O preço do sucesso

cartaz-tocNos dias atuais, a busca por uma carreira de sucesso exige um nível de dedicação tão grande que muitas pessoas acabam abrindo mão da vida pessoal. A partir daí, duas coisas podem acontecer: ou ela vira workaholic (viciada em trabalhar) ou ela chega a um nível de stress muito alto e acaba surtando. É com esse debate comportamental que “TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva”, novo longa estrelado por Tatá Werneck, se sustenta.

Contextualizando, Kika K (Tatá Werneck) é uma atriz badalada que está estrelando muitas novelas e propagandas comerciais. Idolatrada por uma legião de fãs, depois de presenciar um suicídio, a personagem enfrenta uma crise existencial sobre a relação da vida pessoal e profissional, enquanto tem de lidar com seu TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo).

A história é comparada, por muitos, como uma adaptação – em escalas bem menores – de “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) ”, de Alejandro Iñárritu, vencedor do Oscar de melhor filme e direção de 2015. Em ambas as histórias os personagens principais chegam a uma Epifania sobre qual caminho as vidas pessoais estão tomando. De acordo com Tatá, a ideia inicial era falar sobre o controle ilusório que as pessoas acham que tem sobre a própria vida. Exemplificando, nas palavras da atriz, “as vezes eu estou mal, mas preciso colocar uma peruca para fazer as pessoas rirem”.

Mesmo sendo uma comédia escrachada, o filme sabe ser sério nos momentos que precisa ser. Isto se dá porque além de falar sobre um assunto profundamente filosófico, trata de um problema seríssimo na sociedade moderna, o TOC. Segundo o diretor Teo Poppovick, o longa tira humor de dentro de uma história dramática. Tema, inclusive, muito debatido durante a coletiva de imprensa.

Ainda falando sobre direção, Teo trabalhou no filme em parceria com Paulinho Caruso. Os diretores usaram uma estética muito colorida e de cortes rápidos. Essa poluição cromática, de acordo com Poppovick, foi proposital e teve o intuito de ativar a sensação de multi estímulos visuais, muito presente na sociedade moderna. “A nossa vida tem vários dramas acontecendo ao mesmo tempo. Essa antítese do purismo é o que tentamos buscar com essa linguagem”.

Verdade seja dita, os diretores tiveram o trabalho facilitado devido ao grande elenco que compunha o filme. A lista de ouro conta, além de Tatá, com Bruno Gagliasso (como Caio Astro, também ator e viciado em pornografia), Vera Holtz (como Carol, a empresária superprotetora de Keka), Luis Lobianco (como Felipão, o fã maníaco), Daniel Furlan (como Vladimir, a verdadeira paixão da personagem principal), Ingrid Guimarães (se passando por ela mesma, e arquirrival de Keka), entre outros.

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Paulinho Caruso (diretor), Bianca Villar (produtora), Luis Lobianco (ator), Teo Poppovic (diretor), Tatá Werneck (atriz) e Daniel Furlan (ator) durante coletiva do filme TOC. [foto: Iago Moreira/ Agência UVA].

O elenco de estrelas prova que a comédia brasileira é o gênero cinematográfico que mais cresce no País. E diferentemente dos outros longas, “TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva” não apresenta um discurso apelativo e mostra grandes referências aos clássicos da comédia. Tatá Werneck e Daniel Furlan formam uma dupla incrível, consagrando de vez suas entradas para o mundo da sétima arte.


Iago Moreira- 7º Período

Um final digno, mas longe de ser perfeito

re6_teaserposter_look2_brazilHá exatos 15 anos um filme causou muita polêmica ao ser lançado no cinema. Inspirado na franquia de games de sucesso, o longa “Residente Evil- O Hóspede Maldito” estreava, causando raiva nos fãs da saga original e encantando o grande público. Essa semana a última obra da série foi lançada, Trata-se de “Resident Evil 6: O Capítulo Final”, que promete findar de vez a história da protagonista Alicia Marcus, ou Alice (Milla Jovovich).

Contextualizando, depois de passar anos fugindo e se escondendo dos monstros que já exterminaram sete bilhões de humanos, um holograma ordena que Alice deve ir até a “Colméia”, Quartel General, da Umbrella Corporation, entidade responsável pela epidemia, para roubar o antivírus que salvará a humanidade. O problema é que para chegar lá, a protagonista terá que enfrentar os maiores desafios de sua vida e descobrir segredos de seu passado.

