Limpo, preciso, porém preguiçoso

223080-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxÉ interessante observar atores e atrizes que seguem outros caminhos além da vida diante das câmeras, como diretores, produtores e roteiristas. Por exemplo: Mel Gibson, Matt Ross, Angelina Jolie, Leonardo DiCaprio e por aí vai. Mas dessa vez, a bola está com o Ben Affleck.

Bastante conhecido não só por atuar, mas também por ter dirigido “Argo” (vencedor de Melhor Filme e Melhor Roteiro adaptado no Oscar de 2013) e roteirizado o “Gênio Indomável” (Vencedor de Melhor Roteiro Original e Melhor Ator Coadjuvante no Oscar de 1998), Ben assumiu o posto do longa “A Lei da Noite”. Talvez o maior desafio da carreira, trabalhando como diretor, produtor, roteirista e ator.

Este filme é uma adaptação do livro “Os Filhos da Noite”, escrito por Dennis Lehane, e se passa na década de 1920, nos Estados Unidos. Na época, a Lei Seca estava sendo implementada no país e a venda de bebidas alcóolicas passou a ser feita apenas por mafiosos. Joe Coughlin (Ben Affleck) é um fora da lei que se envolve com o crime organizado, rodeado de dinheiro e poder ele precisa arcar com as consequências que podem levá-lo à prisão ou até mesmo a morte.

Não tem como não dizer que são expressivos a ideia e o visual que foram implantados dentro do longa. A direção é simples e precisa. Em termos fotográficos, a paleta de cores ficou de acordo com o que pedia. Exceto que, em algumas cenas era algo que já tinha sido usado bastante. Com uma vaga originalidade, a produção não surpreende o espectador nesse aspecto.

Infelizmente, os acontecimentos do filme não tiveram o timing para abordar o tema de maneira dinâmica, como aconteceu em “Argo”, quando era fácil se familiarizar com o momento em que os personagens estavam passando. Em “A Lei da Noite”, foi mais difícil ter compaixão com os personagens. Nem todos os atores pareciam estar à vontade com o papel que exerceram. Os que poderiam ter mais tempo de tela, agradaram, e os que tiveram, não convencem em cena.

Entretanto, no meio do palheiro, há uma agulha, e ela se chama Elle Fanning. Talvez, tenha sido a atriz que mais se entregou e valorizou a interpretação. Entre personagens principais, a coadjuvante Loretta Figgis, apareceu no meio do filme e virou tudo de cabeça para baixo. E no bom sentido, com uma bela apresentação do papel, dando vida nova ao longa.

LIVE BY NIGHT

Ao contrário de Ben Affleck que não se sai bem, fazendo com que todos percebam que ele não foi tão feliz com o novo projeto. Não é nada fácil atuar, dirigir, produzir e escrever ao mesmo tempo. E tudo para o mesmo trabalho. Basicamente, a única coisa que faltava, era ser uma obra original. Mas se Affleck tivesse percebido que não estava dando conta, poderia ter pedido para alguém o substituir em alguma posição.

Finalizando, o roteiro do longa foi preciso quando decidiu envolver a história com referências da época. Isso é bastante importante, porque além de tentar conquistar o público com a ficção, ao mesmo tempo, também sustentou a trama com diálogos que abordavam fatos históricos A tentativa foi válida, e apesar de tropeços, o filme é bem-sucedido. O longa é divertido, mesmo quando não precisava, porém, contém boas cenas de ação que certamente irão entreter o público.


Lucas Monteiro- 3º Período

Passando da dose

051881-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxQuando os primeiros trailers de “A Cura” chegaram à internet, a expectativa de surgir uma nova “Ilha do Medo” foi criada. A proposta do longa é até bem parecida, mas a execução esbarra em um velho inimigo dos filmes hoolywoodianos, a insistência em repetir a mesma informação diversas vezes para que o mais burro dos espectadores entenda o que está sendo contado. O problema, é que essa teimosia acaba cansando, e até mesmo irritando, aqueles que procuram por uma boa história.

