando cada vez mais importância para a base, vou me esforçar ao máximo no sub-20 e dar o meu melhor sempre para que, se um dia aparecer a oportunidade no profissional, eu esteja preparado da melhor forma possível”, disse o meia que está há cerca de oito meses no clube.

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Reportagem de João Vitor Barros / Videorreportagem de Lia Van Boekel.

Categorias de Base: A difícil vida para se tornar jogador de futebol no Brasil

Muitos meninos e meninas do Brasil enxergam no futebol um caminho de ascensão social e independência financeira. Inspirados em craques como Marta e Neymar, sonham com o dia que se tornarão jogadores profissionais. Mas a vida de jogador não é nada fácil no país e apenas uma pequena porcentagem alcança o sucesso e a estabilidade na carreira profissional.  A série Categorias de Base mostra o funcionamento dos times que treinam na base dos clubes brasileiros e a esperança de crianças e adolescentes de subir para o time profissional. A reportagem é assinada por João Vitor Barros e a videorreportagem é de Lia Van Boekel.

 

Quem acha que um jogador de futebol que consegue chegar até a categoria sub-20 (formada por atletas com idade inferior a 20 anos) já é um profissional está muito enganado. Na verdade, a possibilidade desses jogadores de categorias de base se tornarem profissional no Brasil é muito baixa. De trinta jogadores, no máximo seis são aproveitados no profissional. O futuro daqueles que estouram a idade do sub-20 e não têm condições de subir para o profissional não é nada glamouroso. Muitas vezes, eles têm seus contratos rescindidos ou são emprestados para times pequenos de Série B ou C até o contrato com o clube expirar.

Para mudar um pouco esse quadro, alguns clubes de Série A têm feito parcerias com times da Série B ou da mesma cidade, para que possam se enfrentar no campeonato estadual e o técnico do time veja se esses jogadores estão prontos para voltar ao clube e defender a camisa. Outros clubes preferem fazer parcerias com times europeus. Atualmente, o Brasil tem vários casos de jogadores que precisaram sair do clube – emprestados ou não – , para estourar profissionalmente e, posteriormente, conseguirem voltar a jogar em equipes de maior expressão. Este é o caso de Peterson, jogador do Fluminense que ficou quase dois anos na Eslováquia, onde o clube tem uma filial. No país europeu, ele se destacou, foi o artilheiro do campeonato e recebeu muitos elogios do técnico do clube formador, que pediu a volta do atleta para o tricolor carioca.

“Certamente é um projeto muito importante para nós jogadores, pois nos ajuda dentro e fora de campo. O projeto é tão fantástico que no ano que vem poderemos ver o Fluminense jogando a Liga Europa contra uma equipe que sair da Liga dos Campeões na fase de grupos. O projeto começou para fazer um ser humano melhor, para ser um jogador melhor. Os jogadores do Fluminense que vão pra lá, falam inglês fluentemente.”, afirma Peterson.

Clube eslovaco STK Samorin. Foto: Divulgação

Filial do Fluminense na Europa: clube eslovaco STK Samorin. Foto: Divulgação / Fluminense

O Fluminense tem a mais completa academia de formação de jogadores do Brasil. O trabalho da base do clube não termina em Xerém, no Rio de Janeiro. Pensando no desenvolvimento final dos jovens talentos, o tricolor criou um projeto mais amplo, que visa aperfeiçoar a molecada formada em casa. A criação de uma equipe filial do Fluminense na Europa é um projeto pioneiro dentro do mercado brasileiro de futebol. O STK Fluminense Samorin possibilita uma grande evolução e considerável vantagem competitiva no processo de captação, retenção, desenvolvimento, transição e exposição de atletas. O Flu-Europa contempla apenas jogadores formados em Xerém.

