Nada será como antes

Após diversas manifestações pelo país, o povo recuperou sua voz e já colhe os frutos por exigir um Brasil diferente

“O gigante acordou”, “não são só 0,20 centavos”, “não queremos copa, queremos educação”, “abaixo a PEC 37”, “enfiem os 0,20 centavos no SUS”, são algumas das milhares de mensagens nos cartazes de manifestações pelo Brasil.  Mas, entre essas tantas frases de insatisfação e pedidos de melhora,  a pergunta que fica é: Como, em dias, milhares de brasileiros foram para as ruas e fizeram à maior manifestação desde as Diretas Já?

Tudo começou em São Paulo, com o “Movimento Passe Livre”. Foram vários dias seguidos, que o protesto contra o aumento da passagem de ônibus, parou a cidade. O grito dos estudantes ecoou, pela maior metrópole da América Latina, pedindo acesso universal através do passe livre para todas as camadas da população.

Mas esse movimento foi apenas a gota d’água do copo cheio de descontentamento com a saúde, educação, segurança e a corrupção. E por isso, de maneira veloz, os protestos explodiram pela redução das passagens e evoluíram para outras causas. Diante, ainda, de um processo de adesão popular muito rápido, o principal meio de comunicação entre os manifestantes foram às redes sociais, principalmente, o facebook.

Os jovens levantam seus cartazes durante a manifestação  pacífica (Foto: Cristiano Kubis)

Os jovens levantam seus cartazes durante a manifestação pacífica (Foto: Cristiano Kubis)

O Brasil parou. Em capitais pelo mundo, brasileiros apoiaram também. Mas Semanas após manifestações em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília, Salvador, entre outras, os jovens continuam combinando passeatas. Nos eventos, marcados pelo facebook, os estudantes tem objetivos maiores. Eles querem mudar tudo e exigir um país melhor e mais justo.

São muitas bandeiras e ideias representadas nos cartazes. Contra a corrupção, contra o Presidente da Comissão de Direitos Humanos, Marcos Feliciano, e sua “Cura Gay”, contra o Presidente do Senado, Renan Calheiros e muito mais. A favor, os manifestantes pedem, por exemplo, mais consideração pelos professores, melhorias nos hospitais e no transporte público.

Para a Professora da Prefeitura de Niterói, Luciane de Sousa, as manifestações são uma resposta da classe média. Ela diz que o povo cansou de tudo. “Espero que essas passeatas ajudem a mudar o nosso país, é isso que a gente quer e é isso que estamos pedindo”, completa.

“Não são só 0,20 centavos, luto por direitos”, foi a bandeira levantada pelo Engenheiro Mecânico, Marcelo Monteiro. Para ele, os protestos são um modo de dizer não aos governantes e a corrupção. “Eu quero um futuro melhor para meus filhos e que eles possam ter seus direitos respeitados”.

Já o estudante, Jonatas de Oliveira, diz que os políticos estão sendo covardes. Para ele, o diálogo está sendo evitado. Sobre algumas ações violentas da polícia, Jonatas realça que o movimento não é contra os policiais, já que também são vítimas do sistema. “Vocês, senhores políticos, não fazem o que cumprem, são covardes e injustos com a população que paga o salário de vossas senhorias. Essa é a minha insatisfação”, indaga em forma de recado o estudante de Direito.

Os pedidos iniciais de Luciane, Marcelo, Jonatas e de tantos outros milhares de manifestantes começaram a ser atendidos. Como resposta, também de maneira rápida, os governantes de cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, cancelaram o aumento da passagem e, em Porto Alegre, o preço diminuiu cinco centavos.

Assim como o Governo Estadual, o Governo Federal também já se manifestou. A PEC 37 (Proposta que diminuía o poder do Ministério Público para investigações criminais sobre políticos) foi rejeitada em votação na Câmara dos Deputados por 430 a favor e apenas nove contra.

Mas as respostas oficiais não param por ai não. Em uma reunião com a Presidenta Dilma Rousseff, 27 Governadores e 26 prefeitos, no Palácio do Planalto, foi firmado com a sociedade à adoção de cinco pactos nacionais.

Entre os pactos estão: Responsabilidade fiscal, para controlar a inflação, plebiscito para formação de uma constituinte sobre reforma política, combate a corrupção, acelerar investimentos na saúde, dar salto de qualidade no transporte e destinar 100% dos royalties da exploração de petróleo para a educação.