Contextualizando, Lockhart (Dane DeHaan) é um jovem e ambicioso investidor de Wallstreet que só pensa em trabalhar. Depois de problemas com a justiça, ele é enviado para nos Alpes Suíços com a missão de trazer de volta o CEO da empresa, Pembroke (Harry Groener), para os EUA. O problema é que depois de um acidente, ele acaba sendo internado justamente no hospital/spa que seu chefe está internado. A instituição realiza os procedimentos a base de uma água purificada, que eles acreditam ser a cura para todos os males humanos. Com o tempo, o protagonista acaba duvidando da própria sanidade e descobre a verdade por trás do misterioso lugar.

O primeiro ponto que deve-se destacar no longa é a incrível estética adotada pelo diretor Gore Verbinski (“O Chamado” e “Piratas do Caribe”). Com uma simetria fotográfica à lá Stanley Kubrick em “O Iluminado”, “A Cura” impressiona com cenas extremamente belas, explorando toda a beleza dos Alpes. A história tem uma premissa muito boa e que, pelo menos até a metade do filme, é bem contada.

O diretor passa todo o primeiro ato do longa apostando mais na imagem, deixando que ela conte a história sozinha e fazendo com que o espectador tenha que raciocinar para entender o que está acontecendo. O problema é que depois da metade do filme, as mesmas coisas são repetidas diversas vezes, em uma tentativa de ter certeza que ninguém esqueceria o que está sendo contado. Essa postura acaba alongando muito a narrativa, que por si só já é muito grande (2h30min) e afeta muito a experiência de ver a obra, fazendo com que o público acaba ficando com a sensação de: “ah, se o filme fosse 30 minutos mais curto… Seria tão melhor…”.

Um filme que tinha a fotografia digna de Kubrick, uma premissa parecida com a de “Drácula” e um potencial para ser o próximo “A Ilha do Medo”, acabou pecando por querer se explicar muito. Ao que parece, os produtores americanos ficaram com medo de o longa ter o mesmo resultado de “A Bruxa”, que foi sucesso entre os críticos, mas odiado pelo grande público. A pena, o cinema perdeu uma grande história.


Iago Moreira- 7º Período

Não mexa com quem está quieto

john-wick-posterDepois de passar um bom tempo aposentado, o mercenário mais temido do cinema atual voltou ao jogo. Em “John Wick – Um Novo Dia para Matar”, o matador de elite terá que cumprir com um antigo trato e sujar as mãos de sangue mais uma vez. Muitos se perguntaram se a continuação foi realmente bem feita ou se era só para faturar uma graninha extra para os produtores hoolywoodianos. E a resposta veio em forma da nota extremamente boa da crítica internacional.

É inegável a evolução técnica do novo capítulo da saga. A direção de Chad Stahelski soube dar o toque necessário que a história precisava. Velocidade nos momentos de ação e calma nos necessários. Como já era de se esperar, o filme é recheado de cenas de lutas. Boas cenas de lutas. Contudo, algumas pessoas podem estranhar esses takes porque o diretor preferiu dar um tom mais verossímil a esses momentos, deixando a troca de socos um pouco mais lenta do que os habituais combates do cinema americano.

Falando nas cenas de luta, Keanu Reeves, que interpretou o papel principal, se saiu muito bem. O ator mostrou grande desenvoltura nos combates, com destaque para o seu afiado jiu-jitsu. O artista também se preparou muito para os takes de troca de tiro, chegando até a atualizar as redes sociais constantemente com vídeos participando de treinamentos táticos das forças armadas.

Além de Keanu, Ian McShane, Lance Reddick, Common, Ruby Rose e Laurence Fishburne também se destacam na atuação, com destaque para o último, que tinha em suas falas, passagens relembrando “Matrix”, filme no qual contracenou com Keanu Reeves. O roteiro, cheio de referências ao primeiro filme, é bem feito, divertido, empolgante e não deixa pontas soltas.