E, ao tratar de categorias de base, não se pode esquecer de um dos maiores formadores de jogadores do Brasil. O Santos já revelou para o mundo Diego, Robinho, Ganso e o craque Neymar, que hoje é um dos principais jogadores do mundo na atualidade. Para os profissionais do clube, é gratificante ver os “meninos da vila” saírem da Vila Belmiro para o mundo e se tornarem referência na Europa.

“O que nos torna um dos maiores formadores é que se você pegar nosso time principal, vai ver que a metade veio da categoria de base, como é o caso do Fluminense também, que a grande maioria subiu agora para o profissional. Ver esses meninos crescendo vale muito, pois vemos que o trabalho nas categorias abaixo é levado a sério e que, se vendermos um jogador para fora do brasil, podemos subir um menino que ele dá conta do recado.” , diz o vice-diretor de futebol do Santos, Luiz Simões.

Dos inscritos no campeonato de futebol mais disputado do mundo, a Champions League – onde todo atleta sonha em jogar –, 12 jogadores foram revelados na base do Santos e do Fluminense: sete e cinco atletas, respectivamente. Neymar e Thiago Silva jogam juntos no Paris Saint-Germain (PSG), um dos principais times a tentar levantar a taça, mas que tem o bicampeão do campeonato Real Madrid, do Marcelo, correndo atrás de um feito inédito: ganhar três vezes seguidas. Esses três atletas são os principais jogadores do mundo que foram revelados por Santos e Fluminense, conseguiram o sucesso na carreira e sonham um dia poder voltar a jogar pelo clube que o revelaram.

Leia as outras reportagens da série:

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Categorias de Base: A importância dos estudos para os jogadores

Categorias de Base: O futebol é para todos e para todas


Reportagem de João Vitor Barros / Videorreportagem de Lia Van Boekel.

Filme ‘Aos Teus Olhos’, com Daniel de Oliveira, é selecionado para o Festival de Havana

Por este longa, Carolina Jabor já recebeu o prêmio de melhor direção no 25º Festival Mix Brasil.

O filme “Aos Teus Olhos”, de Carolina Jabor (“Boa Sorte”), está na seleção oficial do 39º Festival de Havana (Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano), que ocorrerá entre 8 e 17 de dezembro. Protagonizado por Daniel de Oliveira, o longa concorre com outras 19 produções na categoria melhor longa-metragem de ficção e terá três exibições em Cuba: sábado, 9 de dezembro, às 15h e às 22h30 na sala Charles Chaplin, e domingo, 10, às 20h na sala Yara. A previsão de estreia no Brasil é abril de 2018.

Daniel Oliveira vive um professor de natação acusado de abuso no novo filme de Carolina Jabor

Daniel Oliveira vive um professor de natação acusado de abuso no novo filme de Carolina Jabor

Tratando de um tema atual como o ódio nas redes sociais, o filme já ganhou vários prêmios em festivais. Acaba de receber o troféu de melhor direção (Carolina Jabor) no 25º Festival Mix Brasil. Também conquistou o Prêmio Petrobras, destinado às produções nacionais, na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. E no 19º Festival do Rio o filme foi contemplado com os prêmios de melhor longa de ficção pelo voto popular, e melhor roteiro (Lucas Paraizo), ator (Daniel de Oliveira) e ator coadjuvante (Marco Ricca, como o pai do aluno) pelo júri oficial. “Aos Teus Olhos” também participou do 53º Festival Internacional de Cinema de Chicago, na mostra não competitiva “World Cinema”.

Na trama, Rubens (Daniel de Oliveira) é professor de natação infantil que um dia é acusado pelos pais de um aluno de ter beijado o filho deles na boca no vestiário da escola. Quando a acusação viraliza nos grupos de mensagens e redes sociais, mesmo as pessoas mais próximas a Rubens, como a diretora da escola e um colega de trabalho, ficam em dúvida sobre suas ações e intenções. O elenco reúne Marco Ricca, Malu Galli, Luisa Arraes, Gustavo Falcão, Stella Rabello, Pedro Sol e Luiz Felipe Mello.