Desde o início do filme, o diretor e roteirista Paul W.S. Anderson teve o cuidado de relembrar tudo o que aconteceu ao longo dos outros cinco filmes, já imaginando que mesmo aqueles que acompanham desde 2002, não lembrariam de tudo o que rolou. Essa intenção de fechar de vez toda a história, ainda é repetida quando a trama fecha todas as pontas soltas, explicando pequenos detalhes que até então eram desconhecidos.

A premissa e a intenção até são boas, mas o desenrolar nem tanto. Com reviravoltas clichês, o longa mais parece um jogo de videogame repetitivo, que apresenta conflitos desnecessários, presentes ali só para render cenas de ação extremamente explosivas e violentas, bem estilo Michael Bay. Outro problema nesses takes de luta é que a montagem deles foi muito infeliz. A estética de cortes frenéticos escolhida pelo diretor faz com que o espectador não entenda nada o que está acontecendo na cena, só é possível ver sangue, tiro e explosão. A beleza de uma boa luta não foi explorada.

Se Paul W.S. Anderson pecou na direção e no roteiro, Milla Jovovich – mais uma vez – demonstrou que ela é a atriz perfeita para interpretar Alice. A Ucraniana se destaca no longa, mesmo com as falas e ações previsíveis. Mesmo com tantos pontos negativos, “Residente Evil 6: O Capítulo Final” promete fazer muito sucesso com o grande público, se consagrando de vez como a franquia de filmes inspiradas em games mais bem-sucedida da história do cinema.


Iago Moreira- 7º Período

Potencial desperdiçado

038061-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxTodos que conhecem um pouco da arte sabem que existem roteiros cinematográficos que quase sempre dão certo com o grande público. Uma verdadeira fórmula de escrita apelativa que tem o segredo do sucesso. Pensando nisso, o diretor David Frankel e o escritor Allan Loeb fizeram o filme “Beleza Oculta”. Todavia mesmo contando com um elenco de peso, o longa peca pelo exagero de se reafirmar e se torna previsível e cansativo.

Contextualizando, Howard (Will Smith) é sócio majoritário de uma agência publicitária de wall street. O empresário é conhecido por ser um dos homens mais felizes e motivadores do local. Todavia, depois de uma tragédia, ele entra em depressão e, com isso, acaba levando a empresa para o mesmo caminho. Pensando em salvar a companhia, Whit (Edward Norton), Claire (Kate Winslet) e Simon (Michael Peña) descobrem que o chefe está mandando cartas para entidades (morte, amor e tempo) e contratam atores para armar uma espécie de armadilha para provar que ele estava enlouquecendo e, assim, tirar a empresa de seu nome.

Brigitte (Helen Mirren) foi a escolhida para interpretar morte, Amy (Keira Knightley) o amor e Raffi (Jacob Latimore) o tempo. Até ai a premissa mostra potencial, o problema é quando o roteiro cria sub tramas genéricas, com as quais a relação desses atores escolhidos casa exatamente com a vida pessoal de cada recrutador. Outro erro grotesco é a necessidade de se reassumir o discurso motivacional do longa. Por diversas vezes, o diretor bate na mesma tecla, fazendo com que o espectador fique com o sentimento de: “eu já sei disso, não precisa repetir”.

Essa fórmula de roteiro genérica, que só tem o intuito de emocionar quem está vendo é quase um insulto para quem criou expectativa acerca do tema abordado. Em tempos como os atuais, a depressão é uma doença que merecia ser tratada com mais seriedade. Ainda mais em um longa com grandes atores, que dá ainda mais visibilidade para este mal. Falando do elenco pomposo, o diretor não aproveitou a capacidade individual de cada um, o que tornou as atuações bem medianas. A única que se destaca um pouco é a de Will Smith, que faz a melhor cena do filme, já no final do último ato. No fim das contas, “Beleza Oculta” é um filme apelativo que só existe para fazer o espectador chorar.


Iago Moreira- 7º Período

Sonhe Grande

345717-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxO ano é 1879. A jovem Felicie sonha em ser uma bailarina, no entanto, as condições não são as mais favoráveis, afinal, a menina vive em um orfanato na França. Porém, decidida a alcançar os objetivos, a órfã conta com a ajuda do amigo Victor – um aspirante a inventor – para fugir da região rural da Bretanha e seguir em direção à Opera de Paris. Esta é a sinopse da animação franco-canadense “A Bailarina”, que chega aos cinemas brasileiros em 26 de janeiro, após fazer sucesso no circuito europeu e americano no último natal.