No fim das contas, “John Wick – Um Novo Dia para Matar” é um ótimo filme de ação, principalmente em tempos onde a maioria dos longas são arrastados e previsíveis. No final, a obra ainda sugere que a saga do mercenário mais sanguinário do cinema vai continuar, que por um lado pode ser considerado um alívio para quem gosta do gênero, mas como também pode ligar um alerta de preocupação, atentando para que a história não vire só mais uma franquia que só visa o dinheiro. Fica então a torcida para que o nome do “Sr. Wick” seja honrado.


Iago Moreira- 7º Período

Diversão para todas as idades

226855-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxUltimamente, a vida do Batman não está nada fácil nas telonas. Depois de protagonizar uma das melhores trilogias de histórias de heróis já feitas no cinema (saga “Cavaleiro das Trevas”), o homem morcego estrelou dois blockbusters – “Batman v Superman” e “Esquadrão Suicida” –, que mesmo faturando muito, muito mesmo, nas bilheterias, foram sumariamente criticados. Todavia, quando menos se espera, eis que surge “LEGO Batman: O Filme”, um oásis no meio de um grande deserto.

Depois do sucesso de “Uma Aventura LEGO”, os bonequinhos de montar voltam às telonas com uma história magnífica do herói de Gotham. A obra não se sobressai só por criar uma boa trama original. O que mais se destaca no longa são as dezenas de referências aos antigos Batman. De 1960 à 2016 nada escapou. De Adam West e seu personagem pastelão ao solitário Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. Dos lendários desenhos de Bruce Timm ao super tecnológico “BvS”. Tudo, tudo mesmo, foi lembrado na animação. Inclusive o ilustre Robin.

O fiel escudeiro do Batman é peça chave da nova história. Contextualizando, o extremamente egocêntrico Bruce Wayne acaba se envolvendo em grandes problemas com o Coringa depois de, aparentemente, não dar todo o amor, ou melhor, ódio que o vilão merecia. Paralelamente a isso o herói ainda tem de lidar com a aposentadoria do comissário Gordon, que deu seu posto a sua filha Barbara Gordon, e com conflitos pessoais relacionados – como sempre – a perda de seus pais, que leva o protagonista a se perguntar se deve ou não adotar um órfão. A conclusão dessa última dúvida todo mundo já sabe.

Com o time escalado para escrever a história, ficou claro que o roteiro iria fundo nas piadas jocosas, mas, por sorte, nada apelativas. Os responsáveis já trabalharam em filmes como “Detona Ralph”, “Bettlejuice 2” e “Frango Robô”, todos muito engraçados. Nesse novo conto, tudo é motivo para fazer graça e transforma a premissa simples, em uma trama divertida e inteligente.

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A direção também merece destaque. Chris McKay, que também trabalhou no primeiro sucesso da franquia LEGO nos cinemas, consegue capturar o lado sombrio de Gotham e, ao mesmo tempo, dar um toque de vida e alegria que a trama precisa para se desenrolar. O único ponto não tão legal da obra são as cenas mais frenéticas de ação, que tem tanta informação em tela que quase não dá para entender o que se passa. Mais parece um take de luta de “Residente Evil”.

A dublagem brasileira foi digna de aplausos. Duda Ribeiro (Batman), Marcio Simões (Coringa), Julio Chaves (Alfred), Guilherme Briggs (Super-Homem) e tantos outros profissionais da área fizeram um trabalho belíssimo e conseguiram adaptar todas as piadas do roteiro para a realidade brasileira. No fim das contas, “LEGO Batman: O Filme” é um filmão, que com certeza irá agradar a todos os públicos. Do mais velho ao mais novo. Do esportista ao nerd. Não há quem resista a história do homem-morcego, pelo menos quando ela é bem contada.


Iago Moreira – 7º Período

Turbilhão de emoções

324822-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxQual será o resultado de um produto cinematográfico feito por um diretor acostumado a trabalhar em produções televisivas? Na maioria das vezes o filme se mostra pobre e sem o toque artístico que o cinema precisa. Mas esse não é o caso de “Redemoinho”, de José Luiz Villamarim, consagrado por comandar novelas como “Avenida Brasil” e “Paraíso Tropical” e a série como “Justiça” e “Amores Roubados”.