A lista completa dos concorrentes no Festival de Havana está disponível no site: http://habanafilmfestival.com/seleccion-oficial-concurso-39-festival/

Disposição que não tem idade

Todos sabem que a atividade física é algo muito importante não apenas para manter o corpo em forma, mas principalmente para garantir que a saúde esteja sempre em dia. E se estar com o corpo em constante movimento é importante para os mais jovens, para quem está na terceira idade, se exercitar é uma forma muito eficaz para evitar a ociosidade e o cansaço do corpo.

O processo de envelhecimento é caracterizado por várias transformações progressivas e irreversíveis em função do tempo e pode ser observado não apenas no corpo, mas também na mentalidade e no modo de agir de cada um. Assim como profissionais de educação física, familiares e os próprios idosos devem manter esforços na busca de um envelhecimento bem-sucedido, que pode ser caracterizado por um equilíbrio entre o envelhecimento biológico e psicológico.

Equipamentos ao ar livre são usados para o exercício físico. Foto: Zahyr Neto / AgênciaUVA

Equipamentos ao ar livre são usados para o exercício físico. Foto: Zahyr Neto / AgênciaUVA

O envelhecimento para muitos é visto como o fim da vida, onde a pessoa idosa não tem mais condições de realizar com firmeza as tarefas que sempre executou, mas há também aqueles que tem uma vontade imensa de viver como o famoso caso de Robert Marchand, que bateu o recorde ao percorrer 22,547 quilômetros em uma hora aos 105 anos de idade.

A falta de oportunidade de praticar atividade física na terceira idade fazem com que os idosos desanimem ainda que tenham muita vontade de viver, e para essas pessoas a atividade física é um modo de mostrar que ainda são capazes de fazer coisas extraordinárias. A fisioterapeuta Alexandra Diniz é proprietária de uma academia de educação física no Rio de Janeiro e tem entre seus alunos alguns representantes da chamada “melhor idade”. Ela conta que alguns chegam desanimados e se dizem obrigados a estar ali, mas depois de algum tempo de exercícios todos se animam. É importante não apenas a dedicação em si, mas também a socialização entre eles durante as aulas.

“Eles conversam durante as aulas entre si e é muito legal ver essa troca entre eles. Cada um conta um pouco a sua história e eles vão se entendendo. Eles aproveitam a aula do início ao fim e os ajudam a ter uma velhice mais saudável e uma vida mais duradoura. Dentre os benefícios da atividade física na terceira idade temos a melhoria do bem-estar geral, a melhor condição da saúde física e mais importante, a preservação da independência, lembrando que a atividade física é uma das intervenções mais eficientes quanto à melhora da qualidade de vida dos idosos, pois auxilia no controle das mudanças ocorridas pelo processo de envelhecimento, promovendo a independência e autonomia nas atividades do cotidiano.”

Mas apesar de todos os seus benefícios, Alexandra ressalta é preciso ter cautela com os alunos que têm uma idade mais avançada. Ela afirma que sempre solicita uma consulta ao médico e ao cardiologista, para evitar quaisquer problemas de cansaço, fadiga ou espasmo muscular. Ela lembra de um dos seus alunos que teve um grave problema na academia durante um exercício de musculação e que atualmente se recupera de uma intervenção cirúrgica.

“Durante uma aula de musculação, ele acabou lesionando o ombro direito e após alguns exames, foi constatado uma ruptura no ligamento entre os tendões. Ficamos todos muito preocupados e serviu como um alerta aos colegas dele que as aulas têm os prós, mas também têm os contras e que a prevenção é o melhor remédio”, explica Alexandra.