A princípio, a trama pode parecer simplória e semelhante a muitas outras já exibidas nas sessões vespertinas de filmes, porém o diferencial está na maneira como a história é conduzida. Em um ano no qual as produções cinematográficas voltadas para o público infantil foram dominadas por animais falantes – como “Pets – A Vida Secreta dos Bichos”, “Zootopia – Essa Cidade É O Bicho” e “Procurando Dory” – e criaturas indefinidas – como “Os Minions” –, um longa protagonizado por uma jovem fora dos padrões aceitáveis da época – lembrando que o filme se passa no século XIX – em busca de um sonho ganha destaque.

O roteiro de Carol Noble e Eric Summer cumpre muito bem a tarefa de desenvolver a “Jornada do Herói” – que, há alguns anos, vem sendo esquecida em meio a tantas distopias adolescentes que dominaram o cinema mundial no último decênio e visam apenas o lucro em detrimento do enredo. Em “A Bailarina”, Noble e Summer conseguem fazer com que o público se interesse em acompanhar a caminhada de Felicie desde a sua fuga do orfanato, passando pela chegada ao Grand Opera, o belíssimo laço de amizade com a zeladora da academia, as aulas de balé – onde Felicie é a aluna menos preparada –, e as audições para a próxima montagem da escola, até o final.

Além disso, um ponto alto do filme está na direção – geralmente, pouco lembrada por público e crítica em animações –, porém, tratando-se de uma produção cujo pano de fundo é a dança – em especial o balé clássico –, as coreografias devem ser bem trabalhadas e detalhadas, e os diretores Eric Summers e Éric Warin cumprem esta tarefa de forma habilidosa, com performances capazes de impressionar o público. Outro destaque de “A Bailarina” está na interpretação dos atores que dão voz às personagens – especialmente, o trabalho impecável das novas promessas de Hollywood, Elle Fanning (“Felicie”, que, o Brasil, é dublada pelo prodígio da televisão nacional Mel Maia) e Dane DeHann (“Victor”).

É claro que por ser um filme voltado para o público infantil e que envolve uma “competição” – as audições para a próxima peça –, certas características e clichês que ambos os gêneros estão presentes, mas não é nada que atrapalhe o desenvolvimento do longa. A “rival” muito mais preparada está presente, personificada na jovem Camille – dublada pela nova “America’s Sweetheart”, Maddie Ziegler –, e a “Mensagem de Fundo Moral” também. Aliás, este último é o ponto mais rico do enredo, pois tudo o que a trama quer dizer é “Sonhe grande e vá atrás dos seus sonhos”, fazendo com que “A Bailarina” seja um filme não apenas para crianças, mas para todo tipo de público.


Daniel Deroza– 4º Período

Uma nova trapaça

213595-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxEssa semana, chegou aos cinemas a comédia nacional “Os Penetras 2 – Quem Dá Mais?”, continuação do sucesso de 2012 estrelado por Marcelo Adnet, Eduardo Esterblitch, Mariana Ximenes e Stepan Nercessian, com roteiro e direção de Andrucha Waddington, que recentemente fez sucesso com o longa “Sob Pressão”. Abrindo os trabalhos, sendo uma continuação – coisa rara no cenário cinematográfico brasileiro até pouco tempo atrás –, o longa começa com algumas missões difíceis de serem cumpridas. A primeira delas é se manter a nível de seu antecessor, em uma época que as comédias se encontram em declínio e já não arrebatam mais tanto público quanto a cinco anos.

Já segunda tarefa árdua refere-se justamente à exceção da regra anterior: destacar-se ao lado do fenômeno “Minha Mãe É Uma Peça 2”, comédia escrita e estrela por Paulo Gustavo que acaba de se tornar o quarto filme mais assistido da História do cinema brasileiro. Uma coisa é certa: tanto o elenco quanto a equipe por trás das câmeras se esforçaram para cumprir essa missão com louvor. Após a trama do primeiro Longa, Marco Polo (Marcelo Adnet) trai o amigo Beto (Eduardo Esterblitch) e foge com o dinheiro da dupla. Com isso, o carente Beto perde a pouca sanidade que tinha, e tudo piora com a chegada da notícia da morte de Marco, cujo espírito passa a aparecer para o companheiro dando conselhos, nem sempre confiáveis.

