Rio de Janeiro passa por processo de branding

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Segundo o professor e psicólogo Marcelo Henrique da Costa, esse desenvolvimento de marca não deve contemplar apenas a Zona Sul, mas “os outros Rios” dentro da cidade

Com a iminência dos grandes eventos esportivos, o Rio de Janeiro passa por um processo de branding, de reinvenção da sua própria imagem. Essa é a opinião dos palestrantes da primeira mesa de discussões no período da noite da 9ª Semana de Comunicação da Universidade Veiga de Almeida (UVA), com temática “O Rio de Janeiro como marca” ocorrida no dia 3 de junho.

A embaixadora da Marca RJ, Antônia Leite Barbosa, contou que a campanha começou como forma de fazer os cariocas se sentirem “parte do Rio de Janeiro”. A mesma proposta de reposicionamento atrelado a cidades já foi usado em Nova Iorque (I love New York) e Amsterdã (I AMsterdan), ambas com resultados positivos.

“Essa campanha está começando, e não tem mais dono. Todo mundo aqui tem muito orgulho de viver e pertencer a esse estado”, concluiu Antônia. O professor do departamento de Psicologia da Veiga de Almeida, Marcelo da Costa, no entanto, diz que a experiência como ex-secretário de Desenvolvimento Econômico Solidário da Prefeitura lhe deu uma visão mais crítica do Rio.

“Infelizmente temos muitas mazelas. Ano passado dei uma aula de 15 horas, porque choveu e ninguém conseguiu sair da universidade”. Ele ainda acrescentou que não adianta negar as quase mil favelas e as contradições de uma cidade partida – tantas dentro de uma só. Isso vem mudando, segundo ele, com a pacificação das comunidades, mas o processo não reverte a divisão histórica e social.

“O (Morro do) Alemão passou meses na novela. A Avenida Brasil também. Agora não é só o Leblon na televisão, mas, além disso, precisamos pensar em políticas públicas para garantir os direitos dessa parcela da população. O Rio de Janeiro é também suas favelas”. Marcelo usa o próprio exemplo: ele não conhecia a cidade onde morava, com todas as suas contradições, até se aventurar no teleférico do Morro do Alemão ou no Santa Marta.

 Essa valorização das comunidades, explica, também traz uma nova visão de Rio de Janeiro. Conta que, há alguns anos, havia comentários pejorativos sobre o Rio se transformar “numa praia cercada de favelas”. A maior conquista das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), para o professor, é que elas acabaram com a ideia de que existem espaços públicos onde o governo não pode entrar.

Para a mediadora Vânia Fortuna, tudo isso perpassa pelo discurso midiático, que não é fixo. Dá o exemplo dos jogos Panamericanos, em 2007. “Antes do evento, as notícias revelavam um Rio caótico. Faltando um mês para a abertura, a cidade era vendida como ‘dos sonhos’. A marca RJ passa pelas complexidades criadas pela própria mídia”. Depois do Pan, encerrado em 29 de julho, ela diz que a manchete d’O Globo falava sobre a volta dos militares ao Morro do Alemão.

O professor Marcelo da Costa associou o fato às expectativas em torno do Porto Maravilha, vendido como “projeto dos sonhos”. “Espero que não aconteça o mesmo com o Porto, que ele seja um ambiente de interação entre os cariocas. A cidade, a rua, é um lugar democrático”. Ele avalia que a recuperação dos espaços públicos está sendo bem sucedida. Cita o exemplo da Lapa, revitalizada sem perder sua “alma boêmia”.

Para Marcelo,o Rio de Janeiro precisa ser bonito e civilizado, não para agradar os turistas, que vêm passar quatro ou cinco dias e sair encantados, deixando dólares ou euros. “O Rio precisa ser bom para os turistas porque antes é bom para nós”.Ele entende que esse processo de ressignificação da cidade passa não só pelas políticas públicas, mas pela ação dos cariocas nas áreas da cidade. “O Rio é poder público, mas também nossa atitude cotidiana”.