Zahyr Neto – 8º período

Coletivos negros estudantis agem pela construção de uma nova identidade

O Dia da Consciência Negra – comemorado há mais de 30 anos por ativistas, mas que só passou a integrar o calendário nacional em 2003 e só foi oficializado por lei em 2011 – tem sido alvo de comentários e indagações a respeito de sua legitimidade. Entretanto, nos últimos anos, a internet e as redes sociais vêm expondo a necessidade da existência da data ao mostrar que o Brasil não é um país livre do racismo. E muito desta exposição se deve à ação de coletivos estudantis, que são grupos organizados por pessoas que se unem para debater e colocar em prática ações acerca de determinadas causa. Existem, por exemplo, coletivos feministas, LGBT’s, e negros, muitos deles formados em ambiente universitário, onde, geralmente, alunos e professores tendem a discutir e trabalhar temas de cunho social.

Um exemplo disso é o coletivo FaveLab, que teve sua festa de lançamento na última sexta-feira, 17, na Casa Coletiva, em Santa Teresa, no Rio, e contou com a participação de outros grupos negros. “O FaveLab é um laboratório de audiovisual que surgiu depois de encontros de amigos da faculdade, nos quais eram abordadas e discutidas situações vividas na periferia que causaram insatisfação”, explica o estudante de Publicidade Murilo Borges. O universitário também conta que, nesses encontros que originaram o grupo, todos sentiam um grande desejo de mudança. E, como havia estudantes de Publicidade, Jornalismo e Produção Cultural, surgiu a ideia de usar as especificidades e conhecimentos de cada curso, somados às experiências pessoais de cada um, para formar o coletivo.

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[foto: Reprodução do Facebook].

O jovem explica que a missão deles é produzir documentários, vídeos jornalísticos, web TV e rádio, vídeo clipes e filmes por meio do contato direto com as práticas artísticas e culturais da periferia. “A ideia é inserir a comunidade na construção de uma nova identidade periférica, que se distancia da visão hegemônica e negativa que é propagada pelas grandes mídias”, afirma Murilo, reafirmando a descrição do coletivo nas redes sociais: uma fábrica de sonhos.

Aliás, o evento de lançamento ilustrou bem a proposta do grupo, contando com exposições culturais de quadros fotográficos e telas de graffiti de diversos artistas, brechós, afroempreendedorismo e exibição de documentários e vídeos, como o clipe “Ou Some”, da Mamute Produtora, uma das parceiras do FaveLab. “É muito bom ver surgir espaços de reafirmação e valorização da cultura negra, da cultura periférica. Existem muitos grupos que vêm tentando derrubar este conceito de que favela é só pobreza e marginalidade, tem muita coisa boa também”.

E este tipo de movimento tem se propagado e se estabelecido. A estudante Juliana Vicente, 23, afirma que se surpreendeu com a dimensão do trabalho realizado por estes coletivos. “Eu fui à festa de lançamento para saber como era o trabalho que eles fazem, e, confesso que tem muito mais do que eu esperava”, conta. Já a universitária Helen Almeida, 21, destaca a importância de grupos e espaços para debate sociais e ações afirmativas. “Tudo que é feito visando o empoderamento de um grupo, seja de negros, de mulheres, de LGBT’s, vale a pena e deve ser incentivado”.

AÇÕES PARA A CONSCIENTIZAÇÃO

Enquanto muitos ainda questionam a legitimidade do Dia da Consciência Negra, vários grupos, como o “Geledés – Instituto da Mulher Negra”, tem publicado ao longo do mês de novembro uma série de matérias e textos acerca da importância da data. Um dos destaques é o artigo “O Mês da Consciência Negra e a Representatividade na TV”, escrito pela jornalista Ana Cláudia Mielke para o portal Intervozes. “Silêncio dos canais comerciais sobre tema ao longo de novembro reforça importância da comunicação pública para promoção da diversidade racial na mídia”, Mielke escreve no começo do texto.