É neste contexto que Beto conhece Santiago, um playboy quarentão que, após uma noite de bebedeira com o rapaz, percebe que Beto não é um sujeito muito são e o dispensa, fazendo com que ele peça ajuda ao trapaceiro Nelson (Estepan Nercessian), que vê nisso uma grande oportunidade de tirar alguma vantagem. Este é o plot de “Os Penetras 2”.

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O principal ponto positivo do longa é justamente a transformação da personagem de Adnet em coadjuvante, fazendo com que os momentos em que Marco surge na tela sejam bem aproveitados. Outra melhoria na estrutura do enredo em relação ao primeiro filme é a maior participação de Mariana Ximenes, que, nos últimos anos (principalmente depois de “Um Homem Só”, pelo qual ganhou o Kikito de Melhor Atriz no Festival de Gramado) tem mostrado que, de fato, atingiu a maturidade de sua carreira, mostrando-se segura e versátil em cena.

Porém, apesar de divertido, “Os Penetras 2” tem um grande problema: o ritmo de sua história. O filme tem apenas uma hora e meia, no entanto, o espectador tem a sensação de estar assistindo a uma produção de, no mínimo, duas horas – e isso se deve à edição pouco dinâmica. O fim do filme garante alguns momentos de ternura – para o público mais sensível – e um plot twist que pode levar a uma terceira aventura do grupo de trapaceiros (que ganham ares de uma versão tupiniquim cômica de “Velozes e Furiosos”, só que sem as perseguições automobilísticas); caberá ao roteirista e diretor Andrucha Waddington avaliar se vele a pena ou não continuar.


Daniel Deroza– 4º Período

Um mar de emoções

manchester_poster_brazilDezembro e janeiro são, em geral, os melhores meses para o cinema mundial. Nesse período de férias, além de muito blockbusters serem lançados, é nele que grandes concorrentes ao Oscar são mostrados ao grande público. Esse é o caso do longa “Manchester À Beira-Mar”, de Kenneth Lonergan, famoso por seu trabalho como roteirista em “Gangues de Nova York”. E nesse novo longa, o diretor britânico bota seu nome entre os melhores do ano.

Contextualizando, depois de Joe Chandler (Kyle Chandler, sim, o ator tem o mesmo sobrenome do personagem que ele interpreta) morrer precocemente, Lee Chandler (Casey Affleck) é forçado a retornar para sua cidade natal para tomar conta de seu sobrinho adolescente Patrick (Lucas Hedges). O problema, é que Lee tem um passado traumático na cidade e invés de ir morar lá, prefere levar Patrick para outro lugar, mas isso acabaria com a vida social do jovem. É com essa premissa que a história se desenrola.

Olhando friamente, a história é bem simples, mas a execução foi tão, mas tão bem-feita, que tudo ficou excelente. A triste realidade da dupla foi muito bem explorada pelo diretor, que também roteirizou o longa. Lonergan soube mesclar os conflitos pessoais de cada personagem com a trama principal, de modo que deixa o espectador sempre interessado no que está acontecendo.

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Outro ponto marcado por Lonergan foi a estética que ele escolheu para o longa. A paleta opaca e acinzentada do filme, somado pela companhia da neve, deixa tudo deprimente e faz com que o público se sinta dentro daquela pequena e triste cidade pesqueira. A fotografia, explorando a natureza morta, também ajudou nesse quesito.

Continuando com os elogios, a dupla de atores principais – Casey Affleck (irmão de bem Affleck) e o jovem Lucas Hedges – tem uma relação única, entregando uma das melhores parcerias do ano. O restante do elenco também agrada, mas sem muitos destaques. No fim das contas, “Manchester À Beira-Mar” é um filme triste, muito triste, porém, impecável tecnicamente e promete brigar por uma estatueta no Oscar.


Iago Moreira- 6º Período

Perfeição em forma de musical

329329-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxQuando o assunto é romance musical, a maioria dos filmes acaba caindo nos velhos clichês do cinema. Todavia, de tempos em tempos, algumas pérolas surgem em meio ao grande oceano da sétima arte e revive as boas sensações que, há tempos, não eram mais sentidas. Esse é o caso de “La La Land: Cantando Estações”. Um tributo aos clássicos do gênero, com um toque de originalidade e modernidade que só um bom diretor e roteiristas podem dar.