Diferentemente do recorte de televisão, o diretor soube usar muito bem a linguagem poética para contar uma história. Aliado a participação de luxo de Walter Carvalho na fotografia, Villamarim soube fazer uma obra digna de aplausos. Muito curta, é verdade, mas ainda sim interessante e que consegue prender a atenção do expectador, seja pelas ótimas atuações ou pelos enquadramentos de tirar o folego.

Contextualizando, “Redemoinho” – que é baseado no livro “O Mundo Inimigo- Inferno Provisório Vol. II”, de Luiz Ruffato – conta a história de uma dupla amigos, Luzimar (Irandhir Santos) e Gildo (Júlio Andrade), que depois de muito tempo separados, se reencontram na véspera de natal e relembram fatos do passado. Os bons e os ruins.

Gildo e Luzimar tomaram caminhos diferentes depois da infância. Enquanto este permaneceu na pacata cidade interiorana de Cataguases, aquele foi para São Paulo. O reencontro evidencia as diferenças comportamentais de cada um, mostrando o que eles tem de melhor e pior. Um fato importante é que esse recorte de tempo é na véspera de natal e os dois personagens tem de lidar com situações individuais com suas próprias famílias.

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A história da obra é muito simples, muito mesmo, tanto que muitos críticos de cinema reclamaram que era melhor ter feito um média-metragem, para dar mais ritmo. Todavia, a linguagem poética escolhida por Villamarim e os recortes fotográficos feitos por Walter dão compensam os furos do roteiro de George Moura.

Outro ponto que vale a pena ser exaltado são as atuações. Irandhir Santos ganhou o prêmio de melhor ator do Festival do Rio (empatado com Júlio, mas este ganhou por seu desempenho em “Sob Pressão”), mas o real destaque do elenco são as mulheres, principalmente Dira Paes (dando vida à Toninha, mulher do Luzimar) e Cássia Kis Magro (se passando por Marta, mãe do Gildo). As atrizes encarnam personagens submissas aos homens – o que retrata a realidade machista que persiste em existir no Brasil – e conseguem transmitir todas as dores internas para o público, mesmo em cenas que não há falas. Fechando as contas, “Redemoinho” é uma bela obra, com alguns erros é verdade, mas que impressiona em diversos momentos e se redime pelos equívocos.


Iago Moreira- 7º Período

Muito acima da média

561631-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxHá muitas décadas, filmes que abordam especificamente o período da adolescência da vida de uma pessoa tendem a ter tramas superficiais, personagens caricatos, diálogos rasos e direção mecânica, mas este não é o caso de “Quase 18” (“The Edge Of Seventeen”), comédia dramática da diretora estreante Kelly Fremon Craig – que também assina o roteiro –, estrelada por Hailee Steinfeld, e que tem a qualidade de produção atestada pelas mais de 20 indicações e quatro vitórias na mais recente temporada de premiações, iniciada no ano passado.

O longa conta a história de Nadine, uma jovem de 17 anos que vive com a mãe egocêntrica, Mona (Kyra Segwick), e o irmão popular, Darian (Blake Jenner), após a morte do pai, há cinco anos. Nadine é a personificação de um socially awkward, uma adolescente falastrona, que é muito madura para algumas questões e muito infantil para outras, com dificuldade de socialização, que ainda não encontrou sua tribo por achar que todos os jovens ao redor são idiotas, e tem uma queda pelo badboy Nick (Alexander Calvert).

A única amiga de Nadine é Krista (Haley Lu Richardson), porém a relação das duas é abalada quando esta começa a namorar Darian. Quando se vê sozinha no difícil universo pós-puberdade, Nadine começa a se aproximar do jovem deslocado Erwin (Hayden Szeto) – um aspirante a cineasta tímido que não consegue esconder a atração que sente por Nadine – e do professor de História Bruner (Woody Harrelson em uma de suas especialidades: personagens cínicos e irônicos).

A principal diferença entre “Quase 18” e outros filmes que retratam a adolescência é a maneira como esta fase da vida é retratada. Aqui, não há a superficialidade e o exagero aos quais o público está acostumado. O roteiro é bem estruturado e a direção precisa de Craig dá tanto pulso e naturalidade à narrativa que a câmera simplesmente desaparece, fazendo com que o espectador assuma um papel de voyeur, que espia, indetectável, alguns dias da vida de uma jovem comum – os mais de dez prêmios aos quais Kelly Fremon Craig foi indicada na temporada foram, sem dúvida, merecidos.