Até mesmo sites de entretenimento, como o Buzz Feed Brasil, apresentou duas matérias complementares a respeito do tema. Em “21 Pessoas Contam em que Momento Perceberam que eram Negras”, há uma compilação de relatos de pessoas sobre o incidente que fez com que elas percebessem que teriam de lidar com o racismo diariamente. Em uma das histórias, por exemplo, Iris Abrantes conta que, aos cinco anos, na escola particular em que estudava, ouviu a frase “Não brinque com eles! Eles são pretos!”.

Já em “18 Pessoas Contam em que Momento Perceberam que eram Brancas”, foram coletados depoimentos de diversos indivíduos sobre a ocasião em que perceberam o privilégio social que possuem somente por serem brancos. Entre estes relatos, um dos que mais chamam atenção conta como uma mulher branca, que preferiu não se identificar foi pega roubando: “Eu fui detida em flagrante e dentro da viatura os policiais me orientaram a inventar uma desculpa para não ser presa”.


Daniel Deroza – 6º período

Escritores negros da periferia resistem e contam as suas histórias

Mídias sociais auxiliam politicamente a artistas da literatura marginal que hoje têm mais voz.

O enredo de 2017 da escola de samba Renascer de Jacarepaguá contou a história da escritora Carolina Maria de Jesus. Mulher, negra e favelada, catava papéis para sustentar a família. Moradora do Canindé, periferia de São Paulo, escrevia contos, crônicas, romances e poemas nos cadernos encontrados pelas ruas. Carolina não imaginava que seria descoberta por um jornalista, em 1958, nem que seriam publicados aqueles textos escritos em folhas descartadas. Muito menos vislumbrou que seus livros, como o “Quarto do Despejo”, alcançariam projeção internacional. O conteúdo dessas obras é inspirado em uma vida apartada.

A vivência de Carolina faz com que outros autores negros artistas se identifiquem com ela. Eles sofrem com o cotidiano de uma marginalização histórica. Esnobadas por grandes editoras e elites socioeconômicas, suas produções se configuram como uma alternativa em relação aos escritores privilegiados e ao mercado editorial de grande circulação. As obras de pessoas de fora do centro – no sentido social, econômico ou territorial – foram batizadas de literatura periférica ou marginal. As mídias sociais auxiliaram politicamente os artistas negros do gênero, que hoje têm mais voz e não querem a elite branca relatando por eles as suas histórias na favela.

Louise Queiroz tece vivência em seus escritos. Foto: Arquivo pessoal

Louise Queiroz tece vivência em seus escritos. Foto: Arquivo pessoal

Os artistas da periferia desejam criar poemas com a propriedade que possuem. Como faz Louise Queiroz, 24 anos, moradora da periferia de Salvador. Para a poetisa, é importante definir de onde vem o escritor, o que defende e quem representa. Sobre o quanto de sua vida está presente em suas obras, apropria-se das palavras da escritora Conceição Evaristo: “O que faço é ‘escrevivência’ plasmada em versos”. A vivência de Louise como mulher negra lésbica está tecida em sua escrita, e o que vê ou ouve ecoa internamente e resulta em poema.

Os versos surgem quando menos ela espera. Incomodam quando, no meio da noite, não a deixam voltar a dormir. Rolar na cama de um lado para o outro, à procura de uma posição que relaxe o corpo, não elimina a ansiedade mental para pôr nos papéis o que amarrotou os lençóis. “Mas isso não anula o fato de que escrever poesia é sim um lutar com palavras. Não é só derramar os versos no papel e pronto. É trabalho, é cuidado, é busca”, exorta Louise, que já teve poemas publicados na coletânea poética “Enegrescência” e nos “Cadernos Negros Volume 39 – Poemas Afro-Brasileiros”.

A série antológica de livros é composta por contos e poemas de autores negros de todo o Brasil. A editoração e o lançamento são realizados de modo independente pelo coletivo de escritores Quilombhoje. Os participantes de cada volume anual arcam com uma parte dos custos, enquanto a venda das obras dá conta da outra parcela. O preço para venda do livro é acessível: a partir de R$ 15. Com tiragem de mil exemplares, as mais recentes edições têm se esgotado no prazo de um ano.