O “culpado” por tudo isso é Damien Chazelle, que em seu segundo filme de grande distribuição, já se consagra entre a seleta classe de melhores diretores do cinema moderno. Além de criar “La La Land”, Chazelle também foi muito elogiado ao comandar “Whiplash”. E depois de aprender com os erros da obra anterior, o jovem diretor americano de apenas 31 anos chegou muito perto da perfeição nesse novo longa.

Contextualizando, “La La Land” é um musical romântico que acompanha a história do pianista purista de jazz Sebastian (Ryan Gosling) e da atriz iniciante Mia (Emma Stone). Ao longo de cerca de duas horas, o filme exibe comemorações e conflitos, pessoais e públicos, da dupla, usando canções e danças nos momentos mais marcantes de conexão entre os dois.

Todavia, não é só de cantoria que esse musical é feito. Assim como em “Whiplash”, a parte instrumental também é muito presente nesse novo filme. A diferença, é que invés de bateria, o ator principal tem o piano como seu objeto de trabalho. Usando a bela sonoridade do Jazz, o diretor soube combinar a liberdade que esse estilo musical traz, com o mesmo sentimento no ator. Nas cenas mais profundas, o personagem se “despluga” do resto do mundo enquanto toca, em uma conexão da alma com a música.

É claro que isso só é possível devido ao belo trabalho do compositor Justin Hurwitz, parceiro de Chazelle no cinema. Ao que tudo indica, mais um Oscar está por vir para o músico, que já ganhou o prêmio em “Whiplash”. Ryan Gosling também compôs uma das músicas. Depois de treinar quatro horas por dia, durante três meses, ele convence muito como pianista, devido ao bom desempenho diante das teclas. Por outro lado, cantar não é o forte do ator americano, que até tem uma desenvoltura para dançar, mas fica preso na hora de soltar a voz.

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Damien Chazelle ensaiando com Ryan Gosling.

Problema este que não foi compartilhado por Emma Stone. Em um dos melhores papeis de sua vida, a atriz encanta ao público durante todo o filme. Em algumas cenas, fica claro o esforço dela para se sair bem, mostrando que realmente estava fazendo de tudo para que tudo desse certo. Vale a mencionar que Hurwitz não foi a única pessoa que trabalhou com Chazelle em “Whiplash” que também participa de “La La Land”. J.K. Simmons, que no filme antigo incorporou o professor sádico da escola de música, agora se passa por Bill, dono de um simples bar que tem música ao vivo. A participação dele é rápida, porém marcante e desperta nostalgia para aqueles que acompanharam os dois longas do diretor.

A participação de J.K. Simmons é a primeira de muitas referências que compõem “La La Land”. Quadros escolhidos para compor a fotografia, cortes e efeitos de passagem e coreografias musicais fazem tributo à filmes clássicos do cinema antigo, como “Sinfonia de Paris” (1951), “Cinderela em Paris” (1957) e “Cantando na Chuva” (1952).

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Finalizando, dizem que a primeira cena do filme é um resumo da obra. Sendo assim, como o primeiro take se passa em cima de um viaduto, pode-se dizer que “La La Land” é isso. Um viaduto. Uma ponte. Uma conexão entre dois lados, entre o velho e o novo. O longa beira a perfeição, em todos os sentidos e depois de se tornar o maior vencedor do Globo de Ouro – conquistando sete troféus – o título vem forte na briga pelo Oscar. Todavia, terá que disputar a estatueta dourada com a também excelente “A Chegada”. Independentemente de quem levar, o importante é que a sétima arte ganhou mais uma obra cinco estrelas.


Iago Moreira- 6º Período

Ode à alegria e à nostalgia

cartaz_saltimbancos_menor_0Eles voltaram. 35 anos depois do lançamento do filme original, Renato Aragão e Dedé Santana retornam às telonas do cinema com a segunda parte de um dos filmes mais populares da história brasileira. Trata-se de “Os Saltimbancos Trapalhões – Rumo a Hollywood”, um longa recheado de referências para quem conhece a obra original e repleto de boas experiências para quem está entrando nesse mundo agora.