Melina França – 7º período de Jornalismo

Para palestrantes, “Marca RJ” vai na contramão do jornalismo

Quarta mesa da SECOM da UVA trouxe discussão sobre “Marca RJ: registros no jornalismo”
“Toda identidade é uma construção. Se a Marca RJ surge no âmbito publicitário de ‘vender’ o
Rio de Janeiro às vésperas dos mega eventos esportivos (Copa e Olimpíadas), o jornalismo vai
um pouco na contramão. O jornalismo costura os discursos da sociedade: o lado bom e o lado
ruim”. Foram estas as palavras da editora executiva da sucursal do R7 no Rio, Silvia Ribeiro.
Ela foi uma das convidadas da segunda mesa de discussões programadas para o segundo dia
da Semana de Comunicação da Universidade Veiga de Almeida (SECOM/UVA), realizada no
auditório da unidade da instituição na Tijuca.
Também estiveram presentes o fotojornalista Gabriel de Paiva, d’O Globo; o apresentador do
Brasil Urgente (TV Band), Fábio Barreto; e a repórter da Rádio Globo Evelyn Moraes. Juntos,
e com a mediação do professor da UVA Tony Queiroga, eles tentaram delinear o papel do
jornalismo na construção dessa nova identidade carioca proposta pela campanha Marca RJ.
Todos concordaram que a função da mídia, neste caso, é de expor as faltas do Estado, de
mostrar que o Rio nem sempre é tão bonito quanto pintam os cartões-postais.
Para Silvia, isso nem sempre é possível, uma vez que o bom jornalismo tem perdido espaço
nas redações. “Vivemos uma encruzilhada, com redações cada vez mais enxutas e o
conteúdo muitas vezes pautado pela audiência”. Segundo ela, no entanto, ainda é preciso
ter pensamento crítico em relação a campanhas como a Marca RJ. Quando visitou o site, por
exemplo, ela notou que não existe a extensão “.gov”, afirmando tratar-se de uma página
institucional.
“O Governo tem feito coisas boas, sim. Mesmo morando no Rio só há dois anos, são visíveis
as melhorias pelas quais a cidade passou. Mas as qualidades ressaltadas pela Marca RJ
se conquistam com serviços essenciais de qualidade e, nisso, ainda precisamos avançar”.
Ainda de acordo com Silvia, é possível corroborar com isso no jornalismo através de dados
estatísticos – a redução da criminalidade, melhorias nas condições de moradia e saneamento
básico.
Já Evelyn Moraes ressaltou o papel do jornalista para auxiliar nessa construção. “Às vezes a
gente pressiona o Governo e isso traz resultados, melhorias”. Ela lembra de um caso de mau
atendimento num dos postos de saúde da cidade. Depois de reportagens da Rádio Globo
sobre o assunto, o problema foi resolvido. “Não tem como a gente fechar os olhos para os
problemas”, concluiu. Segundo ela, o jornalismo precisa, sim, falar daquilo que está errado,
mas diante da perspectiva de melhorá-lo.
O argumento foi endossado por Fábio Barreto, do Brasil Urgente. “Isso também se faz através
de um jornalismo isento, com maior liberdade de expressão para abordar qualquer tema que
seja, sem rabo preso”. Ele reiterou a necessidade de formar uma população com senso crítico,
que veja além daquilo que lhes é apresentado pelas campanhas de publicidade. “Também vejo
muitos jornalistas pararem naquilo que enxergam. Precisamos ir além: analisar os dados com
cuidado, informar no real sentido da palavra”.
Se não com o uso da linguagem verbal, que seja como fez Gabriel de Paiva, fotojornalista d’O
Globo. “Acho que fotógrafo não tem que falar muito: tem que mostrar”. As fotografias de
Gabriel explicam sem palavras o que queria dizer Fábio Barreto: o jornalismo é um exercício
diário de olhar. Para as pessoas, para a cidade, para o que até parece óbvio às nossas retinas.
De acordo com os presentes, o bom jornalismo se aplica a tudo na vida. Ser jornalista, como
colocou Silvia, é se colocar num lugar de onde é possível refletir sobre a sociedade.

Melina França (Agência UVA)

Marca RJ é foco de debate na UVA

Em sua 9ª edição, a Semana de Comunicação (SECOM) da Universidade Veiga de Almeida, (UVA) trouxe como principal tema a marca RJ. O tema foi abordado entre palestras e oficinas que aconteceram de 3 a 5 de junho, com o objetivo principal de estimular uma interação entre profissionais e estudantes da área da comunicação. Durante o evento, diversas palestras foram oferecidas aos participantes com enfoque no tema proposto pelo evento, e um conceito se repetiu, mais do que qualquer outro, ao longo dos 3 dias do evento. Transparência.

A marca RJ está empenhada em transformar a sua aparência caótica e distorcida, em uma nova face, sem mentiras ou desculpas. Esta nova postura da cidade foi muito bem recebida e absorvida por todos os estudantes que frequentaram o evento. “Eu acabei de compartilhar com todos os meus amigos que não vieram, que essa foi uma das melhores palestras que fui esse ano”, relatou Desirré Barreto, 25 anos, sobre a palestra que aconteceu na parte da noite, no primeiro dia do evento.

É importante entender que o costume abordado por muitos alunos é de que a SECOM é uma oportunidade para conseguir horas de atividade complementares, que são horas que o aluno precisa ter em seu currículo acadêmico para poder se formar, contudo este ano o atrativo da cidade carioca como tema do evento trouxe a atenção e o real interesse dos alunos.

João Victor, 21 anos, está no terceiro período de Publicidade e se surpreendeu com o fato de ter gostado tanto do evento. “Não esperava gostar tanto de tudo que foi dito, consegui me apaixonar ainda mais pela minha cidade e me arrepender por não ter vindo na SECOM desde o meu primeiro período, se esse ano foi bom, os outros devem ter mantido o mesmo nível. Ano que vem farei questão de tentar participar na organização do evento”.

A 9ª edição da Semana da Comunicação, junto com os palestrantes, as oficinas e o tema abordado, apresentou aos alunos e professores que o mundo está cada vez mais transparente e, portanto, não apenas as marcas, mas qualquer pessoa que não adotar essa nova postura baseada na verdade, poderá ficar sozinho nas esquinas escuras de uma mentira.

Rodrigo Marinho – 8º período de Jornalismo