Sobre o processo seletivo para entrar para os “Cadernos Negros”, os escritores enviam contos e poemas, sob um pseudônimo, e recebem orientação de críticos e opiniões de leitores. A partir disso, os artistas podem trabalhar os textos antes que sejam publicados. Todo volume é lançado em um grande evento realizado no fim do ano. Os lançamentos têm como diferencial a dança, a música e outras performances artísticas.

Bruno Gabiru considera suficiente se definir apenas artista negro, não como periférico. Foto: Arquivo pessoal

Bruno Gabiru considera suficiente se definir apenas artista negro, não como periférico. Foto: Arquivo pessoal

Quem também teve escritos no último volume da antologia foi Bruno Gabiru, jovem negro de 27 anos da periferia de São Paulo. O interesse dele por leitura e escrita surgiu quando teve uma banda de hardcore-thrash, logo depois da adolescência. Como sua tarefa era compor, precisava ampliar o repertório. Mais tarde, ele foi ilustrador e contista de um site que tinha a proposta de publicar literatura fantástica. Entretanto, Solano Trindade foi quem começou a amadurecer seu estilo, e o Volume 13 dos Cadernos a solidificá-lo.

As referências de Gabiru, portanto, são artistas e intelectuais negros. Ele sabe a importância de conhecer aqueles que abriram caminho para conquistas sociais que o beneficiam. A partir disso, reconhece sua negritude e repensa sua masculinidade. “Ao me afirmar como artista negro, penso numa reconstrução de mim. Vejo a escrita como forma de cura e mudança que exige tempo daquele que lê e daquele que escreve”. Contudo, ele não aceita o rótulo de periférico. Considerar-se artista negro é o suficiente.

Afinal, se eu ascender socialmente, deixarei de ser periférico, mas não de ser negro.

Esses termos ou rótulos são debatidos com frequência. A literatura marginal das décadas de 1960 e 1970 tinha um conteúdo de resistência tanto ao regime militar quanto ao mercado editorial burguês. Entretanto, não vinha da favela. O que se conhece hoje como literatura periférica foi alcunhada por Ferréz, autor de “Capão Pecado”. O gênero define vozes de pessoas à margem social, econômica ou territorial. Há uma parcela de escritores e estudiosos negros que recusam essa denominação, devido a estigmas ou por defenderem que vem de quem tem poder.

Segundo Cristiane Sobral, a indústria cultural não abraça os escritores negros. Foto: Ricardo Pacheco / Divulgação

Segundo Cristiane Sobral, a indústria cultural não abraça os escritores negros. Foto: Ricardo Pacheco / Divulgação

É o que pensa a escritora e atriz Cristiane Sobral, mestre em teatro pela Universidade de Brasília (UnB) e ganhadora do Prêmio FAC (Fundo de Apoio à Cultura) 2017 Culturas Afro-Brasileiras. “Queremos existir além dos estereótipos. Para entender as margens é preciso observar o movimento que oprime desde os grandes centros, na lógica capitalista”. Ela crê que a indústria cultural não abraça os autores negros. “Lutamos para existir como escritores em um país onde quem mais publica são os homens, brancos, de elite”, desabafa a autora de “Terra Negra”.

O racismo, de fato, é institucionalizado. Presente em todas as esferas e setores da sociedade. Na indústria editorial não seria diferente. O negro hoje está produzindo muito conteúdo reflexivo sobre seu papel, problematizando nuances do preconceito que foram veladas ou naturalizadas. Para as elites, o espaço dele é na subalternidade e o seu tempo apenas dedicado a alimentar dons artísticos. Todavia, o negro pensa e sabe falar. Sobretudo quer escrever o que percebe, questiona e vive.