THE EDGE OF SEVENTEEN

(Left to Right) Blake Jenner and Haley Lu Richardson in THE EDGE OF SEVENTEEN

O roteiro realista e dinâmico, aliado ao elenco afiado e a uma cinematografia intimista de Doug Emmett, torna a experiência ainda mais libertadora– e muito disso se deve à interpretação segura e versátil de Hailee Steinfeld, que ganhou notoriedade ao redor do mundo ao ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante aos 14 anos pelo arrebatador “Bravura Indômita”, de 2010, e que, em 2016, foi merecidamente indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia ou Musical, além de seis indicações e um vitória em outras premiações.

Em suma, “Quase 18” é uma “dramédia” divertida e sensível sobre amadurecimento e crescimento pessoal, que retrata a adolescência de forma mais realista que o comum e não trata as personagens com condescendência, que conta com um roteiro alinhado e ácido e atuações certeiras, fazendo com que o público se identifique com as situações, ocasionando pensamentos como “isso já aconteceu comigo” ou “isso já aconteceu com alguém que eu conheço”, ou seja, tem tudo para se tornar um dos filmes indie queridinhos dos hipsters e dos deslocados sociais.


Daniel Deroza– 5 Período

Um terremoto político

470771-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxFilmes que possuem como pano de fundo jogos políticos e tribunais sempre correm um grande risco de se tornarem morosos para o público menos acostumado com leis, termos técnicos e a maneira como a política realmente funciona. Mas, este não é o caso de “Armas Na Mesa” (“Miss Sloane”), que estreia dia 2 de fevereiro. O novo longa do diretor John Madden (“Shakespeare Apaixonado”), é estrelado por Jessica Chastain, que dá vida à Elisabeth Sloane, uma implacável – e, por vezes, cruel – lobista de Washington que se recusa a perder uma disputa e, por isso, recorre a métodos pouco ortodoxos – tais como espionagem, chantagens e ameaças. Ela é contratada pela empresa de Rodolfo Schmidt (Mark Strong) – que reconhece o talento da profissional, mas não concorda com as táticas dela – para cumprir a missão mais difícil que se pode ter em solo americano: conseguir a aprovação da lei Heaton-Harris, que prevê maior rigor na legislação, visando uma política de controle de armas.

O maior trunfo de “Armas Na Mesa” é, sem dúvida, a perfeita sincronia entre direção e roteiro (escrito pelo estreante Jonathan Perera). As duas horas e dez minutos de filme em momento algum tornam-se arrastadas e maçantes devido a: primeiramente, os inúmeros plot twists muito bem amarrados que, literalmente, são capazes de tirar o fôlego da audiência; segundo, ao excelente trabalho de direção – mais uma vez, John Madden mostra que sabe extrair interpretações retumbantes de seu elenco –; e, por último, mas não menos importante, a precisão cirúrgica da edição, que faz com que cada cena comece e termine no momento exato de interesse – além das incríveis tomadas que alternam sequências que estão ocorrendo simultaneamente em locais diferentes.

Além disso, o design de produção também é um show aparte: os figurinos – em especial o de Elisabeth, que contrasta o tom neutro de suas vestes com uma maquiagem que representa a personalidade forte da personagem – demonstram a classe e praticidade que a trama precisa; e a impecavelmente límpida cinematografia, que opta por uma paleta de cores fria e cinzenta – como não poderia deixar de ser em um filme que se passa em Washington – dão um tom de longas de espionagem, elevando o valor de produção ao mostrar que por debaixo da casca polida, há algo de podre no reino do Capitólio Americano.