Assessor de Imprensa da Prefeitura de Nilópolis, Marcio Ferreira, acredita que as redes sociais são o grande diferencial para esse novo momento da política brasileira. Para Marcio, a influência na sociedade não está mais em entidades, instituições ou grupos políticos. “A confiança está imposta nessas identidades dentro da rede social e várias identidades juntas estão formando um novo porto social”.

De acordo com o assessor, as manifestações já podem ser consideradas uma revolução. Mas para ele existe uma comoção mais emocional de insatisfação do que, realmente, uma massa crítica. Dessa maneira, Marcio explica que os temas ficam difusos e não uma causa única.

O assessor ainda afirma que o governo está aprendendo, principalmente, pelo fato de ter sido pego de surpresa e pela as instituições serem muito arcaicas. “Os jovens têm descrédito com a política. Para isso mudar, o governo precisa rejuvenescer para conseguir ter algum diálogo com essa massa”, opina.

Há mais de trinta anos envolvido com a política, Marcio acredita que pela evolução está sendo rápida na internet, as respostas dos governantes estão sendo lentas. “O governo demorou mais de sete dias para dar dizer algo. Isso comprova que eles ainda estão aprendendo a dinâmica das redes sociais”.

Sobre como os políticos estão digerindo a inquietação popular, o assessor frisa que a maioria não está se sentindo à vontade. “Isso se percebe nos discursos de conveniência. Eles falam o que interessa para a massa, mas efetivamente não acreditam no que estão dizendo”, completa.

Para ele, um exemplo disso é resposta rápida que o Governo Federal quis dar. “É óbvio que, quando a Dilma fala que vai convocar um plebiscito, ela agrada a massa. Mas, com isso, ela está ferindo toda uma dinâmica institucional. Ninguém pode passar por cima da constituição e nenhuma rede social substitui uma constituição”.

Marcio também comentou pedido de manifestantes contra as bandeiras de partidos nas manifestações. Mas para ele, as pessoas precisam entender que o partido é divisão e melhor que o autoritarismo. “As monarquias e ditaduras foram totalitárias e absolutas. Mas a democracia, que ainda é melhor caminho, é partidária. O que tem de mudar é a farra política”, opina.

Como em toda manifestação popular, que reúne milhares de pessoas com pensamentos, ideais e morais distintas, a violência não chegou a roubar a cena. Mas, seja com a polícia utilizando a força bruta ou vândalos saqueadores, a brutalidade também teve um destaque de vilão na maioria das passeatas.

Para explicar a dificuldade de se manter paz, a socióloga, Renata Feital, diz que a violência acompanha o homem desde sempre. Para ela, o que diferencia é que, a cada tempo, ela se manifesta de formas e circunstâncias diferentes. Ela ainda completa que a brutalidade pode ser consentida ou imposta.

“A polícia é uma organização que conta com a anuência do Estado para exercer uma violência consentida, já que o objetivo é preservar o convívio coletivo. Quando você junta pessoas que protestam, a violência é iminente. Não estou incentivando nenhum tipo de violência, mas não uso o adjetivo de vandalismo. Eu só entendo a sua existência. É tudo uma questão de poder.”, diz.

Após a paz, Manifestantes queimam radares na Av. Presidente Vargas

Após a paz, Manifestantes queimam radares na Av. Presidente Vargas

Para ela, os gritos de “vem para a rua” levantam uma bandeira que inclui todo mundo, inclusive, bandido e baderneiro. “Na rua hoje, estão desde os que ganham 100 mil reais por mês, até os que passam fome e se aproveitam para saquear, os malandros, os bandidos que querem roubar”, afirma.

Trabalhando entre as inúmeras pessoas, a jornalista do Jornal O Dia, que não quis se identificar, entre os tiros de borracha e bomba de gás lacrimogêneo, revela que está acostumada com o manifesto na paz e até mesmo no caos.

“Eu cubro manifestações como essas desde as Diretas Já e o Fora Collor. Fui de movimento estudantil, já tomei ‘porrada’ e isso faz parte do jornalismo”, revela ela que já está há 33 anos na profissão e não se assustou com o maior ato até agora que reuniu mais de 300.000 mil pessoas na Av. Presidente Vargas, Rio de Janeiro.

Com bandeira política ou sem bandeira, pacificamente ou com violência, manifestante ou vândalo. O Brasil está se movimentando. Mudanças já começam acontecer. Mas a resposta de como, em tão pouco tempo, milhares de brasileiros foram para as ruas não é fácil de responder. Porém, se uma palavra representa bem os manifestantes, ela se chama “insatisfação”.

Cristiano Kubis – Jornalismo Investigativo