Essas discussões estão presentes em textos publicados por editoras independentes. O escritor e pesquisador Márcio Barbosa acredita que o Quilombhoje, do qual é um dos coordenadores, e outros grupos e editoras de conteúdo afro são eficientes meios de propagar sentimentos originados pela vivência e ideias empoderadoras. “Acho que não é pretensão dizer que o movimento de literatura periférica foi precedido pelos ‘Cadernos Negros’, que mostraram, por um lado, que é possível ser universal falando a partir de ‘seu lugar’”.

Bruno Black assinando 'Perdas e Ganhos' para uma leitora na Bienal deste ano. Foto: Rede social

Bruno Black assinando ‘Perdas e Ganhos’ para uma leitora na Bienal deste ano. Foto: Rede social

É o que faz o poeta Bruno Black. A poesia dele pode contar o cotidiano vulnerável da favela, como também é provável que não fale especificamente sobre isso. “Ao realizar meu processo, olho para mim”. Ele faz isso há 18 anos. Carioca, morador da favela do Batan, em Realengo, aos 36 anos, se deu conta de que sua atuação como artista foi além dos versos. Depois de um ano vivendo como poeta, percebeu que era um “produtor cultural”. O autor de “Poético” é um dos idealizadores do coletivo Descabelados, que nasceu na Zona Oeste do Rio. Organiza saraus, oficinas e programas de rádio.

O público beneficiado pelos trabalhos do poeta é diversificado. Conquista pessoas que não sabe de onde vêm. Ele sabe que no Rio de Janeiro não vivem as pessoas que mais compram seus livros. De fato, em um evento como a 18ª Bienal Internacional do Livro Rio, os fluminenses não seriam os únicos a obter os escritos dele. O autor lançou no penúltimo dia de evento a obra “Perdas e Ganhos”. “Foi a melhor bienal da minha vida. As pessoas comprovaram o quanto respeitam e gostam da minha arte. Pararam a rua em que eu estava no evento. Isso foi um marco”, relata emocionado.

Fabiano Cunha, que se identifica com o conteúdo da literatura periférica. Foto: Rede social

Fabiano Cunha, que se identifica com o conteúdo da literatura periférica. Foto: Rede social

Black ainda percorre os bairros de sua cidade, sobretudo os da Zona Oeste, que acredita ser um celeiro de dons. As mensagens que recebe dos leitores por meio das redes sociais são calorosas. Inclusive, ele é muito ativo no Facebook e no Instagram, divulgando o que semeia em eventos ou em aulas dadas nas escolas. “Eu ando mais impactado do que impactando pessoas”, revela o escritor.

A Zona Oeste é também um celeiro de fãs desse autor, já que Fabiano Cunha, 26 anos, considera Bruno Black um de seus autores periféricos prediletos. Para o bombeiro civil, a escrita é familiar e a abordagem da realidade mais direta, se comparadas a publicações de grandes editoras. “A maioria dos escritores periféricos tende a produzir sua literatura como um grito de arte que, não cabendo dentro de cada um deles, passa para o papel de uma forma mais brusca e rudimentar”.

O grito artístico citado por Fabiano pode se materializar em performances cênicas e musicais. Leituras bem interpretativas de poesia estão presentes nos saraus de literatura negra e em outros eventos ligados ao gênero. Alguns textos são cantados para uma audiência sedenta por arte representativa. São vidas faladas, encenadas e cantadas. A carga literária periférica das músicas, sobretudo do rap, é identificada nos versos construídos pela percepção das vivências.

O b-boy e rapper WP participa de eventos com temática periférica desde 2012. Foto: Jefferson Alves e Bruno Black

O b-boy e rapper WP participa de eventos com temática periférica desde 2012. Foto: Bruno Black

O b-boy WP (Wanderson Pereira), 24 anos, reafirma essa ideia. Ele é fã dos poetas marginais influenciados pela cultura hip hop e faz também rap. O jovem explica que este gênero musical aqui no Brasil é “realidade através de palavras”. WP participa de encontros com temática periférica desde 2012 e acompanha amigos poetas marginais que expõem. Assim, não se interessa por livros de grande circulação. “Cada escritor ou MC tem meio que um ‘ritual’ para manter sua linha de trabalho. Como que de certa forma, ao fugir do tradicional, venha a manter a originalidade, obtendo destaque”.