Contextualizando, depois que foi proibida a apresentação de animais em espetáculos, o Grande Circo Sumatra está passando por uma crise financeira. Para tentar reverter esse quadro e não levar tudo à falência, o dono do circo, Barão (Roberto Guilherme), aceita fazer leilões de gado, comícios e outros eventos para angariar fundos. Todavia, isso pode acabar transformando o lugar em um parque de eventos do prefeito Aurélio Gavião (Nelson Freitas). Para reverter esse quadro catastrófico e retomar os dias de glória do circo, Didi (Renato Aragão) e Karina (Letícia Colin) decidem montar um novo número para tentar salvar o dia.

A história não é muito profunda, e nem precisa ser. O texto quase teatral não se preocupa em apresentar um grande plot para o público e sim levar diversão e nostalgia com piadas e músicas. Falando desses dois pontos, Didi e Dedé tem um carisma impressionante, a dupla consegue deixar qualquer frase simples e banal muito engraçada, mostrando que ainda é possível sim fazer comédia sem apelar. Não obstante, o lado musical do filme também foi muito bem feito, com ótimas coreografias e uma produção artística muito boa. O único ponto que talvez incomode alguns é o exagero de sintetizadores de voz em algumas canções.

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Didi, João Daniel Tikhomiroff (diretor) e Dedé durante gravação

De modo geral o elenco vai muito bem, Maria Clara Gueiros, interpretando Zoroastra – uma espécie de cigana que finge prever o futuro –, Marcos Frota, dando vida à Satã – cuspidor de fogos, atirador de facas e gerente malvado do circo – e Alinne Moraes, se passando por Tigrana – acompanhante de Satã – se destacam no elenco secundário. Todavia, a forçada e enjoativa relação entre Livian Aragão e Rafael Vitti ocupa muito tempo de tela e acaba cansando o expectador.

“Os Saltimbancos Trapalhões – Rumo A Hollywood” é um filme honesto. Que não apresenta, e nem pretende, o roteiro ganhador de um grande festival, mas entrega ótimas horas de diversão para quem acompanha. Bem dirigido, produzido e feito com alegria, é impossível não gostar dessa obra. Infelizmente Mussum e Zacarias não estão mais vivos para prestigiar essa bela homenagem feita a eles, mas foram muito bem representados e honrados pelos companheiros Didi e Dedé. Que isso não seja uma despedida e sim um recomeço para o grupo de humoristas mais famosos do Brasil.


Iago Moreira- 6º Período

A história genérica dos adolescentes

cartaz-eu-fico-loko-finalSeguindo tendências mundiais, cada vez mais o meio cinematográfico brasileiro está “importando” conteúdo de outras plataformas. Principalmente do Youtube. Cada vez mais estrelas que usam essa ferramenta ganham espaço nas telonas, muito por conta de que – também recentemente – muitas lançaram seus respectivos livros, facilitando o processo de transição, no que diz respeito ao roteiro.

Foi exatamente isso que aconteceu no longa “Eu Fico Loko”, inspirado no canal homônimo de Christian Figueiredo. Contextualizando, o filme conta a história de como o jovem se tornou um dos maiores youtubers do Brasil, passando por inicios e fins dos primeiros relacionamentos, a relação dele com o bullying na escola e conflitos com amigos.

Bom, até aí nada de especial. Todo mundo passou por isso. Então fica a pergunta, o que torna a história de Christian mais especial que a dos outros adolescentes? A resposta é bem simples: Nada. Por muitas vezes, o expectador esquece que está assistindo à simulação de fatos da vida do youtuber e se sente relembrando fases da própria vida. Só é possível lembrar sobre quem é o filme, quando o próprio Christian é inserido na história – como um narrador personagem – quebrando a quarta parede e conversando diretamente com o público.

Não é que a história seja ruim, só não é especial. Até porque é difícil de se imaginar que um jovem de 22 anos já tenha um filme e dois livros autobiográficos. Logo, a história do filme não é só a história de Christian, e sim a da maioria das pessoas que irão assistir. Olhando pelo lado positivo, isso aproxima o expectador da história. O diretor Bruno Garotti soube explorar bem a trama e dar um bom ritmo para o longa. Outro destaque é Filipe Bragança, que conseguiu incorporar muito bem os trejeitos do youtuber. No fim das contas, a obra não passa de um episódio estendido de malhação.