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A escolha do elenco não poderia ser mais acertada: Gugu Mbatha-Raw – que se destacou nos últimos tempos ao participar de um dos episódios na sensação da Netflix, “Black Mirror” –, interpreta a ativista involuntária Esme Manucharian; John Lithgow como o membro do congresso Ron Sperling; além de Sam Waterston – o eterno promotor Jack McCoy, da icônica série policial “Law & Order” –, que dá vida ao inescrupuloso George Dupont, principal oponente de Elisabeth. Mas, indubitavelmente, o grande destaque da produção é Jessica Chastain, que carrega o enredo nos ombros de forma magistral como a inexorável lobista que vê todos ao redor como meros peões do jogo político no qual é especialista. Aqui, a atriz mostra o porquê de ser considerada uma das melhores de Hollywood e justifica a indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Drama.

Elisabeth é uma mulher fria, cínica, amoral e “mentirosa profissional” – como ela mesma afirma –, mas que, por debaixo dessa armadura quase impenetrável, sofre com a pressão que o trabalho lhe impõe, causando crises de ódio, frustração, além do uso constante de comprimidos que a mantêm equilibrada no dia-a-dia e dos serviços do scort Forde (Jake Lacy), com quem demonstra uma ínfima vulnerabilidade. Interpretando a personagem que dá título ao filme, Chastain dá uma aula de interpretação ao se passar por uma mulher que não tem pudores em expor a vida íntima dos funcionários e até mesmo arriscar a própria carreira para vencer uma disputa – afinal, como a própria Elisabeth diz, “lobby é sobre antecipar-se aos movimentos do oponente para surpreendê-lo antes que que ele te surpreenda”.

Por fim, “Armas Na Mesa” é um thriller político inteligente, muito bem construído, que conta uma história relevante para o atual cenário político americano – fazendo com que, apesar de ficcional, torne-se extremamente tangível –, com memoráveis reviravoltas de tirar o fôlego e que, apesar de ser considerado por muitos um dos chamados “filmes cult”, possui um valor de entretenimento que não se vê no cinema há muito tempo; além da uma riquíssima gama de personagens, liderados pela poderosa Miss Sloane, que para sobreviver em um meio comandado por homens, teve de se armar de todas as formas possíveis, causando um verdadeiro “terremoto político” – isso, por si só, já é digno de aplausos.


Daniel Deroza– 5º Período

Uma história quase esquecida

071675-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxJustamente no período em que a tensão racial voltou a pairar sobre os Estados Unidos – principalmente após a eleição de Donald Trump para a presidência do país –, Hollywood resolveu se redimir da polêmica do ano passado, que levou a hashtag “OscarSoWhite” aos trending topics mundiais, e lançar um filme baseado em uma história real protagonizado por três mulheres negras. É neste contexto em que chega aos cinemas o longa “Hidden Figures”, que, desde a estreia em território americano, em 25 de dezembro de ano passado, tornou-se a maior bilheteria da temporada, e, no Brasil, recebeu o nome de “Estrelas Além do Tempo” – o que tem causado polêmica, pois reduz muito o impacto das entrelinhas da história, uma vez que “Hidden Figures” significa “Figuras Ocultas”.

A produção dirigida por Theodore Melfi – que até então havia trabalhado apenas em “Um Santo Vizinho” e a coprodução Brasil-Estados Unidos “Amor Por Acaso”, ambas comédias ­– se passa em 1961 e tem como pano de fundo e a Corrida Espacial da Guerra Fria disputada pelo gigante norte-americano e a então União Soviética, enquanto a sociedade tinha de lidar com os efeitos da intensa segregação étnica. Tais efeitos também se aplicam aos funcionários da NASA, onde os negros – ou “de cor”, como eram chamados à época – tinham de trabalhar em um prédio separado do resto da agência.

É neste grupo segregado que trabalham Katherine Johnson (a sublime Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (interpretada pela cantora Janelle Monáe, em seu primeiro grande trabalho como atriz depois do premiado “Moonlight”), três amigas que precisam enfrentar o racismo arraigado na história americana para mostrar que são competentes o suficiente para ascender nas carreiras. Katherine e Mary ocupam o cargo de Computadores, cuja função é aferir todos os cálculos enviados para o setor e Dorothy, que costumava desempenhar a mesma tarefa, assumiu o cargo de supervisora após sua chefe ficar doente e ter de se ausentar, porém, apesar de seu trabalho exemplar, a palavra “computer” ainda está escrita em sua folha salarial.