Para Paulo Patrocínio, a subjetividade pode ser construída pela leitura das obras. Foto: Arquivo Pessoal

Para Paulo Patrocínio, a subjetividade pode ser construída pela leitura das obras. Foto: Arquivo Pessoal

O que hoje, de fato, ajuda a evidenciar produções artísticas e temas que precisam de problematização são as mídias sociais. Os escritos negros de origem periférica têm a chance de atingir seu público. Essa maneira alternativa e independente de divulgar pode constituir um perfil de leitor por meio da identificação imediata dele com o conteúdo. Entretanto, as possibilidades vão além, segundo o doutor em letras pela PUC-Rio e autor do livro “Escritos à margem, a presença de autores de periferia na cena literária brasileira”, Paulo Roberto Tonani do Patrocínio. “A subjetividade pode ser formada a partir da leitura das obras, no contato com as questões que orientam as narrativas ou os textos poéticos”.

Portanto, é possível que as pessoas construam a identidade delas como negras ou periféricas após lerem poesias, contos, romances ou crônicas criadas por homens e mulheres pertencentes a tais grupos étnicos e sociais. Esse tipo de literatura constitui uma alternativa por não ser um gênero hegemônico ou massivo. É um estilo que carrega sentidos históricos e humanos e que até constrói um reconhecimento estético negro positivo em quem a lê. Os escritores foram postos à margem pelo sistema. A visibilidade e apelo popular são modestos se comparados aos grandes escritores. Contudo, como diz Bruno Black, “se tens um dom, seja!”.

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Jefferson Alves – 6º período

‘No intenso agora’, de João Moreira Salles, ganha prêmio de melhor filme na Colômbia

Documentário também será exibido no Festival Internacional de Documentários de Amsterdam.

Cartaz do documentário

Cartaz do documentário “No intenso agora”. Divulgação

O documentário “No intenso agora”, de João Moreira Salles, acaba de ganhar o prêmio de Melhor Filme Internacional do Festival de Cali, Colômbia. O filme já foi premiado nas Américas, na Europa e na Ásia. “No Intenso Agora”, que está em cartaz no Brasil, também é finalista do Prêmio Fênix, que homenageia os melhores profissionais da indústria cinematográfica da América Latina, Espanha e Portugal, uma espécie de Oscar ibero-americano. A cerimônia acontecerá no início de dezembro, na Cidade do México.

Desde sua estreia no Festival de Berlim, o documentário já participou de mais de 20 festivais. E, na próxima segunda, 20 de novembro, o longa estreia na Mostra Masters do IDFA (Festival Internacional de Documentários de Amsterdam), considerado o festival mais importante do mundo destinado ao gênero.

“No intenso agora” é narrado em primeira pessoa e reflete sobre o que revelam quatro conjuntos de imagens da década de 1960: os registros da revolta estudantil francesa em maio de 1968; os vídeos feitos por amadores durante a invasão da Tchecoslováquia em agosto do mesmo ano, quando as forças lideradas pela União Soviética puseram fim à Primavera de Praga; as filmagens do enterro de estudantes, operários e policiais mortos durante os eventos de 1968 nas cidades de Paris, Lyon, Praga e Rio de Janeiro; e as cenas que uma turista – a mãe do diretor – filmou na China, em 1966, ano em que se implantou no país a Grande Revolução Cultural Proletária.

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Rio de Janeiro, 1968. Foto: Eduardo Escorel

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Muralha da China. Foto: Divulgação

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China. Foto: Divulgação