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Iago Moreira- 6º Período

É preciso muita fé para gostar dessa trama…

569261-jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxOs anos passam, mas o fardo de adaptar histórias de videogames no cinema continua sendo um peso no sapato das produtoras. É verdade que algumas vezes – mesmo que raramente – dá certo. É verdade, também, que os filmes inspirados em quadrinhos sofreram com esse mesmo peso no início da transição. Mas nada justifica a pressa que a maioria das empresas tem em querer resumir anos de informações bem desenvolvidas nos games, em 2 horas na telona. E parece que foi exatamente isso que a Ubisoft tentou fazer com “Assassin’s Creed”.

A empresa, mundialmente conhecida por jogos como “Just Dance”, “Far Cry”, “Watch Dogs” e outros, não soube trabalhar sua melhor franquia nos cinemas. A intenção inicial, divulgada para a mídia, até era boa. Contratar Justin Kurzel para dirigir a obra foi uma ótima ideia, uma vez que isso faria com que além de trazer boas indicações de elenco, o longa teria uma linguagem própria do diretor, famoso por trabalhar em “Macbeth: Ambição e Guerra”. Apostar em uma história um pouco diferente dos games também foi um acerto ideológico, mas – na prática – o que se viu foi um produto completamente comercial e raso, que nem de perto aproveitou o potencial que tinha.

Contextualizando, ‘Cal’, ou Callum Lynch (Michael Fassbender), é um assassino condenado à morte escolhido pela Abstergo Industries para participar de uma experiência, que se baseia no teste do Animus, uma máquina que permite fazer com que seu usuário explore a memória genética dos antecessores, nesse caso a pessoa em questão é Aguilar de Nerha, um assassino espanhol do século XV que luta contra a tirania da Ordem dos Templários e quer encontrar a Maçã do Éden para impedir que os ditadores a destruam, o que acabaria com o livre-arbítrio do mundo.

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Como dito, a premissa é muito boa. Complexa e com a possibilidade de fazer diversas referências históricas, essa trama poderia ser mais bem explorada. Poderia, mas não foi. Para não falar que tudo foi ruim, o primeiro ato do filme empolga. Enquanto tudo está sendo apresentado ao público, o trabalho é bem feito. Mas depois dos 30 minutos iniciais, as coisas começam a desandar.

Depois de mostrar quem são os Assassinos, os Templários e qual o objetivo final, começa o segundo ato, que deveria aprofundar mais o expectador nos fatos apresentados inicialmente e responder todas as dúvidas básicas sobre o universo da trama, mas que na prática não explica nada. Os fatos são simplesmente jogados na tela, sem nenhum porquê. Sem nenhuma desculpa. Com isso, as coisas ficam tão superficiais, que passam a ser descartáveis e não cria nenhum vínculo com quem está assistindo.

O final do filme é o que mais da pena (desgosto/raiva). Com respostas rápidas e sem empolgação, a cena de encerramento chega a ser ridícula, desafia o nível de inteligência do expectador e fecha a história com um gostinho de “ainda bem que acabou”.

Depois de analisar a, fraca, história, é hora de falar das outras partes técnicas. A fotografia de Kurzel é muito boa. O toque poético que o diretor dá à obra chega a impressionar e soma pontos positivos. Assim como a atuação do elenco principal, composto pelo assassino Cal Lynch (Michael Fassbender) e pela Dr. Sofia (Marion Cotillard), que fizeram um bom trabalho, mesmo com o roteiro fraco.

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Seguindo falando sobre os pontos positivos, as cenas de combate também são bem gravadas e empolgantes. Na verdade, quase tudo o que se passa no período do século XV é bom, o problema é quando a trama vem para o presente, é ai que os pontos negativos já citados começam a aparecer. A produção também merece palmas por ter adaptado muito bem a Espanha Renascentista.

Mesmo com esses pontos positivos, os negativos ainda pesam mais na balança, bem mais. Talvez se a obra não fosse tão apressada, o contexto histórico pudesse ser mais bem explorado. Talvez se os elementos principais fossem mais bem explicados, o público leigo sentiria mais empatia. Talvez se o filme não fosse a adaptação de uma franquia famosa de games, não seria tão criticado e ia ser julgado apenas como um filme comum de ação. São muitos “talvezes” que poderiam ter sido feitos, mas não foram. Então a comparação com um filme de “Sessão da Tarde” é justo, assim como as baixíssimas notas da crítica especializada. Uma pena para a arte cinematográfica, mas indiferente para os grandes empresários, que vão faturar mesmo assim.


Iago Moreira- 6º Período