O racismo velado dos bons cidadãos brancos americanos começa a se tornar menos sutil quando, por força das circunstâncias, as três protagonistas são realocadas. Katherine é convocada para corrigir os cálculos da equipe responsável por estabelecer as diretrizes para a construção da nave – equipe formada apenas por homens brancos, que não ficam nem um pouco satisfeitos com a nova integrante. Mary é chamada para trabalhar diretamente com os engenheiros responsáveis pela construção da máquina que levará o homem à Lua, e, por isso, é incentivada a tentar ingressar em uma faculdade de Engenharia – voltada apenas para homens brancos. Já Dorothy, após passar semanas pedindo a superior Vivian Mitchell (Kirsten Dunst) para ser oficializada como supervisora, vê sua oportunidade de ascensão quando – de forma clandestina – tornar-se a única pessoa competente para operar os novos computadores da agência.

O roteiro – de Allison Schroeder e Theodore Melfi – não é perfeito, mas cumpre com dignidade a missão a qual se propôs: é claro que o filme quer contar a história destas três mulheres, mas não apenas isso, a produção visa também enaltecer o seu trio protagonista e seus feitos, o que não é nenhum demérito. Tal tarefa consegue ser cumprida com louvor por dois fatores: a direção de Melfi, que segue Katherine, Dorothy e Mary a todo instante; e o comprometimento do elenco com o enredo. Todos estão absolutamente investidos nas personagens.

Octavia Spencer se sai muito bem interpretando uma mulher sensata e ponderada, que prefere agir em vez de espernear – contudo, a atuação da atriz, mesmo que boa, não justifica sua indicação ao Globo de Ouro e ao Oscar; é apenas uma boa interpretação. A cantora Janelle Monáe entrega um trabalho confiante e preciso, que a jovem Mary Jackson exige, não deixando nada a dever para os veteranos que a rodeiam. O elenco ainda conta com Kevin Costner, como o diretor Al Harrison; Jim Parsons como o invejoso, racista e machista Paul Stafford; Mahershala Ali, que dá vida ao coronel Jim Johnson; e muitos outros (é um casting numeroso) – todos muito precisos, tanto que o longa levou o prêmio de Melhor Elenco no SAG Awards, a premiação do Sindicato dos Atores de Hollywood, que é um dos termômetros do Oscar.

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No entanto, duas performances se destacam em “Estrelas Além do Tempo”. A primeira é de Kirsten Dunst, como a racista sem-noção Vivian Mitchell, uma mulher que se acha superior às colegas negras e não quer que estas progridam de forma alguma, mas que, no fim do dia, diz que não é preconceituosa – e, o pior (ou melhor, dependendo do ponto de vista), a interpretação de Dunst deixa claro que Vivian realmente acredita que não é racista; é a prova de que uma atriz talentosa consegue ter um bom desempenho em pouco tempo na tela.

A segunda performance digna de aplausos é, sem sombra de dúvidas, de Taraji P. Henson, que consegue mostrar todas as nuances da personagem sem se transformar em uma caricatura da mulher negra sofredora – é uma unanimidade entre os críticos que quem merecia indicações a prêmios é Taraji e não Octavia. Em “Estrelas Além do Tempo”, Henson dá ao público pelo menos uma cena de arrepiar, mostrando aos homens brancos que a cercam o racismo e o machismo que tem de enfrentar todo dia e que impedem o pleno desempenho no trabalho.

Em suma, “Estrelas Além do Tempo” é um filme bonito – literal e metaforicamente –, relevante, que em muitos momentos causará uma revolta borbulhante no público ao expor o racismo e o machismo que insistem em perdurar, torando-se uma produção necessária – principalmente nos dias de hoje – para mostrar às pessoas que dizem que os movimentos negro e feminista não passam de “mimimi” que a História da Humanidade, contada por brancos, fez questão de omitir a existência e o trabalho destas “figuras ocultas”.


Daniel Deroza– 5º Período